Ainda vale a pena jogar o Fatal Frame 2 original?

Fatal Frame II: Crimson Butterfly é um jogo desenvolvido pela Tecmo para PlayStation 2, lançado em 2003, do gênero adventure horror, que contém elementos narrativos bem profundos e um foco genuíno no horror japonês. Fatal Frame é uma franquia bem conhecida na geração do PS2 por conta de seu estilo diferente de gameplay e combate, onde o foco é exorcizar fantasmas através de uma câmera.

Com o novo remake do Fatal Frame 2 (viu Capcom, pode fazer remake duas vezes se quiser), eu decidi rejogar o título original e gostei muito da experiência! Por isso gostaria de passar para vocês o que eu senti e percebi com ele. É realmente incrível poder rejogá-lo em 2026 (ou além) e ver o quanto ele envelheceu bem; na minha concepção, é um dos ápices do gênero.



A Vila Perdida: Onde as Borboletas voam sob o Luar

Fatal Frame 2 começa com uma cutscene envolvendo as duas irmãs gêmeas, Mayu e Mio, conversando em uma floresta, mencionando que tudo aquilo iria acabar. Elas relembram memórias de infância, quando brincavam juntas na floresta.

De repente, Mayu desaparece e segue em direção à floresta, e é a partir desse momento que o jogo realmente começa. Caminhamos um pouco pelo ambiente escuro e estreito da floresta até encontrarmos Mayu e somos apresentados à incrível tela de título “Fatal Frame 2”, seguida de uma cutscene que introduz o primeiro capítulo do jogo.

Em japonês a franquia é conhecida como Project Zero

Eu gostei bastante dessa abertura do jogo, pois vendo pela visão de hoje é possível notar que foi bem trabalhada e manteve um tom de suspense que eu não sentia há um bom tempo em jogos desse gênero. Em poucos minutos, o jogo consegue transmitir uma boa sensação de imersão, conseguindo me deixar mais interessado ainda no mundo de Fatal Frame 2.

Ao longo da narrativa, a história aos poucos vai se mostrando misteriosa e bem desenvolvida, revelando pistas e respostas no momento certo, de forma gradual tentando responder questões e manter o interesse do jogador.

Eu diria que a história do jogo é bem construída e bastante consistente no que apresenta, mantendo cada capítulo bem estruturado na aventura da nossa protagonista a cada questão que ocorre. É surpreendente notar que um jogo antigo de PS2 consegue apresentar elementos tão envolventes, que continuam interessantes mesmo nos dias de hoje!

Borboletas sabem ler?

A cada momento que avançamos durante a nossa jornada no jogo, percebi que ele também é bastante narrativo, desenvolvendo a história através de cutscenes cuidadosamente posicionadas. Essas cutscenes explicam e desenvolvem informações importantes para te contextualizar daquele momento jogo, pontos importantes e necessários para que você consiga pescar e conectar elementos do que está acontecendo ou já aconteceu (no passado do jogo) de forma gradual. Isso me manteve bastante empolgado para descobrir o próximo evento e complemento do que tinha visto. Um dos pontos mais legais, por exemplo, é o mistério sobre o significado de “Crimson Butterfly” (borboleta rubra), algo que o jogo desenvolve muito bem e evidencia através de files encontrados de forma orgânica. Inclusive, senti que o jogo como um todo é extremamente fluido nessa questão dos documentos, integrando a leitura perfeitamente à exploração.

No entanto, cutscenes não são a única forma de construção da narrativa. O jogo sabe dosar bem a quantidade e contrabalancear com os arquivos de texto que você encontra ao decorrer da jornada. Cada um deles é extremamente relevante, te ajudando a construir e entender o passado dos personagens do jogo e permitindo compreender quem eles são e o que fizeram para estar ali! E sério, esses arquivos foram belamente construídos, cada um que eu encontrava conseguia montar melhor os elementos narrativos apresentados pelo jogo até aquele instante.

Minha experiência com esse fator durante a gameplay foi bastante positiva: cada arquivo é bem elaborado e colocado de maneira inteligente no Level Design, e eu sinto que o jogo consegue avançar muito bem a narrativa e fornecendo informações sobre eventos importantes nos pontos certos para não ficar um jogo maçante, mas é importante e necessário explorar bem os mapas para conseguir encontrar todos os arquivos e aproveitar ao máximo como essas camadas são desenvolvidas, pois a exploração depende que você examine cada pedacinho do cenário.

