Introdução

Antes do “incidente” de “Resident Evil 1” ocorrer, Wesker deixou um relatório relacionado ao fato, que ele dividiu em cinco partes, ao longo dos últimos vinte anos.

O relatório foi enviado para “Ada Wong”, mas detalhes sobre essa pessoa não estão claros.

O relatório está publicado aqui.

ATENÇÃO: o registro a seguir contém spoilers sobre Resident Evil 1,2, 3 e CODE: Veronica.

O Experimento

– 31 de Julho, 1978 –

Era verão, há vinte anos, e eu tinha dezoito anos quando visitei aquele local pela primeira vez. Eu ainda posso sentir o mau cheiro do ar agitado pelo movimento das hélices do helicóptero. A mansão parecia perfeitamente normal quando vista de cima, mas do chão, eu senti algo que me fez ter medo de entrar lá. Birkin, que era dois anos mais novo do que eu, estava interessado em nada mais além do artigo científico que estava lendo.

Nós fomos designados para aquele lugar dois dias antes, o mesmo dia em que eles decidiram fechar o centro executivo ao qual pertencíamos. Tudo pareceu cuidadosamente planejado ou pura coincidência, mas só Spencer sabe. Aqui, no Laboratório Arklay, era o local onde o próprio Spencer possuía uma base de pesquisa para o t-vírus.

Assim que saímos do helicóptero, vimos o diretor do laboratório, que nos esperava no elevador. Eu nem consigo lembrar o nome do cara. O cargo dele não importava, o laboratório pertencia a mim e Birkin a partir daquele dia. Foi-nos dada total autoridade como chefes de pesquisa. Esta era, claro, a intenção de Spencer. Nós fomos escolhidos. Ignoramos totalmente o diretor e entramos no elevador, já que no dia anterior, eu havia decorado o mapa do lugar. Quanto a Birkin, ele não tinha a intenção de ofender, mas nunca tinha tempo para os outros. Estar em nossa companhia por mais de cinco segundos deixaria a maioria das pessoas irritada. O diretor do laboratório, entretanto, não mostrou reação.

Eu era um jovem egoísta nessa época, não me importei com a falta de reação dele. Afinal, enquanto estava lá, eu não era mais que um fantoche de Spencer, e o diretor do laboratório conhecia suas intenções muito melhor do que eu, então agiu de acordo. Enquanto nós estávamos no elevador, Birkin estava concentrado em seus artigos, que continham dados detalhados sobre o Ebola, um Filovirus, que havia sido descoberto na África dois anos antes. Até agora, várias pessoas ainda estudam o Ebola. Mas existem dois propósitos distintos. Alguns estudam o vírus para salvar vidas, outros têm objetivos mais nefastos.

Noventa por cento dos infectados por Ebola irão morrer. Uma vez infectado, os tecidos do corpo são destruídos em dez dias. Não há vacina ou cura. Se usado como arma, é incrivelmente assustador. Claro que o Tratado de Proibição do Uso de Armas Biológicas entrou em vigor muito antes disso, o que tornava ilegal conduzir pesquisas com o uso potencial de vírus como armas. Entretanto, é totalmente legal conduzir pesquisas para prevenir espalhamento de vírus, caso este seja usado como arma. Existe uma linha tênue entre as duas pesquisas – na verdade, não há praticamente nenhuma diferença entre as duas – já que você precisa investigar como o vírus pode ser usado como arma para saber como ele deve ser contido.

Isso significa que é possível fingir que aquela pesquisa tem o propósito de prevenir e curar, enquanto o objetivo verdadeiro é justamente o oposto. Entretanto, Birkin não estava interessado em nenhuma dessas linhas de pesquisa, já que o vírus tinha muitas imperfeições.

Primeiro, porque ele morre facilmente em contato com a luz do sol e só sobrevive fora do corpo do hospedeiro por alguns dias. Segundo, o vírus não tem tempo suficiente para passar para um próximo indivíduo, já que ele mata o hospedeiro inicial muito rapidamente. Terceiro, o vírus é transmitido através de fluidos e secreções corporais, o que pode ser facilmente prevenido.

