Análise – Beast of Reincarnation – Steam

Acredito que todos já fomos surpreendidos em uma obra, seja porque chegamos até ela com baixas expectativas, ou simplesmente porque não fazíamos ideia do que estávamos prestes a encontrar. Em meio à recepção divisiva que Beast of Reincarnation recebeu, esse é um exemplo de como algo pode nos surpreender.

Desenvolvido pela Game Freak (sim, a mesma de Pokémon), Beast of Reincarnation é um RPG de ação com elementos de turno e exploração. É um novo passo para a desenvolvedora fora do mundo de Pokémon. Apesar de algumas ressalvas, acredito que acertaram em criar uma experiência completa e marcante.



“Emoções apenas nos atrapalham. É por isso que a humanidade procurou se livrar delas.”

Essa é a frase que introduz o mundo de Emma, uma Purificadora que tem como dever eliminar monstros que assolam a nossa terra, os chamados Profanos. Em um mundo e Japão pós-apocalíptico, uma doença chamada pestilência devastou grande parte da humanidade, e os poucos sobreviventes que restaram contam com a ajuda dos Purificadores para derrotar e absorver a praga que ainda se espalha. Entretanto, os Purificadores não são bem vistos, pois carregam com si a própria pestilência.

Emma vive reclusa em uma pequena cabana junto de seu cachorro Ko, e não possui sentimentos como um ser humano comum. Quando necessária, ela é requisitada para abater feras na região e recebe alimentos muitas das vezes como pagamento e caridade de uma vila próxima.

Em um dia comum, Emma é chamada para dentro da vila e é encarregada de uma missão, dada pelo Administrador, residente da Capital e uma espécie de líder da humanidade resistente. A missão não poderia ser outra para a protagonista: devemos procurar pistas de criaturas chamadas de Nushi, para que possamos eliminar e absorver seus poderes, a fim de nos fortalecer para enfrentarmos futuramente o grande mal daquele mundo, a Fera da Reencarnação, um ser místico que ressurge de tempos em tempos e com ele traz cada vez mais desgraça e destruição. Dessa vez, a Fera supostamente atacará a Capital e é o dever de Emma impedir que isso aconteça. Sem muito espaço para recusa, Emma embarca nessa missão até a Capital para proteger a humanidade de seu fim.

O início de Beast of Reincarnation se dá em um momento avançado da jornada de Emma, mas rapidamente somos levados de volta ao ponto de verdadeiro início e explicação da grande batalha que vemos acontecer em sua introdução. Inicialmente, o jogo conta com uma estrutura narrativa com alguns flashbacks que contextualizam sobre os eventos, companheiros de viagem que estão conosco naquele início caótico, além de dar certa profundidade e mistério para a relação de Emma e seu cachorro Ko.

Esses flashbacks, assim como todos os diálogos posteriores, são lentos e talvez sejam o ponto que mais incomode e distancie os jogadores. Não é que eles sejam ruins, longe disso, mas são arrastados em sua grande maioria. Consigo fazer um contraponto aqui e dizer que eles fazem sentido pelo contexto melancólico e pela própria protagonista Emma ser desprovida de emoções (questão que é trabalhada na história), mas é fato que eles podem cansar em determinado momento. Superando isso, é bem possível que o impacto de cada momento gasto nesses diálogos te afete ao final da jornada, assim como me afetou.

Além do cachorro Ko, Emma conta com a companhia de Kagura, uma órfã que ela passa a cuidar quase como irmã, e Brad, o piloto do mecha em que viajaremos até a Capital. Em diversos momentos durante a exploração, Kagura se comunicará com Emma por rádio com diálogos que aprofundam a relação das duas, por mais lento que tudo pareça avançar. Em um desses momentos, Kagura diz que ficou contente em ter feito uma refeição ao lado de Emma no dia anterior, e perguntou se algo assim poderia se repetir alguma hora. Imediatamente procurei uma forma de retornar ao mecha de Brad e passar algum tempo com Kagura, fazendo companhia durante sua refeição.

Os diálogos com Kagura são o foco narrativo e onde os jogadores devem apreciar, pois o relacionamento de ambas vai sendo construído de uma forma delicada e é definitivamente um dos pontos altos da narrativa. Emma, por não possuir emoções como uma pessoa normal, aprende aos poucos e com a ajuda de Kagura, o significado de lar, amizade e liberdade.

Existe aqui uma semelhança narrativa com a saga NieR que não há como deixar de mencionar, e especificamente NieR Replicant. Não entrarei em detalhes, pois considero que esses dois jogos devem ser apreciados sem um profundo conhecimento do que nos aguarda. Porém, não espere uma história extremamente brilhante e original em Beast of Reincarnation. Ela é emocionante, com seu momentos únicos e funciona muito bem, mas esbarra em alguns pontos que outros jogos e histórias já trabalharam de forma mais eficiente.

