A franquia de filmes de Resident Evil chega à sua quinta parte sem perder o fôlego, pelo menos nas bilheterias. RE5: Retribuição usa e abusa de efeitos para impressionar o público: cenas de ação monumentais, belos visuais, um belo time feminino, excelente uso do 3D. No entanto, o deleite é praticamente só visual. Os erros de filmes passados se repetem: roteiro pobre, história corrida, personagens secundários rasos e mal desenvolvidos.

Alguns trechos desta análise podem ser considerados spoilers.

Logo de cara, “Retribuição” mostra a que veio: um desbunde de efeitos visuais. Conduzindo o legado de “Recomeço”, o 3D é muito usado. No entanto, parece que Paul Anderson aprendeu com os exageros do filme anterior. A estratégia de fazer coisas “voarem” na cara do público é usada de forma mais modesta e quando é feita, tem um impacto menos óbvio do que ocorria no filme anterior. O slow motion também é usado de forma mais inteligente, em momentos em que o efeito se faz necessário.

A cena de abertura é inusitada e causa um efeito bastante positivo – é como se nós estivéssemos dentro da mente de Alice, tentando juntar as peças de uma memória recente. Não somente o longa começa exatamente onde o anterior parou, como explica toda a saga da heroína até então. Caso você não tenha assistido aos outros filmes, não vai cair de paraquedas na história, ainda que ela não seja assim tão complexa.

Apesar da proposta maluca de conduzir a história em um complexo subterrâneo da Umbrella usado para simulações, a trama até faz sentido. De forma inesperada, a existência das instalações, sua construção e propósito são explicados, uma raridade no que se vê nos roteiros de Anderson até aqui (com exceção do primeiro). No fim das contas, a ideia de “mal global” (que teoricamente, já existe desde RE3: A Extinção) é um tanto exagerada. Mesmo que visitemos Tóquio, Moscou, Nova York e Raccoon City, as mudanças de cenários não são tão relevantes. Nas sequências em que os personagens estão em nestas cidades, o local em si não parece fazer diferença, já que a interação maior não é com o ambiente, mas sim com as criaturas. A prova disso é que a sequência em Raccoon City, com o cenário mais simples, é uma das mais interessantes. Enquanto isso, em NY os Axemen roubam a cena e o Licker gigante faz você esquecer que está em Moscou.

A promessa de uma Alice humana é, definitivamente, cumprida. Finalmente, Milla Jovovich mostrou um personagem mais interessante, mais empático do que a “máquina de matar” dos filmes anteriores. Em “Recomeço” a Alice supostamente mostraria seu lado humano após perder os poderes, mas tudo o que foi exibido foram sequências de feitos impossíveis, nada dignas de reles mortais. Sim, a Alice de “Retribuição” ainda é a badass que mata zumbis com acrobacias impossíveis e explosões desnecessárias, mas o quinto longa mostra que existe uma mulher ali dentro daquela casca grossa. Essa impressão não se restringe às cenas com a “Alice Suburbana”, mas também com a “Alice de verdade” e usar uma criança para fazer o lado sentimental da personagem aflorar foi uma excelente estratégia. O que causa estranheza é esse lado humano despertado por Becky não causar nenhum tipo de comoção em Alice quando ela vê seus amigos que morreram nas mãos da Umbrella sendo usados como clones para caçá-la.

Enquanto há um melhor desenvolvimento de Alice, novamente, os personagens secundários são completamente sufocados por sua presença, especialmente quando se considera Leon e Barry. Os pedidos de trazer o personagem de RE4 aos filmes foram finalmente atendidos, mas o roteiro não permite que o personagem seja explorado, conhecido e se torne empático. Johann Urb não já é o que se pode chamar de bom ator e ainda recebeu as falas mais clichês e, com o perdão da palavra, idiotas possíveis (o personagem parece meio burro às vezes, tipo aqueles garanhões retardados do ensino médio de filmes adolescentes). Barry também sofre com um roteiro que não o destaca, mas que quase traz o verdadeiro personagem dos jogos para as telas. Kevin Durand consegue imitar alguns trejeitos, a entonação de voz e faz com que os fãs sintam alguma nostalgia com frases que Barry diria em certas situações. A melhor cena do personagem é quando ele demonstra seu caráter protetor e altruísta – enquanto usa a Magnum de estimação (esta parte da arma fica subentendida somente para quem jogou, tá?). Partindo da perspectiva dos jogos, causa enorme estranheza que Leon e Barry trabalhem para Wesker, mas o roteiro não deixa o público saber se eles são agentes da Umbrella, ou se eram heróis que se converteram à causa do ex-vilão.