Contudo, considere isso: e se as pessoas infectadas pelo vírus pudessem ficar de pé e andar? E se, inconscientemente, elas procurassem ter contato direto com pessoas não infectadas? O material genético do Ebola é de RNA. Genes de RNA podem induzir mutações em genes humanos e essas mutações podem fazer com que os humanos tenham uma semi-imortalidade sobre humana.

Essa criatura seria uma “Arma Biológica Humana” – para todas as causas efeitos, morto como ser humano, mas ainda infectando outros humanos enquanto ainda estiver vivo. Era sorte nossa que o Ebola não possuísse essas características. Nós manteríamos essa capacidade do Ebola somente entre nós.

A empresa criada por Spencer tinha o propósito de criar essa “arma viva”. Oficialmente, era somente uma empresa farmacêutica especializando-se na cura para o vírus, mas na verdade, era uma fábrica de produção de armas biológicas. A descoberta do Vírus Progenitor, que pode modificar genes, era a gênese de todo esse negócio.

Para criar a “Arma Biológica Humana” a partir do Vírus Progenitor, era necessário desenvolver uma linhagem com aquela capacidade peculiar, mas melhorada. Esse era o Projeto t-vírus. O Progenitor é um vírus de RNA. Estes são conhecidos por ter a tendência de sofrer mutações. Essa tendência nos permite manipular seus genes, fortalecendo certas peculiaridades.

Birkin imaginou se poderia combinar o genoma do Ebola com o Progenitor para melhorar suas características. A amostra de Ebola já havia chegado ao seu laboratório. Após trocar de elevadores, nós chegamos à unidade de segurança máxima do laboratório. Até mesmo Birkin tirou os olhos do relatório quando nós a conhecemos pela primeira vez.

Não sabíamos nada sobre ela. Era o maior segredo do laboratório e seus dados nunca foram desconsiderados. Os relatórios mostravam que ela estava lá desde que o instituto foi criado. Ela tinha 25 anos. Ninguém sabia quem ela era ou porque estava lá. Ela era uma cobaia humana para se desenvolver o t-vírus. O experimento começou no dia 10 de novembro de 1967. Ela estava recebendo injeções de vírus há dez anos.

Birkin murmurou alguma coisa. Estava admirando ou amaldiçoando? Nos demos conta que não havia volta. Estávamos lá para levar a pesquisa ao sucesso ou apodrecer como ela? Não tínhamos escolha. A visão dela, presa a uma cama de hospital mexeu com a nossa consciência. Isso era parte dos planos de Spencer?

(O registro continua três anos depois).

Alexia I

– 27 de Julho de 1981 –

Hoje uma menina de dez anos foi nomeada pesquisadora sênior no laboratório do Polo Sul. Seu nome era Alexia Ashford. Eu tinha 21 anos, e Birkin tinha 19.

O rumor sobre Alexia no Polo Sul tomou conta dos assuntos entre os pesquisadores em Arklay. O nome Ashford era lendário entre os veteranos da Umbrella. Sempre que a pesquisa não evoluía, eles sempre diziam “Se o Dr. Ashford ainda estivesse vivo…”. Com certeza, o Dr. Ashford era um grande cientista, um dos pesquisadores que descobriram o Progenitor, o que deu origem ao projeto t-vírus. Entretanto, ele morreu logo após a criação da Umbrella. Treze anos se passaram desde a morte dele. Qual é a lógica de se esperar algo vindo dos Ashfords? Na verdade, o laboratório do Polo Sul, criado após da morte do Dr. Edward, por seu filho, não havia gerado resultados.

Então, não se pode esperar grandes feitos de sua neta, Alexia. Entretanto, a partir daquele dia, os velhos caducos que eram nossos subordinados começaram a falar “Se a senhorita Alexia estivesse aqui…”.

Parecia não haver potencial nesse laboratório enquanto tivéssemos uma equipe com esse bando de idiotas, que só conseguiam julgar as pessoas por seu sangue, em vez de usar seus sensos críticos. Esses palhaços nunca tomam iniciativa de nada e continuariam sendo pesquisadores comuns, embora já estivessem com o pé na cova. Eu era diferente. Eu tinha discernimento.

Se eu, pesquisador chefe, tivesse me tornado emocional, o desenvolvimento do t-vírus teria se atrasado ainda mais. Para alcançar resultados, alguém tem que se manter calmo e fazer decisões apropriadas, independente das circunstâncias.

