Análise – Otherside Tapes: Favela – Steam

Após os lançamentos de Fobia St. Dinfna Hotel e A.I.L.A, o estúdio brasileiro Pulsatrix retorna ao terror com Otherside Tapes: Favela, o primeiro capítulo de uma antologia. Apostando na estética de found footage e em uma atmosfera de arrepiar, o jogo demonstra grandes qualidades da desenvolvedora. Infelizmente, problemas técnicos e determinadas decisões acabaram comprometendo o resultado, transformando uma experiência inicialmente promissora em algo um tanto quanto decepcionante.

Antes de começar, considero importante esclarecer que, apesar de acompanhar de longe os projetos da Pulsatrix Studios, e de conhecer o trabalho de Max MRM, um dos diretores do projeto, ainda não tive a oportunidade de jogar os títulos anteriores da desenvolvedora. Com isso, meus elogios e críticas ao estúdio se concentram especificamente em minha experiência com Otherside Tapes: Favela.



INTRODUÇÃO: ENTRANDO NA RUA 7

Otherside Tapes: Favela não demora a apresentar suas intenções. A aventura começa em uma sequência perturbadora, na qual acompanhamos, em primeira pessoa, uma vítima sendo brutalmente atacada e fatiada por alguém usando uma serra circular. Após esse início nada agradável, somos introduzidos ao protagonista Cláudio da Silva, um criador de conteúdo voltado para casos sobrenaturais que decide visitar a Favela das Almas para registrar cenas e explorar a misteriosa Rua 7, um local de lendas urbanas.

O local carrega ainda um histórico de desaparecimentos e um grave incidente no passado. Cartazes de pessoas desaparecidas ficam espalhados pelos becos, e o silêncio inicial quase absoluto contribui para uma sensação de desconforto.

Usando uma câmera, Cláudio parece empolgado para registrar o local

Cláudio, entretanto, parece não se preocupar com tais sinais e continua explorando o local e conversando com seu público e câmera. Esse entusiasmo, porém, desaparece rapidamente quando encontra a Rua 7 e acaba transportado para uma dimensão dominada por uma entidade misteriosa e criaturas grotescas, cujas aparências lembram bonecos de cera completamente deformados. A missão de Cláudio se torna então sair dali imediatamente, tomado por desespero e confusão.

Enquanto encontramos formas de escapar, também encontramos pequenos fragmentos em arquivos que ajudam a responder o que houve naquele local. Otherside Tapes: Favela apresenta todos esses elementos de forma gradual, sem diálogos ou cenas elaboradas, e focando principalmente no backtracking e resolução de quebra-cabeças.

Considerando que Otherside Tapes foi concebido como uma antologia de experiências mais curtas e com escopo reduzido, essa abordagem funciona durante boa parte da campanha, especialmente por não prolongar desnecessariamente a exploração.

O GRANDE DESTAQUE: AMBIENTAÇÃO

Antes de abordar os problemas que tornaram minha experiência com Otherside Tapes: Favela decepcionante e, em determinados momentos, frustrante, acho necessário reconhecer aquilo que o jogo faz de melhor. E nesse aspecto, a Pulsatrix Studios merece elogios.

A construção da atmosfera de terror é, sem dúvidas, o maior acerto do projeto. A equipe conseguiu criar uma experiência verdadeiramente assustadora, utilizando a ambientação, iluminação e o posicionamento das criaturas para criar situações de tensão muito eficientes. Quando percebi a proposta por trás do título, não consegui evitar de sorrir ao ver a ideia sendo bem executada. Ver uma das criaturas sorrindo para você em um canto escuro de um quarto é, na falta de uma descrição melhor, uma experiência assustadoramente divertida.

Incontáveis vezes senti minha pele realmente arrepiar com o terror feito aqui. Mesmo que ao final eu já tivesse me acostumado e o fator surpresa já não fosse tão presente, o medo se manteve pela maior parte do jogo. Seja pelos fios elétricos nos postes, que causam certa estranheza e que me remeteram a obras e estilos de Junji Ito (existe um arquivo que me fez ter ainda mais esse sentimento), ou pelo céu nublado causando um sentimento único, a ambientação é algo verdadeiramente impactante.

