Resident Evil CODE: Veronica nos traz uma das melhores histórias de toda a série. Enigmas giram em torno de uma família nobre e rica, com cientistas renomados em todas as gerações, sendo a primeira a matriarca Veronica. Mas os maiores mistérios giram em torno da peça chave dessa história, a enigmática Alexia Ashford: símbolo de perfeição, uma mulher de beleza incomparável, inteligência inalcançável e ambições inescrupulosas. Seria possível alguém tão fantástico tornar-se perfeito?

Alexia não era um ser humano comum. Após muitos anos de pesquisa, seu pai, Alexander, conseguiu manipular a inteligência humana geneticamente. Uniu essa descoberta fantástica ao genoma de sua antepassada Veronica, em busca de criar a descendente perfeita: inteligente o suficiente para comandar as pesquisas científicas da família, cujo prestígio havia caído muito nas últimas décadas.

Para surpresa de Alexander, o produto do óvulo implantado em uma mãe de aluguel foi um casal de gêmeos. O menino, Alfred, era dotado de grande inteligência, mas a menina, Alexia, era absolutamente excepcional, tornando-a praticamente a imagem de Veronica. Como o próprio Alexander relata, Alexia representava o “renascimento de nossa grande antecessora”.

A inteligência de Alexia faz com que ela se torne uma das maiores cientistas pesquisadoras da Umbrella com apenas dez anos de idade, provocando a ira e a inveja de Willian Birkin, também muito jovem, mas nove anos mais velho que a menina. Enquanto trabalhou como pesquisadora, Alexia foi muito produtiva, e avançou muito em seus projetos em busca de um vírus criado por ela: o T-Veronica, um vírus híbrido, com genes do vírus-mãe, descoberto por Spencer e genes da rainha da formiga vermelha.

No auge de sua pesquisa, misteriosamente Alexia é dada como morta, e surge o boato de que ela havia usado o próprio corpo como cobaia para sua criação e as coisas não saíram como o planejado. Isso era o que os pesquisadores da Umbrella pensavam. Na verdade, a menina estava viva e seus planos e projetos de pesquisa continuavam em plena ação…

Alexia realmente injetou o vírus em seu corpo, mas ela sabia como dominá-lo e tirar proveito do parasita. Enquanto todos a davam como morta, Alexia permaneceu por quinze anos mantendo a temperatura do seu corpo em temperatura muito baixa. A explicação lógica para o fato é que as baixas temperaturas reduzem a atividade das moléculas.

Nessas condições, o vírus se replicaria em uma taxa pequena em seu corpo, o suficiente para que as células do sistema imune de Alexia agissem durante um longo tempo, produzindo imunidade contra o vírus. Desta forma, hospedeiro e parasita viveriam em um estado de equilíbrio: enquanto o vírus a colonizava lentamente, o sistema imune ativado impedia a dominação de seu organismo.

A Rainha Vermelha na sociedade das Formigas

Para a alcançar supremacia que desejava, Alexia baseou-se na Rainha Vermelha da sociedade das formigas. As formigas são insetos terrestres, que vivem exclusivamente em colônias. A vida em sociedade possibilita o cuidado cooperativo à prole e a divisão de trabalho reprodutivo, com fêmeas férteis (rainhas) e estéreis (operárias). Em geral, as colônias são fundadas por apenas uma fêmea alada. Depois de fecundada por um ou mais machos, ela desce a terra, perde as asas e procura ou escava um abrigo, onde coloca os primeiros ovos.

Em algumas espécies, as colônias são fundadas por diversas rainhas, mas apenas uma mantém o posto: a rainha vencedora repele ou mata as outras. A manutenção da colônia depende da rainha: caso seja eliminada, o formigueiro comandado por ela está fadado ao fim, pois é ela quem determina a função de cada ser dentro da colônia, crucial para a organização da sociedade e da divisão de tarefas.

A Rainha Vermelha em “Alice no País das Maravilhas”

A Rainha Vermelha do conto de fadas é também conhecida como “A Rainha de Copas”. No original, ela é chamada de “Red Queen” e no português recebeu o nome do naipe das cartas de baralho. Rainha de Copas é uma personagem que aparece nos capítulos finais do livro Alice no País das Maravilhas.

Tem um pavio curtíssimo, é autoritária e responde a qualquer sinal mínimo de desrespeito com a pena de decapitação, pelos quais é famosa. Aparentemente, essa rainha não mostra uma ligação exata com Alexia, mas uma teoria evolucionista científica foi baseada a partir de uma frase da personagem da história.