Tive uma idéia – O sucesso da pesquisa dependia de como lidávamos com aqueles senhores de idade. Já que eles poderiam cair mortos a qualquer momento, não seriam úteis se os usássemos nos experimentos mais perigosos? A arte da administração é saber usar todos a sua volta. Entretanto, Birkin estava se tornando um incômodo. Sua reação com os rumores sobre Alexia era tão patética.

Embora ele nunca tenha dito, ele tinha orgulho de ser o pesquisador chefe mais jovem, com 16 anos, mas a menina de 10 destruiu seu troféu imaginário em pedacinhos. Deve ter sido a primeira vez em que ele se sentiu derrotado. Ele nunca aprovaria alguém que fosse mais novo que ele, com sangue nobre e mulher. Era inimaginável que ele estava sendo afetado por uma pessoa de um lugar tão distante, de onde não havia resultados há tanto tempo. Apesar de tudo, ele ainda era um garoto. Como ele era imaturo, eu precisava fazê-lo se recompor. Após os últimos três anos, nossa pesquisa chegou ao estágio dois.

Nessa época, o t-vírus estava se tornando estável o suficiente para criar armas biológicas vivas, mais conhecidas como zumbis. Entretanto, o vírus jamais seria capaz de modificar o genoma de 100% dos indivíduos – existem compatibilidades entre genes e vírus, porque o genoma de uma pessoa nunca é exatamente igual ao de outra.

Dez por cento dos humanos teriam a sorte de não desenvolver doença, mesmo que um zumbi tenha os infectado com o vírus. Não havia nada que pudéssemos fazer sobre isso, não importa o quanto tentássemos. Se tivéssemos uma taxa de sucesso de noventa por cento, então o vírus seria considerado bom para ser usado como arma biológica, mas Spencer não parecia estar satisfeito. Nosso chefe queria uma arma única, que pudesse destruir uma população inteira de uma só vez, mas por quê?

Essencialmente, a vantagem das armas biológicas são seus baixos custos de desenvolvimento, mas nossa arma biológica viva estava se tornando extremamente cara. Spencer jamais teria escolhido esse caminho se estivesse buscando retorno financeiro. Se manufaturada para ser usada em conjunto com uma arma convencional, teria gerado um belo resultado, mas para manter o progresso da pesquisa e fazer uma arma exterminadora e única, não fazia muito sentido financeiro.

Apesar das intenções de Spencer, Birkin estava planejando uma arma biológica viva com maior capacidade de combate. Ele estava tentando criá-la não somente através da mutação de genes humanos induzida pelo t-vírus, mas também adicionando informações genéticas de outras criaturas. A arma biológica viva com capacidade de lutar mataria todos os seres humanos, incluindo os que usassem coletes a prova de balas ou outros equipamentos de proteção militar e os que tivessem escapado da morte causada por infecção. Posteriormente, esta arma foi chamada de Hunter, mas tivemos que suspender os experimentos por um tempo, para proteger as cobaias de Birkin.

Birkin, que possuía um ódio sem sentido por Alexia, começou a agir de forma estranha. Ele trabalhava até tarde da noite no laboratório e repetia experimentos de forma totalmente desorganizada, um atrás do outro. Eu e a equipe coletamos amostras de biopsia o mais rápido possível, antes de as cobaias morrerem, mas era impossível acompanhar a velocidade dele. O diretor do laboratório nos enviava novas cobaias como se nada estivesse acontecendo, mas elas não sobreviviam muito tempo.

Era um inferno, mas ela, a mulher cobaia, sobrevivia ao inferno. Ela tinha 28 anos naquela época e tinha passado catorze anos no laboratório. As várias injeções de Progenitor que ela recebeu durante todos esses anos a deixaram desprovida de qualquer pensamento lógico, mas ainda havia alguns pensamentos restantes em sua mente. A morte deveria ser a única coisa que ela desejava.

Mas ela continuou a viver. Por que ela era a única a sobreviver? Os dados experimentais não mostravam nenhuma diferença entre ela e as outras cobaias. Nós precisávamos de muito mais tempo para descobrir a resposta para aquela pergunta.