Sim, podemos dizer que, a partir de agora, Wesker é ex-vilão. Apesar de não mostrar intenções totalmente claras (mais uma vez, o roteiro falha em explicar um ponto relevante), o personagem está determinado a derrubar a Umbrella e, como em Umbrella Chronicles, dar um fim ao supercomputador Red Queen. Agora, a garota é uma espécie de Skynet, que controla a Umbrella em todos os seus níveis – e odeia a raça humana? É provável que esta seja a ponta solta para fechar a jornada de Alice no próximo filme.

Ainda falando dos personagens dos games, Ada Wong, definitivamente, é destaque. Li Bingbing consegue chegar muito perto da espiã, apesar de faltar sensualidade. A atriz fala com uma voz tão aveludada (e tão livre de sotaque) que chega a passar a impressão de estar sendo dublada por Sally Cahill ou Courtenay Taylor. A personagem é mais bem construída e explorada pelo roteiro do que Leon e Barry, principalmente por dividir a cena constantemente com Alice. No entanto, em certo ponto do filme, Ada perde espaço e destaque – praticamente esquecemos que a bitch in the red dress é uma das principais agentes de Albert Wesker. A relação da personagem com Leon é explorada de forma superficial, com algumas cenas sugestivas (e um momento “vergonha alheia”, o flerte mais tosco possível).

Enquanto Ada é surpresa, Jill é decepção. Sienna vem como a vilã de destaque, o que, supostamente a torna uma personagem importante para a trama, mas não se sabe o que houve com ela desde RE2: Apocalipse. Quando e como ela foi capturada? Desde quando é controlada? Sienna havia dito em entrevista que, assim como a Jill de RE5, ela teria consciência de seus atos enquanto age contra sua própria vontade. Em nenhum momento isso foi mostrado no filme, e tivemos que nos contentar com um robô-Jill “por que sim”. Assim como Barry e Leon, Jill foi “jogada” na trama, como se o público fosse obrigado a saber quem ela é ou lembrar-se da personagem em RE2: Apocalipse. Com o visual completamente diferente e trabalhando do lado dos vilões, é provável que boa parte do público nem faça essa conexão. Se você estranhou que eu não citei Luther até aqui, é porque… bem, ele não é importante e podia ter morrido em “Recomeço”, como chegamos a pensar. Chris e Claire são citados, mas depois da batalha em Arcadia e da destruição do complexo da Umbrella, eu não sei como Paul Anderson irá explicar um possível retorno dos dois à trama.

A proposta dos clones, que foi usada como justificativa bem esfarrapada para trazer Michelle Rodriguez, Oded Fehr e Colin Salmon ao elenco, passou batida. Aliás, “Carlos malvado” e “One malvado” são completamente descartáveis, podendo ser substituídos por qualquer ator que interpretasse um soldado da Umbrella (daqueles que usam capacete, que você nem precisa ver o rosto). Todd, outro clone de Carlos que vive com a “Alice suburbana” até causa certa empatia por imaginarmos como seria caso os dois personagens originais tivessem uma vida feliz, mas ele dura tão pouco tempo na trama que o sentimento desaparece. Michelle é a única que traz dois clones relevantes para a trama. A “Rain Patricinha”, de roupa justa e salto alto deve ter sido um desafio para Michelle, mas foi bem executado. A “Rain Malvada” não só é uma boa vilã para o filme, como rende boas sequências de luta e surge bem mais ameaçadora do que Jill.

A batalha final não chega a ser épica, como prometido, mas é uma excelente sequência de luta. Usando o 3D sabiamente e um artifício parecido com o X-Ray de Mortal Kombat, Paul Anderson mostrou que Jill e Rain estavam chutando bundas. Finalmente, Alice e quase perde a briga, mas, em vez de dar a volta por cima naquele estilo clichê “Rocky Balboa” (apanhar e apanhar até quase morrer e tirar força sei lá de onde para derrotar o oponente), ela usa a cabeça para remover o escaravelho de Jill e derrotar a imbatível Rain.

A volta da dupla Tomandandy à trilha sonora foi uma boa pedida. O bom trabalho de “Recomeço” se repete, com alguns remixes em momentos propícios (“Axemen” e “Tokyo Revisited”), mas algumas trilhas lembravam muito a OST de “Tron – O Legado”.

Resident Evil 5: Retribuição acaba surpreendendo de forma positiva. Apesar de boa parte das melhores cenas terem sido divulgadas na internet e tirado o fator surpresa, o longa acaba sendo um pouco mais do que o amontoado de cenas de ação e “coisas voando na sua cara” como seu predecessor. Apesar do roteiro fraco e a pouca exploração de personagens secundários, o filme tem uma proposta divertida e impressiona pela qualidade visual – o que garante bilheteria gorda e uma continuação. A conclusão épica de Alice provavelmente está garantida. A pergunta que fica é como (e se) Paul Anderson irá saber costurar todas as pontas soltas e dar finais dignos a todos os personagens inseridos na franquia.