Eu sou assumidamente um GRANDE amante de JRPG. Evidentemente gosto de outros gêneros, afinal, se não curtisse survival horror, não estaria aqui escrevendo este texto no REVIL, não é mesmo? O que quero dizer aqui é que os RPGs japoneses são uma parte importante da minha identidade quanto a alguém que respira videogame desde os 4 anos de idade. A Capcom entrou na minha vida de maneira avassaladora com Street Fighter II, mas antes mesmo que pudesse descobrir o meu amor por Resident Evil anos mais tarde, eu tive o prazer de ter Breath Of Fire IV como um dos primeiros RPGs que eu joguei na vida.
Para mim e para muitos que começaram a sua jornada com consoles como SNES e PS1, ver a Capcom ter RPG para chamar de seu e rivalizar com Final Fantasy e Dragon Quest, era algo mágico. Toda grande desenvolvedora tinha o seu, independente de ser a sua especialidade. Com o desaparecimento de Breath Of Fire, Monster Hunter tomou o lugar da série como RPG da casa, apesar de não ser exatamente um RPG tradicional. O tempo passou, a série expandiu e a Capcom testou outras frentes no gênero como Dragon’s Dogma e o Spin Off de Monster Hunter: Monster Hunter Stories.
Com essa subsérie chegando ao seu terceiro jogo em 2026, a Capcom mostra que a sua constante evolução recente e crescente aumento substancial de qualidade de seus jogos não é um acaso. Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection não é perfeito, mas mostra que a Capcom é estúdio capaz de rivalizar com qualquer um do mercado, independente do gênero. Hoje, eu conto para vocês porque tudo que o tempo em frente de Stories 3 me proporcionou, seja dentro do ou fora do jogo em questão.
Entendendo o Monster Hunter
O que é? Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection é o terceiro jogo dessa subsérie de Monster Hunter, se distanciando da gameplay de ação focada em caçadas e se aproximando muito mais de um RPG tradicional por turnos, em todos os aspectos que isso possa implicar: seja no seu combate, progressão e narrativa. Diferente da série principal, Stories aposta na sua história e personagens, mostrando o funcionamento desse mundo com uma ótica distinta da série principal.
Na história, nós fazemos nosso personagem principal, podendo escolher suas características, mas fazendo parte da realeza de Azuria. Aqui, nosso reino, está em conflito com o reino de Vermeil faz algum tempo, mas os dois são obrigados a trabalharem juntos em uma tentativa de selar a paz e enfrentar um desastre iminente. Como um líder de um esquadrão especial, unimos forças com a característica princesa de Vermeil e partimos em uma jornada de descobrimento e muitas reviravoltas.
A história é algo relativamente clichê e sua narrativa não possui nada de muito especial, mas não deixa de cumprir bem o que veio propor. É uma jornada que pouco peca, mesmo que deixe de ousar em alguns momentos. O carisma dos personagens, monstros e capricho na direção das cenas, fazem momentos que poderiam ser comuns algo bem especial. No fim do dia, é como estar jogando um JRPG dos anos 90/2000 e certamente faria muito sucesso em consoles da época, já que tudo aqui é entregue com bastante coração e honestidade. Outro ponto que eu preciso dizer, é o quanto a narrativa evoluiu em relação aos outros dois jogos anteriores. Twisted Reflection se consolida como o jogo mais maduro e sólido dessa até então trilogia, mostrando também que a Capcom está empenhada em corrigir os pontos de crítica, sobretudo em relação ao primeiro.
Monster Stories 3 se aproxima muito da sua influência vinda de jogos como Shin Megami Tensei e principalmente, Pokémon. O colecionismo de monstros é uma parte fundamental dessa experiência. Se na série principal, isso fica por conta das armaduras e armas que forjamos com as características dos monstros caçados, aqui nós recrutamos esses monstros para lutarem ao nosso lado.
O colecionismo é fortíssimo nesse jogo, incentivando a exploração o tempo inteiro, seja para conhecimento e registro da fauna local, mas também para encontrar ovos que possam resultar no aparecimento de monstros raros. Por muitas vezes, me vi comparando Stories 3 com os últimos jogos da franquia Pokémon, do qual eu também sou um grande fã, mas que tem me decepcionado já a algum tempo. Muitas das coisas que desejo e torço para que Pokémon faça, a Capcom conseguiu aqui, posicionando esse jogo muito bem entre aqueles decepcionados com a franquia da Nintendo ou que simplesmente só querem mais desse segmento de RPG. É facilmente um dos melhores dos últimos anos. Nada como explorar esse mundo nas costas de um Rathalos.