(O registro continua dois anos depois).

Alexia II

– 31 de Dezembro de 1983 –

Meu sexto inverno no Laboratório Arklay.

Dois anos praticamente estagnados passaram sem muitos resultados, mas o momento decisivo finalmente havia chegado. O estimulante foi um relatório que recebemos hoje de manhã. Alexia havia morrido no instituto do Polo Sul.

Foi dito que Alexia foi infectada por acidente pelo t-Veronica, o vírus que ela mesma desenvolveu. Naquela época, Alexia tinha doze anos, e muito jovem para dar continuidade a esse tipo perigoso de pesquisa.

Um rumor começou a circular, de que Alexia havia se infectado de propósito, mas parecia pouco provável. Provavelmente, ela não superou a morte do pai no ano anterior e cometeu um erro.

No instituto no Polo Sul, a pesquisa de Alexia foi assumida por seu irmão gêmeo e único parente de sangue, mas ninguém esperava resultados que valessem a pena viessem dele. A linhagem da família Ashford parecia ter praticamente sido extinguida sem produzir nada valioso. Como eu suspeitava, a lenda sobre a família não era nada demais.

A morte de Alexia fez Birkin mudar – ou devo dizer, fez com que ele voltasse a ser o que era. Foi um fator importante no bem estar psicológico de Birkin e seus pesquisadores passaram a mostrar mais respeito por ele. Com Alexia morta, não havia mais ninguém com potencial maior que o dele. Entretanto, falar de Alexia na frente dele ainda era um tabu. Birkin discordou fortemente quando eu tentei adquirir uma amostra de t-Veronica. Eu tinha que esperar o momento oportuno para descobrir a verdade sobre a pesquisa de Alexia. Apesar do fato de Birkin estar em uma posição muito forte, ele nunca amadureceu. Entretanto, naquela época, eu tinha problemas bem maiores com que me preocupar.

O Laboratório Arklay estava situado no centro de uma região montanhosa, rodeado por uma floresta densa. De vez em quando eu saída para caminhar enquanto estive lá, mas nunca cruzei com ninguém. Helicóptero era a única forma de chegar ao laboratório, tornando-o inacessível a pessoas de fora. O isolamento da área e a falta de pessoas são fatores importantes na hora de escolher um local para um instituto como esse, para minimizar um desastre em potencial caso o vírus escape. Entretanto, as armas biológicas não eram tão simples assim. Os vírus não infectavam somente seres humanos.

Nenhum vírus escolhe um único tipo de hospedeiro. Por exemplo, além dos humanos, o vírus Influenza pode infectar pássaros, porcos, cavalos e até leões marinhos. Tudo fica ainda mais complicado quando você sabe que nem todas as espécies de uma mesma família podem ser infectadas, mas algumas espécies de pássaros são poupadas. Ainda, o mesmo vírus pode infectar diferentes hospedeiros, dependendo de suas diferentes linhagens. É impossível saber todos os hospedeiros de um único vírus. O maior problema é a alta adaptabilidade do t-vírus.

Enquanto Birkin não estava contribuindo muito eu estudei a possibilidade de infecções secundárias pelo t-vírus. O que eu descobri é que o t-vírus possui hospedeiros em quase todas as espécies. Não somente mamíferos, mas também plantas, insetos, peixes… Quase todas as espécies tem potencial para multiplicar e espalhar o t-vírus. Enquanto passeava na floresta, sempre pensava – Por que Spencer escolheu esse local?

Havia muitas espécies que viviam na floresta. O que poderia acontecer se o vírus escapasse e entrasse em contato com uma criatura capaz de ser seu hospedeiro? Se fossem insetos, talvez não fossem uma grande ameaça devido ao tamanho, mas insetos podem se multiplicar em grande número.

Nesse caso, até onde o vírus poderia se espalhar? Imagine que plantas pudessem ser hospedeiros. Pode parecer inicialmente que o espalhamento da infecção seria pequeno, já que plantas não se movem, mas e o pólen?

Essa localização é muito perigosa. Fazia total sentido os Ashfords terem escolhido o Polo Sul como localização para o laboratório deles. Em contraste, essa localização, parece que foi selecionada de propósito, para espalhar o vírus. Mas não poderia ser verdade, não é? O que Spencer queria que nós fizéssemos?