Aqui eu precisei trocar a calça

A Favela das Almas é o único cenário explorável presente em toda a obra e possui um level design simples, mas competente para a proposta. Por ser uma área consideravelmente pequena, isso facilita o backtracking e a memorização dos locais e itens. A pouca quantidade de locais também é compensada quando o ambiente muda para diferentes versões de si mesmo, desde uma consideravelmente mais próxima do normal até uma completamente possuída pela entidade e criaturas. Nesses momentos, o cenário fica quase que completamente escuro, iluminado por poucos focos de luz e precisamos nos guiar pela visão noturna da câmera, ao estilo Outlast.

E assim como em Outlast, a bateria também se esgota, tornando o gerenciamento de seu uso algo constante e necessário. Não cheguei a ficar sem bateria durante minha gameplay, mesmo errando o caminho em situações ocasionais, mas cheguei próximo disso acontecer, então é necessário que você realmente gerencie essa questão.

Outro detalhe interessante está nas referências a Resident Evil. Consegui identificar duas referências bastante claras à franquia da Capcom durante minha jornada. Uma delas, inclusive, foi bastante criativa. Não é uma referência difícil de perceber, mas prefiro não estragar a surpresa. Basta prestar atenção aos detalhes do cenário que você certamente vai encontrar.

DUBLAGEM E DESIGN DE SOM

O trabalho de áudio é outro aspecto em que Otherside Tapes: Favela apresenta resultados bastante positivos.

Desde os passos dos protagonistas, o som das criaturas ao fundo até o som da corrente elétrica nos fios dos postes, tudo se encaixa perfeitamente para trazer a imersão ao ambiente.

Entretanto, uma decisão específica acabou me incomodando. Durante determinados quebra-cabeças, os sons emitidos pelas criaturas permanecem constantes ao fundo. É possível argumentar que essa escolha faz parte da proposta de manter o jogador sob pressão, mas o problema é que em algumas situações, o ruído se torna tão frustrante que atrapalha a concentração.

Houve momentos em que considerei mais confortável retirar os fones de ouvido para conseguir resolver com tranquilidade. Quando uma decisão dessas acontece, acredito que seja uma grave falha.

Quanto à dublagem, ela conta com apenas um dublador, o do protagonista Cláudio, mas é igualmente competente e consegue trazer certo carisma para ele, mesmo possuindo pouco ou nenhum desenvolvimento. Essa dublagem ficou por conta de Giovane Crema, dublador profissional já experiente na área.

A ENTIDADE NÃO É A ÚNICA COISA ATERRORIZANTE

Chegamos, então, ao ponto mais delicado da análise. Apesar de todos os acertos na ambientação, Otherside Tapes: Favela apresenta problemas técnicos e decisões de design que prejudicam consideravelmente a experiência. E, por mais que eu compreenda as limitações de orçamento e escopo de uma produção independente, considero que alguns desses problemas precisam ser apontados e sejam difíceis de serem ignorados.

Durante a campanha, encontrei bugs e falta de polimento em diversos momentos. Em determinadas situações, precisamos manter contato visual com as criaturas para que elas não nos persiga. O problema é que ao fugir, enquanto nós mantemos contato visual, ocasionalmente algumas criaturas bloqueiam nosso caminho, gerando situações onde levamos dano, morremos ou precisamos usar o flash da câmera para congelar o inimigo temporariamente, gastando uma preciosa bateria. Evitar que as criaturas te persigam não é divertido ou aterrorizante, pelo contrário, é simplesmente frustrante.

Caso esse fosse um problema específico de um momento, seria, em certo nível, irrelevante para meu julgamento. Mas o jogo torna isso uma mecânica presente a partir de determinado ponto, o que acaba pesando e muito.

Tá pegando fogo, bicho

QUEBRA-CABEÇAS QUE COMPROMETEM O RITMO

Infelizmente, os quebra-cabeças representam outra grande decepção para minha experiência. Sou um grande fã de jogos que utilizam quebra-cabeças como parte central da experiência. Quando bem elaborados, esses momentos conseguem complementar a exploração e oferecer uma satisfação ímpar ao jogador.

Ao iniciar a campanha, Otherside Tapes: Favela oferece configurações independentes de dificuldades para o combate e para os quebra-cabeças. Por padrão, o combate está definido como Padrão, enquanto os puzzles começam no Fácil. Escolhi por manter ambos na dificuldade Padrão, aumentando apenas a dos quebra-cabeças.