Onde borboletas guardam o mapa?

O jogo começa um pouco linear e com um cenário bem escuro, o estilo clássico de jogos da época do PS2. Porém, conforme avançamos, ele vai ficando gradualmente mais rico na maneira que demonstra as qualidades do level design, permitindo que o jogador se sinta um pouco “preso” pelos cenários fechados, mas tendo uma boa variedade de salas para explorar.

A princípio, o comecinho do jogo é linear pois ele precisa direcionar o jogador à história e dar os recursos importantes a ele, porém, na primeira hora, o jogo sabe dosar bem como faz isso: você vai ir e voltar em alguns mapas algumas vezes, pois o jogo te direciona para lá de uma forma que lembra muito a fórmula de Resident Evil, mas conseguindo ter sua alma própria em como o level design é trabalhado.

A forma que o jogador é guiado é bem inteligente, utilizando bem o cenário e sempre tendo móveis nos quais existem itens. Neles podem haver itens ou apenas flavor texts que contribuem para a imersão. Além disso, o jogo permite uma reexploração no futuro, quando a história avança percebemos isso assim que terminamos o Capítulo 1 e isso se mantém ao longo do jogo.

O mapa se expande, porém não se torna algo “cansativo”, pois o jogo sempre dá uma ajudinha narrativa te indicando o caminho. Claro que não é tão direto como nos jogos de hoje, que têm uma fita ou tinta amarela indicando onde você tem que ir. Aqui é mais sutil, colocado de forma bem inteligente, seja por textos, conversas ou até alguma cutscene específica te ajudando a se guiar!

Acredito que o jogo fez, magistralmente, o uso inteligente e eficiente de cada cenário do começo ao fim. Existem inúmeras partes marcantes em que você vai passar uma hora e, depois, voltar lá novamente e ficar “woow”, pois eu sinto que o jogo valoriza cada cenário do início ao fim.

Seguindo o Brilho Carmesim

A jogabilidade de Fatal Frame 2 é no estilo câmera fixa, porém ela não é congelada na parte do cenário. Ela acompanha o personagem de acordo com o que andamos e avançamos para outra parte do cenário, um jogo que é muito similar a isso é o Resident Evil CODE: Veronica. Eu gostei dessa jogabilidade pois, apesar de ser um jogo antigo, ele foi bem construído, permitindo uma ampla visão do cenário e uma noção de espaço 3D correta, permitindo que o olho do jogador consiga entender bem onde ele está andando e contribuindo para a exploração de partes que a câmera fixa não mostra.

Mas não se limita somente à câmera fixa: durante o combate, ou até mesmo sem estar nele, você pode equipar a Câmera Obscura e ter uma nova perspectiva de partes do cenário. Com ela, você passa a ter uma nova visão do jogo em primeira pessoa e… você pode andar com ela equipada! Ou seja, você consegue explorar uma mesma parte por outro ângulo, o que dá um ótimo realce para a exploração e para a forma como você absorve visualmente o cenário e combate os inimigos.

Porém, essa questão do combate é um pouco curiosa: a princípio, lutar através da câmera pode ser um pouquinho mais difícil até você se acostumar com o ritmo e controles do jogo mas acredito que logo o jogador consegue entender a mecânica e se acostumar com a jogabilidade.

Ao longo da jornada, também contamos com recursos que tornam os confrontos mais equilibrados. É possível fazer upgrades na câmera para deixá-la mais forte, rápida e eficiente, utilizando pontos que você ganha ao combater fantasmas ou pedrinhas chamadas de Spirit Orb encontradas pelo cenário e em combates específicos contra fantasmas. Além disso, a escolha dos filmes mais fortes da câmera é fundamental, já que eles funcionam como uma munição que potencializa as fotos e causa muito mais dano aos espíritos e um golpe especial.

E para encerrar, temos as lentes especiais que aplicam algum buff ou debuff importante para combater os fantasmas, como deixá-los mais lentos, causar stun ou potencializar o dano massivo que você pode causar. Durante a gameplay vocês vão notar que o uso dessas lentes exige estratégia, pois consomem uma energia específica que você acumula enquanto luta, tornando o combate uma dança entre atacar, carregar e usar o poder no momento certo.