Esses pensamentos eram muito importantes para compartilhar com qualquer um no laboratório. A única pessoa com quem eu poderia conversar era Birkin, mas era óbvio que não havia sentido em falar com ele sobre isso. O que eu precisava era de mais informações.

Nessa época, eu comecei a perceber as limitações da minha situação. Para descobrir a verdadeira intenção de Spencer, eu tinha estar em uma posição em que eu pudesse ter acesso às informações que precisava. Eu não hesitaria em desistir da minha posição atual para isso, mas eu não queria parecer muito apressado, porque se Spencer tivesse alguma suspeita de minhas verdadeiras intenções, estaria tudo terminado.

Eu me concentrei em minha pesquisa com Birkin, para que meus pensamentos não me traíssem. Enquanto nos mantínhamos ocupados, a mulher cobaia foi quase esquecida. Uma falha, sem utilidade, mas ainda viva. Nós a chamávamos de falha porque não conseguíamos extrair nenhum dado válido dela. Até que aquele experimento aconteceu, cinco anos depois…

(o registro continua cinco anos depois).

Nemesis

– 1º de Julho de 1988 –
Era o nosso décimo primeiro verão desde que chegamos ao Laboratório Arklay. Eu tinha 28 anos. Birkin era, então, o pai de uma menina de dois anos. Sua esposa também era uma pesquisadora em Arklay. Era muito difícil de acreditar que alguém pudesse casar e criar uma criança enquanto os dois trabalhavam aqui. Por outro lado, como ele era diferente, poderia continuar sua pesquisa em Arklay. Só os loucos conseguiriam ter sucesso aqui.

Nesses dez anos nossa pesquisa finalmente alcançou o estágio três. Uma arma biológica de combate altamente sofisticada – com inteligência e que obedeceria ordens programadas e agiria como um soldado. Esse era a criatura que nós tentamos criar e o chamamos de Tyrant (tirano).

Mas, logo no começo havia um grande obstáculo – era quase impossível conseguir uma cobaia viva que pudéssemos usar como base para o Tyrant. A oferta de seres humanos geneticamente adaptados para fazer um Tyrant era extremamente limitada.

Isso ocorre devido à natureza do t-vírus. A linhagem do t-vírus que era ideal para criar zumbis e hunters era adaptada a quase todos os humanos, mas tinha o defeito de matar as células nervosas do hospedeiro. Para transformar o hospedeiro em um Tyrant, nós precisávamos manter a inteligência do hospedeiro em certo nível. Para superar esse problema, Birkin estava trabalhando para extrair uma linhagem que causasse o menor dano ao cérebro quando fosse adaptada perfeitamente ao hospedeiro.

Entretanto, humanos compatíveis geneticamente com essa linhagem são extremamente raros. Em uma análise de simulação genética, concluiu-se que somente um a cada dez milhões poderiam ser infectados e se transformar em Tyrant.

Teria sido possível desenvolver uma linhagem mais avançada do t-vírus que podesse transformar humanos em Tyrants. Entretanto, para levar a pesquisa adiante, nós precisaríamos, primeiro, de cobaias humanas que fossem geneticamente compatíveis com a linhagem.

Havia uma pequena possibilidade de uma cobaia como essa nos ser entregue, porque mesmo que vasculhássemos todos os EUA, nós só seríamos capazes de encontrar mais ou menos 50. De fato, nessa época, mesmo com o maior dos esforços, nós só conseguiríamos coletar algumas cobaias com compatibilidade. Mesmo que ainda no princípio, nossa pesquisa estava paralisada.

Um dia, ouvimos um rumor de que um laboratório europeu estava desenvolvendo um projeto para criar uma terceira arma biológica viva. Era chamado Projeto Nemesis.

Eu agi rapidamente para obter uma amostra do projeto para poder usá-la como nossa vantagem. É claro, Birkin era contra a ideia, mas de alguma forma eu consegui convencê-lo. Ele não tinha escolha a não ser admitir que a nossa pesquisa não iria adiante se não encontrássemos uma cobaia compatível. Alguns dias depois, no meio da noite, um pacote chegou da Europa em nosso heliporto.