Beast of Reincarnation apresenta uma mescla de um sistema de combate rápido com a katana de Emma e comandos de Ko por turnos, que inicialmente podem parecer confusos e irrelevantes, mas que são o núcleo de todo o combate. Enquanto você desfere ataques frenéticos com a katana de Emma, e usa de parry e esquivas para evitar ataques inimigos, em um comando para ativar o cachorro Ko (que desacelera a batalha), você ganha a possibilidade de escolher uma entre diversas habilidades para causar dano, efeitos negativos ou uma habilidade que possibilite um avanço até a posição do inimigo. A dinâmica entre os dois estilos funciona super bem e cria um pequeno nível de estratégia durante as lutas.

Apesar de ter focado a maior parte da minha jornada em uma build que me permitia curar Emma de forma constante e automática, o jogo entrega uma variedade generosa de várias outras combinações e armas. Dano elétrico, venenoso, flamejante, entre outros… você escolhe, e acredito que todos ficarão satisfeitos com as opções disponíveis.

A exploração de Beast of Reincarnation e progressão são também um ponto de destaque positivo. A estrutura de progressão são de áreas com um objetivo principal que deve ser concluído, e então o jogo avança para a próxima área. Todas elas são vastas e lotadas de itens escondidos que incentivam a exploração, mas que nos estágios finais, devido a sua repetição, acaba fazendo com que você queira ignorar alguns locais e ir direto ao objetivo principal. Acredito que retirar uma ou duas áreas faria o jogo possuir um ritmo consideravelmente melhor da segunda metade para o final.

Repetição essa que é levada para os chefes também. Para mim não foi um problema tão grave como cheguei e escutar de colegas que também jogaram, mas é sim um ponto que vale ressaltar. Mesmo fazendo sentido narrativamente ao enfrentar uma criatura mais de uma vez, padrões do combate e estilo de abordagem para finalizar o chefe poderiam ser mais diversos. Há um chefe específico mais para o final da jornada em que senti que a Game Freak faltou dar atenção, pois é terrível, e é justamente quando o jogo tenta inovar no que havia sido feito até então.

Essa repetição é aliviada quando se olha a quantidade de habilidades que Emma ganha ao derrotar cada Nushi, abrindo uma literal árvore de habilidade bastante extensa. Ao derrotar cada novo chefe, uma flor cresce em seu cabelo, demonstrando o fortalecimento e progressão da jornada.

Os pontos adquiridos podem ser distribuídos entre duas árvores diferentes, a de Emma e Ko, cada uma possuindo efeitos distintos. É possível que você termine o jogo sem usar ou aprender todos os tipos de combos e ataques especiais de Emma. Talvez até mesmo esqueça de algum. É uma surpresa agradável ver um combate de qualidade aliado de uma quantidade honesta de possibilidades.

Beast of Reincarnation é um jogo que poderá agradar alguns jogadores, principalmente fãs da saga NieR e Drakengard. Esses são jogos que compartilham de uma estrutura semelhante de combate, exploração e avanço, com destaque ao Drakengard 3 aqui, e digo sendo um grande fã, reconhecendo seus pontos positivos e negativos. Se você ama o sentimento melancólico de uma humanidade próxima da extinção, músicas incríveis, questões pessoais e paisagens que complementam a narrativa, esse jogo será para você. E sendo fã dessas obras, é possível que você tenha o discernimento para abstrair os pontos negativos dela e focar nos positivos, que estão ali e são muito competentes ao meu ver.

A qualidade gráfica geral de Beast of Reincarnation agrada. Não é de uma qualidade exemplar para jogos dessa geração, mas está longe de fazer feio. Há certos momentos em que esses gráficos se destacam muito com a ajuda da direção artística, mas há outros momentos em que texturas borradas aparecem ao fundo e se destacam negativamente. Emma aparece com serrilhados nos menus e há alguns outros problemas de sombras e serrilhados durante a exploração, mesmo jogando na qualidade alta. Ignorando esses problemas, que são sim visíveis e que valem nota para que a Game Freak os corrija no futuro, o jogo consegue manter um nível visual satisfatório do início ao fim.

As expressões faciais também são outro ponto de destaque e observação. Como dito anteriormente, Emma é uma personagem que não possui emoções visíveis, e a falta de animações e expressões faciais sofisticadas combinam perfeitamente com a personagem. O problema aparece quando entram os demais personagens, que faltam um toque especial para que os tornem mais vivos e impactantes.