Outro ponto é que, no canto inferior direito da tela, tem um cilindro que acende uma luz azul sempre que tem algo importante para fazer com a câmera e, claro, algo sobrenatural. É bem imersivo e divertido a forma como isso foi colocado, e fica evidente conforme avançamos no jogo, pois o combate consiste em usar o cenário a seu favor, porém você não sabe de onde e como o fantasma vai vir! Isso chega a aumentar um pouquinho a aflição que o combate pode causar.

No horror, as borboletas representam sentimentos de “ser atraído para uma armadilha”. Você as segue por curiosidade ou necessidade, mas não sabe que no final do caminho, o que te espera é além do sobrenatural.

A parte de horror de Fatal Frame é incrível, pois a cada momento que o jogo introduz os conceitos básicos de como tudo funciona durante as primeiras horas, ele conseguiu me deixar super imerso, sabe? É um cenário sombrio e escuro, mas onde cada elemento parece único e está ali para marcar o jogador desde um jumpscare bem posicionado, que foi construído ao decorrer de algumas cenas anteriores até finalmente o susto, ou até o jogo simplesmente jogar na sua cara uma coisa estranha e deixar o jogador com uma incógnita do que acabou de ver.

Cada parte é interessante, pois o jogo parece muito com uma aventura na qual você é colocado e precisa passar por diversos eventos com o horror apresentado de formas diferentes. O jogo consegue trabalhar bem esse aspecto de horror com elementos sonoros, visuais e até mesmo com a vibração do controle na mão do jogador, imitando o coração do personagem para ser mais um elemento de tensão e deixá-lo alerta e desconfortável. Principalmente porque, sempre que está acontecendo algo estranho ou inquietante, o mero nada no desconhecido pode deixar o jogador assustado.

Há uma boa variedade de fantasmas com aparências diferentes, o que me deixou surpreso. Eu não esperava um certo confronto em uma parte do jogo com um fantasma específico que me fez pensar: “Tá, isso me pegou”. O jogo demonstra conseguir rechear bem a experiência com fantasmas em partes específicas, o que torna tudo mais inesperado e característico. Do começo ao fim, a imersão que tive foi algo que eu digo que poucos jogos hoje em dia têm, isso demonstra o quanto esse jogo envelheceu bem nesse aspecto.

Trilha Sonora

Um elemento bastante importante, pois é um dos pontos chave nos quais Fatal Frame 2 consegue construir seu clima de tensão e, claro, a forma como ele ajuda a construir o medo no jogador. As trilhas sonoras do cenário são bem encaixadas, mostrando o que é um bom Horror Japonês, principalmente quando você está em um confronto ou apenas em uma exploração normal e inesperada. Efeitos como risadas ou até a voz de um fantasma foram bem colocados no jogo, conseguindo entregar uma imersão muito bem construída.

Conclusão

Fatal Frame 2 para mim é como um Pokémon Shiny (um Pokémon brilhante especial e raro), é um excelente jogo do gênero adventure horror e, mesmo na versão de 2003, ainda é um grande jogo, conseguindo manter muito bem a atmosfera de medo e tensão do começo ao fim. Considero que é uma das pérolas das gerações passadas e que também foi revitalizada com o (re)remake do jogo. Eu super recomendo você que está interessado ou conheceu agora, que jogue o original, pois a sensação e imersão que você vai sentir quando rejogar o remake é muito bem realçada! Fatal Frame 2 valeu a cada momento durante as 14 horas que levei para zerar, é um jogo incrível e que acabou entrando facilmente para o meu top 10 jogos do gênero.

Se fosse para voltar ao passado, e considerar este artigo como uma análise (daquelas tradicionais, com notas), daria a Fatal Frame II: Crimson Butterfly um 9/10.

+ Pontos Positivos:

  • Level Design pontualmente construído, com um incrível nível de backtracking;
  • Survival Horror de altíssima qualidade, que respeita as raízes do gênero e conseguindo ter essência própria;
  • Imersivo: O jogo te prende do começo ao fim na atmosfera;
  • História interessante e envolvente, que te faz querer descobrir e entender mais;
  • Autêntico Horror Japonês: O jogo entrega exatamente a estética e o medo desse estilo.

– Pontos Negativos:

  • Jogabilidade um pouco confusa a princípio, exigindo um pouco mais de paciência do jogador nas primeiras 2 horas;
  • Pode te deixar um pouco perdido, caso você não esteja acostumado com jogos desse gênero;
  • Dificuldade inicial: É um pouquinho difícil no começo até você se acostumar com os conceitos do jogo.