A hipótese da Rainha Vermelha

Essa audaciosa teoria sobre a origem e a manutenção do sexo foi proposta pelo evolucionista inglês William D. Hamilton (1936-), da Universidade de Oxford, em 1980. Segundo ele, os parasitas estão em toda parte e procuram sempre, por sua natureza, explorar seus hospedeiros. Além disso, apresentam virulência (a capacidade patogênica de um microrganismo, medida pela mortalidade que ele produz e/ou por seu poder de invadir tecidos do hospedeiro), específica, afetando apenas determinados genótipos dos hospedeiros, enquanto estes têm genes que conferem resistência ao ataque.
Segundo Hamilton, uma ‘corrida armamentista’ entre hospedeiros e parasitas ocorre desde que a vida surgiu na Terra. Os parasitas estão sempre quebrando as barreiras defensivas impostas pelo sistema imunológico dos hospedeiros, enquanto estes criam continuamente novas defesas.

O mundo em que esse modelo está inserido ficou conhecido como o mundo da Rainha Vermelha, nome dado pelo paleontólogo norte-americano Leigh Van Valen, da Universidade de Chicago, em referência a uma passagem da fábula Alice no país dos espelhos, do inglês Lewis Carroll (1832-1898). Nessa passagem, Alice foge do exército de cartas de baralho da Rainha Vermelha, mas não consegue se distanciar de seus perseguidores.

Nesse momento, é advertida pela Rainha Vermelha: “Aqui, veja, você precisa correr o máximo possível, para se manter no mesmo lugar.” Alice só seria pega se parasse de correr. Na ausência de adaptações e da seleção impostas pelo ataque dos parasitas, os hospedeiros permaneceriam em essência os mesmos, enquanto os parasitas iriam acumulando adaptações que lhes permitiriam quebrar todos os sistemas de defesa dos primeiros. Cedo ou tarde, os hospedeiros seriam virtualmente devorados de dentro para fora. Só resta a eles, para fugir do batalhão de parasitas que os perseguem, continuar correndo.

Simplificando: o que essa teoria quer dizer é todas as espécies sofrem adaptações impostas por situações adversas durante toda a sua história evolutiva, para que permaneçam colonizando o planeta, e para que não entrem em extinção. Os parasitas, cada vez mais, criam adaptações para que sejam mais capazes de infectar e colonizar seus hospedeiros, enquanto os hospedeiros tentam a todo custo criar formas (adaptações) que evitem essa infecção ou amenizem os efeitos dessa colonização.

No “fim”, parasita e hospedeiro alcançariam um estado de equilíbrio, em que o parasita consegue infectar e colonizar, mas o sistema imune do hospedeiro se adapta e “freia“ o avanço do parasita, sem eliminá-lo.

Qual a relação entre Alexia e a hipótese da Rainha Vermelha?

     Além da relação direta com a figura da Rainha na sociedade das formigas, Alexia representa uma relação indireta com a Rainha de Copas de “Alice”, baseada na Hipótese da Rainha Vermelha.

Alexia criou seu “vírus perfeito”, ou “parasita perfeito”, mas ao usar seu próprio pai como cobaia para o protótipo anterior, percebeu que o sistema imune de um ser humano normal não conseguiria conter a infecção. O vírus seria muito violento, replicando-se rapidamente, sem que as células de defesa pudessem se preparar e agir a tempo para proteger o organismo. Seria o parasita perfeito no hospedeiro imperfeito.

Alexia transformou-se em hospedeiro perfeito sem alterar seu genoma, tudo o que ela fez foi dar tempo ao seu próprio sistema imunológico, para reconhecer o vírus e gerar uma imunidade efetiva que o pudesse conter. Sua estratégia de usar as baixas temperaturas reduzia a replicação viral, enquanto seu sistema imune poderia agir, mas também de forma mais lenta que o normal – por isso o resfriamento por tanto tempo, 15 anos.

Quando a temperatura corpórea de Alexia voltou ao normal, o T-Veronica voltou a replicar em velocidade normal, mas o sistema imune da moça estava pronto para contê-lo, mas sem eliminá-lo. Assim, ela não seria dominada totalmente pelas ações mutagênicas virais.

A menina ambiciosa queria ser mais do que já era: além da inteligência muito acima do normal, Alexia queria ainda tirar proveito das características sobre-humanas que o T-Veronica proporcionaria em seu corpo. Esse ser humano aperfeiçoado geraria, aos seus olhos, o que representa a Rainha na sociedade perfeita das formigas: ela impera acima de todos os outros seres da comunidade, as formigas operárias e as guerreiras; seu destino seria o destino de todos os outros seres inferiores, sua morte representa a morte de todos os outros organismos da colônia, sendo o elemento chave e a líder da sociedade.

Créditos

Escrito por: Bruna Mattos (Yuna)
Publicado em: 11/02/2009

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