Nós tivemos que mexer muitos pauzinhos para obter a amostra do laboratório francês onde havia sido desenvolvido o parasita, mas jamais teríamos conseguido sem a ajuda de Spencer. Birkin não mostrou interesse, mas ele aceitou a importância do experimento. As amostras foram desenvolvidas com a ideia de um novo projeto.

Um parasita, criado por modificações genéticas – este era Nemesis. Um ser vivo com inteligência, mas que era incapaz de fazer qualquer coisa sozinho. Entretanto, quando parasitando o cérebro de outro organismo, tomaria total controle do corpo e demonstraria sua alta aptidão desenvolvida para o combate. O projeto tinha o objetivo de prover inteligência e um corpo separadamente e aí combiná-los para criar uma arma biológica viva.

Se conseguíssemos, não precisaríamos mais nos preocupar com os problemas que encontramos antes, mas havia um novo problema: nem sempre o parasita se adapta ao hospedeiro da forma como gostaríamos.

No relatório anexado à amostra, nós não vimos nada além de uma longa lista de mortes. Os hospedeiros duravam apenas cinco minutos após Nemesis controlar seus cérebros, mas nós já sabíamos que um protótipo seria altamente perigoso. Se nós conseguíssemos prolongar o tempo de sobrevivência dos hospedeiros, poderíamos tomar a liderança do projeto Nemesis. Esse era o meu objetivo. Naturalmente, eu estava planejando usar a mulher cobaia. Com sua habilidade anormal de sobreviver, ela poderia suportar o protótipo de Nemesis por um período longo de tempo. Mesmo que falhássemos, não perderíamos nada.

Entretanto, nossos experimentos tomaram um rumo inesperado. Nemesis desapareceu quando tentou entrar no cérebro dela. Primeiro, nós não conseguíamos acreditar no que havia acontecido. Nós nunca pensamos que ela dominaria o parasita. Isso era só o começo. Até então, ela mal estava viva, mas alguma coisa estava prestes a despertar nela. Nós começamos a examiná-la novamente.

Nos últimos dez anos ela foi examinada até os mínimos detalhes, mas nós decidimos ignorar os dados antigos e começamos tudo de novo. Agora, pela primeria vez nos 21 anos em que ela esteve aqui, alguo que ninguém havia visto estava pra ser revelado.

Após muitos exames, somente Birkin percebeu. Algo realmente existia dentro dela. Isso, entretanto, ia além do projeto original do t-vírus e nos fez seguir em uma direção totalmente diferente. Era o início do projeto G-vírus, que mudou nossos destinos.

(O Registro Continua 7 Anos depois)

G-Vírus

– 31 de Julho de 1995 –
Era verão outra vez e fazia 17 anos desde a primeira vez que eu visitei aquele lugar. Sempre que ia até lá eu lembrava do cheiro dos ventos daquele dia. Nada mudou desde aquela época, mesmo os prédios e os arredores. Eu estava vendo Birkin, que já havia chegado, parado no heliporto. Eu não o via há bastante tempo. Quatro anos se passaram desde que eu deixei o Laboratório Arklay.

Naquela época, quando o projeto G-vírus foi aprovado, eu pedi transferência para o Serviço de Informações da Umbrella e foi rapidamente aceito. Deve ter parecido normal para todo mundo que eu estava desistindo da minha carreira como pesquisador e procurando uma mudança. Na verdade, o projeto G-vírus estava além das minhas habilidades. Mesmo que eu não tivesse motivos para descobrir as verdadeiras intenções de Spencer, era verdade que eu sentia que meus conhecimentos como pesquisador tinham chegado ao limite.

Apesar da ventania causada pelo helicóptero, Birkin nunca tirava os olhos dos relatórios de pesquisa. Embora parecesse que ele ainda visitava Arklay regularmente, ele não era mais um pesquisador do complexo. Há algum tempo, ele foi transferido para um grande laboratório subterrâneo em Raccoon City, onde seria a base de pesquisa para o projeto G-vírus, liderada por ele mesmo.

Honestamente, quatro anos atrás, eu nunca pensei que Spencer aprovaria o projeto G-vírus porque este se baseava em uma ideia desconhecida e desviava do conceito original de arma biológica.