Utilizando de uma ambientação pós-apocalíptica em um Japão devastado, Beast of Reincarnation entrega uma atmosfera muito competente graças à sua direção artística, com elementos visuais do budismo, ficção científica e da própria natureza tomando conta do que um dia foi uma civilização.

Há uma variedade considerável de cenários, e não senti que eles me cansaram visualmente. O level design apesar de ser baseado em áreas mais abertas, te leva sempre para um objetivo linear em que você passará por lugares com suas variações que contam um pouco mais da história daquele mundo.

O design de personagens fica por conta de Pablo Uchida, ilustrador e designer conhecido por trabalhos promocionais em Metal Gear Solid V: The Phantom Pain e na franquia Death Stranding, além de sua contribuição em Stellar Blade. E é um trabalho extremamente lindo, principalmente nos personagens de Emma e Ko.

A trilha sonora é impecável, liderada pelo compositor Kow Otani de Shadow of the Colossus, ela vai de tons épicos e fantasiosos para momentos íntimos e calmos sem perder a identidade. E é impossível não comparar Beast of Reincarnation com NieR mais uma vez nesses momentos.

Cada nova área possui seu tema distinto, além das próprias trilhas originais para chefes e momentos de história, que ajudam a dar um frescor sempre que passamos por uma nova região em que vamos ficar algumas boas horas explorando. Inicialmente pensei que a trilha tocada durante a exploração ficaria enjoativa, mas felizmente não aconteceu comigo. Ela é sim constante, mas sua beleza e os momentos em que é interrompida pela trilha do combate evita que ela fique maçante.

Após terminar, e enquanto escrevo toda essa análise, revisitei a trilha sonora do jogo e ficou provado para mim que todas elas são extremamente marcantes e belas.

Aqui entra talvez o principal problema pelo que Beast of Reincarnation vem enfrentando desde seu lançamento: a performance problemática. Apesar de não ter enfrentado problemas críticos como travamentos e quedas bruscas de frames, joguei em um hardware que me fez notar que a qualidade não é equiparável ao poder de processamento exigido pelo jogo.

Conversando com amigos que jogaram pelo PlayStation 5, ouvi relatos de até mesmo desistência devido ao mau desempenho. E quando um jogo se comporta dessa maneira, é compreensível que todo o restante da experiência seja comprometida. Outros conhecidos tiveram travamentos completos do jogo no PC, em um hardware diferente do meu, que também o impossibilitou de ir até o final pela frustração. Então, esse é definitivamente um ponto crítico em que a Game Freak deve trabalhar em futuros patches.

Mas como não posso refletir minha experiência e julgamento final em relatos de terceiros, eu estaria mentindo ao dizer que encontrei tais problemas que me fizessem coçar a cabeça a ponto de prejudicar minha experiência. Como dito, apesar do jogo exigir um processamento maior do que ele visualmente entrega, não encontrei nada que me tirasse da imersão durante toda a jornada de Emma e Ko. Há quedas de frames aqui e ali, mas na esmagadora maioria do tempo tive a felicidade de não presenciar nada brusco.

A Game Freak lançou o patch v.1.0.8 enquanto eu jogava, que adicionou algumas correções já pedidas pela comunidade em questões de qualidade de vida, além da implementação do DLSS 4/4.5. Então, caso tenha jogado no lançamento e desistido, vale a pena voltar e conferir se as mudanças valem uma nova chance.

ESPECIFICAÇÕES DO PC:
GPU: RTX 4070 Super
Processador: Intel i5 12400F
RAM: 32GB DDR4
SO: Windows 11 (25H2)
Driver NVIDIA: 610.47 (26 de Maio de 2026)

Beast of Reincarnation, apesar de ter sim seus problemas que não devem ser ignorados, é superando-os que posso dizer com convicção que esse é um dos melhores títulos do ano e, quem sabe, uma possível jóia a ser redescoberta no futuro. Entregando uma experiência de narrativa, jogabilidade e trilha sonora marcante, é um título que recomendo encarar de coração aberto.

Enquanto carrega semelhanças de outras obras, ele também cria sua própria identidade no processo. Ao final, me deixou com um sorriso, e talvez uma lágrima no rosto, ao subir os créditos finais. E aquele sentimento de que vou sentir falta dessa jornada perdurou comigo até o fim desse texto.

O jogo foi analisado com uma chave digital do Steam cedida pela desenvolvedora via assessoria de imprensa Theogames.

Pontos positivos:
Trilha sonora;
Ambientação;
História;
Combate;
Personagens.
Pontos negativos:
Performance;
Expressão Facial;
Problemas de Textura.
8.5