Resident Evil sempre trouxe excelentes personagens femininas, seja nos jogos, seja nos filmes. No entanto, é um tanto inegável como a franquia de adaptações cinematográficas foi além e quebrou barreiras nesse sentido. Os filmes de Resident Evil são praticamente pioneiros em trazer mulheres no posto principal de filmes de ação.

Alice (Milla Jovovich), a protagonista da série Resident Evil nos cinemas, pode ser definida como uma grande heroína. O primeiro filme, lançado em 2002, introduz uma mulher desmemoriada que trabalha para a Umbrella. Assim como boa parte da população mundial, Alice também é infectada com o T-vírus, mas é criada como uma cobaia, um experimento científico da maléfica corporação.

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A infecção pelo T-vírus faz de Alice uma lutadora incrível, elevando a personagem ao patamar definitivo de heroína de ação. Durante os filmes, ela enfrenta zumbis e outros monstros criados pelo T-vírus. Ainda que ela lute contra essas criaturas, o verdadeiro inimigo de Alice é a própria Umbrella. O objetivo principal dela é proteger sobreviventes e destruir a empresa que corroeu o mundo com o T-Vírus.

Gladys L. Knight, autora de livros sobre heroínas de ação na cultura pop, vê Alice como um dos ícones mais importantes da série. “Alice é parte de uma nova onda de heroínas que surgiram no último século”. Knight também compara Alice com um dos maiores ícones femininos nos games e fica à favor da protagonista de Resident Evil: “Às vezes, os filmes de Tomb Raider exageram na representação de Lara Croft como sendo mais forte que os personagens masculinos. Alice é forte e durona, mas ela trabalha em equipe com seus colegas”.

Ainda que Milla Jovovich tenha sido precedida por ícones incríveis como Sarah Connor (O Exterminador do Futuro) e Ellen Ripley (Alien), que deram os primeiros passos para as mulheres em filmes de ação, quando ela assinou o contrato para estrelar o primeiro Resident Evil no começo dos anos 2000, filmes de ação com protagonistas femininas eram raridade em Hollywood.

“Quando fizemos o primeiro Resident Evil, você jamais conseguiria fazer um filme desses em Hollywood… com mulheres tomando a frente na ação. O que quero dizer é que você não conseguiria fazer com quem ninguém pagasse para fazer um filme desses” – Milla Jovovich

A ideia de ter uma mulher no papel principal do primeiro Resident Evil enfrentou algumas barreiras: “As coisas não eram bem assim nos anos 2000; escalar uma protagonista feminina era um dos maiores obstáculos dos produtores para o filme ser feito”, comenta o diretor e roterista, Paul WS Anderson. “Sempre gostei de mulheres fortes em filmes, mas naquela época em Hollywood havia um certo preconceito, um achismo que filmes de ação protagonizados por mulheres não davam certo”.

Enquanto Alice foi um personagem criado especificamente para o filme, outras presenças femininas fortes dos jogos também foram incorporadas à franquia, como Jill Valentine, interpretada por Sienna Guillory e Claire Redfield, por Ali Larter. Embora os filmes tenham trazido personagens masculinos como Carlos, Wesker e Dr. Isaacs, a maioria dos conflitos, diálogos e cenas de ação envolvem mulheres.

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Ali Larter, que interpreta Claire Redfield, diz ter gostado do papel por ela ter se mostrado “uma líder destemida”. Enquanto a personagem dos jogos costuma ser associada a um papel mais maternal, a Claire dos filmes é mostrada como a líder de um comboio de sobreviventes.

“Milla realmente saiu na frente e foi uma das primeiras mulheres à frente de filmes de ação. O fato de estarmos agora no sexto filme de uma franquia protagonizada por mulheres mostra que fizemos história aqui. Ainda há o fato de que estas mulheres não são colocadas uma contra as outras, que não caímos nestas armadilhas. Nós somos companheiras umas das outras, trabalhamos em equipe. Acho que tudo isso é o que torna a franquia diferente e completamente especial”. – Ali Larter

Talvez uma das características mais marcantes de Resident Evil é que Alice e suas companheiras raramente falam sobre homens, eles não são o centro de seus objetivos ou das ações que movem suas histórias. Este é um dos fatores realçados pelo Teste de Bechdel, que questiona pontos extremamente simples: a) uma determinada obra de ficção possui pelo menos duas mulheres? b) elas conversam entre si? c) o tema da conversa é algo que não seja um homem? Parece impossível, mas um número imenso de obras contemporâneas falham feio no Teste de Bechdel, o que transparece o preconceito de gênero enraizado em vários livros, filmes e tantos outros elementos culturais.