A diferença que distinguia o G-vírus do t-vírus era que o organismo infetado pelo G-vírus continuava a sofrer mutações sozinho. Como um vírus é uma forma desprotegida de um genoma, pode facilmente sofrer mutação. Essa mutação pode acontecer quando um vírus é deixado fora de um hospedeiro, mas quando o vírus está dentro de outro organismo, é outra história.

Dificilmente, um gene sofre mutação em um organismo, mesmo que sua estrutura seja modificada por um vírus, a não ser que haja alguma influência externa, como exposição a radiação. Entretanto, um organismo infectado com o G-vírus continua sofrendo mutações sem interferências externas até que morra.

Algumas características semelhantes existem no t-vírus. Quando colocamos a arma biológica viva sob certas circunstâncias, nós observamos algumas recombinações gênicas causadas por um vírus ativado em seu corpo. Entretanto, no caso do t-vírus, sempre havia necessidade externa para disparar a recombinação e os resultados sempre eram próximos ao esperado. Os organismos infectados pelo G-vírus não eram previsíveis. Ninguém podia prever que tipo de recombinação ocorreria e quais seriam os meios necessários para parar o processo de mutações descontroladas.

Sete anos atrás, Birkin encontro sinais desse efeito na mulher cobaia. Por fora, ela não havia mudado em nada, mas internamente, ela mudava continuamente e continuava viva pela mistura e pela coexistência com outros vírus experimentais que recebeu. E 21 de mutações internas a fizeram evoluir o suficiente para aceitar o parasita Nemesis. O projeto G-Vírus estava tentando levar essa anormalidade ao seu limite, mas o resultado final desse projeto poderia ser tanto a evolução máxima de um organismo ou sua total destruição. Poderíamos chamar isso de arma?

O que fez Spencer aprovar esse projeto? Embora eu tenha ficado no Serviço de Informações por quase quatro anos, eu ainda não consigo entender seus motivos. E agora, Spencer nem sequer vem a Arklay. É como se ele estivesse prevendo que alguma coisa estivesse para acontecer lá. A imagem que eu tenho na mente é de Spencer desaparecendo, como uma miragem no meio do deserto, mas uma oportunidade deve aparecer em algum momento. Se eu sobreviver até lá.

O elevador estava levando Birkin e eu para o andar com maior nível de segurança, para o lugar aonde nós o vimos pela primeira vez – o novo pesquisador chefe, John, o sucessor de Birkin, estava nos esperando lá.

Ele foi transferido do laboratório de Chicago e é conhecido como um excelente cientista, mas ele pareceu muito normal para trabalhar nesse laboratório. Ele tinha dúvidas sobre a crueldade da pesquisa e pedia a seu superior para corrigir a situação. Isso causou um grande tumulto, mesmo no Departamento de Informações. Todo mundo tinha a opinião de que se alguma informação vazasse, deveria ter vindo dele. Nós ignoramos John e começamos a aplicar o tratamento final nela. Para matá-la.

Ela ganhou um pouco de inteligência após ter absorvido Nemesis, mas isso resultou em nada mais do que fazê-la agir estranhamente. O comportamento anormal continuou a aumentar. Atualmente, ela arranca a pele do rosto de outras mulheres e coloca sobre o seu próprio. Os registros mostram que ela se comportou da mesma maneira quando recebeu o Progenitor. Nós nunca tivemos certeza o que fez com que ela reagisse dessa maneira, mas sua eutanásia foi decidida após três pesquisadoras terem tornando-se vítimas. Agora que o projeto G-vírus estava em progresso, ela perdeu seu valor como cobaia preciosa.

A extinção dos sinais vitais dela foi checada e confirmada repetidamente pelos três dias seguintes. Depois, o corpo dela foi levado a um lugar determinado pelo diretor do laboratório. Até agora, eu não sei quem ela era e porque ela foi trazida para cá. Claro que esse era o caso de todas as cobaias. Entretanto, se ela não tivesse ficado aqui, o projeto G-Vírus não teria existido e eu e Birkin estaríamos em situações bastante diferentes.

Quando deixei o laboratório, estava pensando em outras coisas. O quão calculista era Spencer?

(O “caso” começou três anos após esse relatório).

 


 

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