Ao combate em turnos
Nada disso valeria sem um bom combate, certo? Essa talvez seja a parte mais polêmica do jogo para alguns, afinal, o jogo adota um combate por turnos bem tradicional sim, mas com mecânicas que dividiram bastante a fanbase do jogo anterior. Em Twisted Reflection, nós temos uma espécie de pedra, papel ou tesoura. Dessa forma, você precisa se atentar a forma de ataque do inimigo, para contra atacar com assertividade. Se você errar, é punido, mas acertando, ganha uma vantagem na luta. Esse sistema no início pode parecer um pouco confuso, porque possuí as suas complexidades, mas com pouco tempo de jogo, isso é deixado de lado.
Na minha experiência, o que tive foram embates realmente divertidos e empolgantes, principalmente contra chefes. A possibilidade de desferir golpes especiais ao lado de seu monstro, é realmente fantástica, com animações de combate que vão encher seus olhos. Também é possível alternar entre as armas e armaduras usadas, tal qual na série principal, mudando o estilo de combate fortemente, incentivando os jogadores a terem opções para diferentes situações.
Monster Hunter Stories 3 não é bem um mundo aberto, mas vem com mapas bem grandes para serem explorados. Com mapas extensos, isso também pode implicar em um jogo recheado de conteúdo, o que é o caso. Aqui, você vai encontrar uma enorme lista de afazeres além da história principal, que vão te ocupar por bastante tempo com diferentes dificuldades. Algumas dessas atividades são bastante inspiradas, servindo como grande complemento para este mundo e seu funcionamento, além da narrativa em si. Nem sempre você vai encontrar atividades secundárias de muita inspiração, por vezes até se repetem, mas chegam a ser algo preguiçoso ou desnecessário. Tudo é posto no jogo com sentido lógico, independente da qualidade.
A questão é que a campanha em si é bastante longa, levando cerca de 40 a 50 horas para ser concluída, o que pode acabar afastando algumas pessoas que têm pouco tempo para se dedicar a jogos como esse. Para fazer 100% do game, você vai levar algo próximo das 100hrs. Apesar de gostar de tudo que foi apresentado, eu tive um sentimento de que parte do conteúdo poderia ter sido condensado, sobretudo algumas missões que acabam se assemelhando demais. A sensação no fim do jogo é de que ele acaba se estendendo mais do que deveria também. Não chega a ser um exagero, como em recentes jogos da série Assassin’s Creed por exemplo, mas é um ponto a se considerar sim.
Estilo visual e escolha de jogo
Graficamente e artisticamente, Twisted Reflection é um espetáculo. O jogo adota o famoso Cel Shading, técnica que transforma modelos 3D em 2D, ficando muito próximo de uma animação do estúdio Ghibli, que é certamente a referência artística para construir os designs de mundo e de personagens, assim como foi o segundo jogo. Dessa forma, mesmo que parta para uma abordagem mais estilizada que na série principal, continua lindo e visualmente deslumbrante.
Apesar de ter jogado na maior parte do tempo no Steam Deck, onde visualmente já é incrível e roda de maneira bem satisfatória, até acima dos 30 FPS, também experimentei o jogo no meu PC de hardware mais parrudo, onde pude ver o funcionamento dele em toda sua glória, sem quaisquer problemas de desempenho, provando que a RE Engine sim, pode se comportar bem em mapas mais amplos. A parte sonora também merece o seu destaque: com composições lindas, algo que é de praxe de toda a franquia, compondo ainda mais os belos momentos do jogo que acompanha legendas em português.
Concluindo Stories 3
Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection, é um RPG maravilhoso que evolui muito a fórmula dessa sub-série que começou lá no 3DS. É um típico RPG japonês com tudo que você pode esperar de uma grande aventura desse porte, que certamente vai arrancar um belo sorriso de quem curte especialmente esse segmento do gênero, com um jogo bonito, divertido e vasto.
Apesar de derrapar em alguns momentos de repetição e acabar se estendendo um pouco além da conta, é uma aventura que vale muito a pena o seu investimento de tempo e dinheiro, sem necessidade alguma de ter jogado os anteriores para desfrutar dessa jornada. Também é uma prova viva de que a Capcom ainda tem o que é preciso para fazer tradicionais RPGs japoneses como nas últimas duas décadas, abrindo precedentes enormes não só para Monster Hunter Stories 4, mas quem sabe até, para reviver Breath Of Fire das cinzas.
Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection foi analisado com uma chave digital para Steam cedida pela Capcom Brasil ao canal Pixel do Gusta, de Gustavo Evans (Equipe REVIL).