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O que é mais surpreendente é ainda que muita coisa esteja mudando hoje, videogames ainda são massivamente direcionados para o público masculino. No começo dos anos 2000 eram mais ainda. Incrivelmente, Resident Evil foi concebido como um filme baseado em jogos focado em mulheres (Alice e Rain) em uma época em que esse tipo de debate não era levantado nem mesmo sobre o material original.

Os filmes de Resident Evil ainda merecem destaque em outro quesito: o gênero dos personagens não é essencial para definir aquele papel, podendo ser desempenhado por um homem ou uma mulher. Não há clichês de gênero, seja feminino ou masculino. Isso pode se dever ao fato de que o trabalho de Paul WS Anderson não é dos mais profundos quando se fala de direção ou roteiro, mas das muitas falhas cometidas pelo cineasta, “a mulherzinha” e “o machão” não entram para a conta.

Os filmes de Resident Evil são duramente criticados, seja tecnicamente, seja pelos fãs que não vêem Alice como uma protagonista aceitável por não fazer parte do universo dos jogos. Ainda que existam vários argumentos, o maior deles pode ser mais simples do que parece: uma mulher forte incomoda. Quantos aqui já leram comentários como “ela é forte demais”, “Alice é apelona”, “ela é colocada acima da Jill e de outros personagens”. E é mesmo. Ela é a protagonista dessa franquia e vai ter mais destaque do que qualquer outro personagem, seja do jogo ou não [é o tipo de coisa óbvia que não precisaria ninguém desenhar, sabe?]. É como se vocês quisessem que Harry Potter não matasse Voldemort ou Anakin não superasse Darth Vader. Pode ser generalização afirmar que Alice “incomoda” por ser uma protagonista feminina forte em uma franquia de ação, mas ao mesmo tempo lembramos das reclamações sobre o destaque de Furiosa em Mad Max ou do protagonismo de Rey e Jyn Erso nos dois últimos Star Wars.

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Ainda que este texto seja sobre os personagens femininos dos filmes de Resident Evil, vale abrir o espaço para comentar a enxurrada de comentários machistas sobre Milla Jovovich. Sim, ela é esposa de Paul WS Anderson. A atriz foi escalada para o papel antes de os dois terem um relacionamento. PA não é um primor no quesito direção e roteiro, mas a franquia fez dinheiro e é por isso que um estúdio aceita conceder milhões em orçamento para um projeto dele ser viabilizado seis vezes. Uma franquia não é consolidada ou financiada porque a protagonista é casada com o diretor. Não é o nome ou a cara de Paul WS Anderson que “vendem” os filmes de Resident Evil. É a cara de Milla Jovovich estampada naqueles pôsteres e, dificilmente, esta franquia existiria por tantos anos caso ela não fosse a incrível e dedicada atriz de ação que é.

Muita gente gosta de afirmar que Milla é protagonista de Resident Evil porque é casada com Paul Anderson, mas ninguém se pergunta se ele permanece na cadeira de diretor por ela ser a protagonista de uma franquia de 15 anos ¯\_(ツ)_/¯. Se essa suposição parece absurda, tente pensar em quantos profissionais dirigiram Hugh Jackman como Wolverine até ele se despedir do personagem depois de 17 anos. O público se sente mais ligado ao ator que interpreta repetidamente um protagonista do que quem dirige ou escreve os filmes, é inevitável.

Talvez por não estarem em filmes aclamados pela crítica as heroínas de Resident Evil não costumam ser apontadas como ícones feministas como acontece com Ripley, Furiosa ou Katiniss. Ainda que contenha filmes considerados “decerebrados”, Resident Evil não deveria ser tão subestimado em sua representação feminina. Por um lado essa considerada mediocridade os torna até mais feministas. Existem tantos filmes igualmente absurdos e exagerados protagonizados por homens por aí. Não é como se o feminismo só coubesse em filmes aclamados. Pode estar no banal também, por que não?

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