Não acho que o problema aqui esteja na dificuldade de compreender suas regras, pois todos são bem óbvios. O que me incomoda é a execução de todos eles, frequentemente baseada em tentativas repetitivas e na necessidade de mexer em peças durante vários minutos até alcançar uma configuração e posição específica.

Um dos exemplos que posso dar envolve uma sequência numérica (12345, por exemplo). Para inserir cada dígito dessa combinação, precisamos manipular quatro outros números até que todos apresentem o mesmo valor. Entretanto, alterar um deles também modifica a posição dos outros, criando uma sucessão de movimentos e tentativas.

Imagine precisar posicionar todos os quatro números no 1 apenas para confirmar o primeiro dígito do código. Agora imagine repetir esse processo para cada número da sequência do exemplo. Com paciência, esses desafios são resolvidos, mas senti que quebram e muito todo o ritmo que o jogo vem construindo, deixando de fazer parte do jogo e apenas se tornando um obstáculo quase que desnecessário. E não são nem um pouco interessantes e criativos.

Em um dos quebra-cabeças, o arquivo para consulta de parte essencial travou e não era mais possível enxergar o texto. Felizmente, minha Steam grava automaticamente em plano de fundo e precisei abrir a gravação para ver o momento em que peguei o documento, possibilitando que eu terminasse a sequência. Sem esse recurso, a situação poderia comprometer completamente meu progresso.

Lanchinho da madrugada

Virando essa página, outro aspecto que deixou a desejar foi a própria narrativa. Por esse ser o primeiro capítulo da antologia “Otherside Tapes” e ser, de certo modo, um ponto de partida, senti que faltou algo que me fizesse envolver mais aos mistérios da obra. Com isso, sinto que não houve algo verdadeiramente empolgante para me fazer ficar atento aos próximos capítulos.

Outro ponto que acho importante mencionar é o sentimento de que o jogo usa de estereótipos brasileiros nos nomes e sobrenomes de personagens. Desde o próprio protagonista, Cláudio da Silva, até os nomes dos desaparecidos, ou em documentos, grande parte deles usam desses estereótipos.

É fato que muitos desses nomes são os mais populares, mas a impressão que me passa é o de um estúdio estrangeiro fazendo uma representação no Brasil e buscando os nomes em uma lista dos mais populares.

PERFORMANCE

No desempenho geral, minha experiência foi relativamente estável. Utilizando as configurações gráficas no Alto, não identifiquei quedas significativas que comprometesse a jogabilidade. Entretanto, enfrentei travamentos graves em mais de uma ocasião.

Em uma das situações após um travamento, precisei reiniciar todo meu sistema, pois o jogo simplesmente se recusava a iniciar novamente.

Embora sejam problemas sérios, acredito que esses problemas técnicos são mais simples de se corrigir por meio de atualizações do que as questões relacionadas ao design dos quebra-cabeças e ao funcionamento das mecânicas mencionados anteriormente.

ESPECIFICAÇÕES DO PC:
GPU: RTX 4070 Super
Processador: Intel i5 12400F
RAM: 32GB DDR4
SO: Windows 11 (26H2)
Driver NVIDIA: 617.14 (22 de Setembro de 2026)

VEREDITO

Otherside Tapes: Favela é uma experiência de terror que demonstra o talento da Pulsatrix Studios para construir ambientes perturbadores. Sua atmosfera é, de longe, a principal qualidade do projeto, com uma direção que consegue provocar o mais forte sentimento de medo.

Entretanto, quando o jogo tenta transformar essa atmosfera em mecânicas mais elaboradas, seus problemas aparecem. As perseguições frustrantes, os quebra-cabeças excessivamente repetitivos e a falta de polimento técnico comprometem o ritmo da campanha e impedem que a experiência alcance todo o seu potencial.

Ainda assim, esse é um jogo independente de um estúdio brasileiro com um preço inicial de lançamento baixo (R$ 33,99), então considero que o jogo mereça uma oportunidade, principalmente se você for um fã do gênero e da proposta.

Otherside Tapes: Favela consegue assustar. Infelizmente, nem sempre pelos motivos que deveria.

O jogo foi analisado com uma chave digital do Steam cedida pela Pulsatrix Studios via Max MRM.

Pontos positivos:
Ambientação;
Som;
Dublagem.
Pontos negativos:
Travamentos;
História;
Puzzles;
Ritmo;
Inimigos.
7