Lançado no início do ano 2000 para Dreamcast, Resident Evil CODE: Veronica chegou ao mercado com uma qualidade gráfica impressionante para época, aproveitando o potencial do console da Sega. Cerca de um ano depois, no mesmo aparelho, uma segunda versão foi lançada (com complementos) e foi batizada de RE CODE: Veronica X (RECVX). O título também acabou chegando posteriormente ao PlayStation 2GameCubePlayStation 3 e Xbox 360 – nesses dois últimos, em alta definição.

O jogo traz de volta Claire Redfield em uma história que pode ser considerada a sequência direta de Resident Evil 2, começando três meses depois da destruição de Raccoon City, quando a jovem vai até Paris em busca de seu irmão. Ao invadir uma base da Umbrella na cidade, Claire é capturada e levada para uma prisão na Ilha Rockfort, também pertencente à empresa. O pesadelo começa mais uma vez quando um ataque à ilha libera o T-vírus e transforma todos em zumbis. Em meio ao terror, Claire acaba recebendo a ajuda de Steve Burnside e mais tarde de seu próprio irmão Chris Redfield, que entra em confronto direto com a excêntrica família Ashford e também com o “ressuscitado” Albert Wesker.

Em uma história muito bem amarrada e cheia de reviravoltas, RECVX, ao lado de RE2, pode ser considerado o título mais perfeito tecnicamente de toda a franquia. Embora peque em alguns aspectos da jogabilidade – como por exemplo ter que apertar botão para subir escadas e uma rotação de personagem sofrível – o título apresenta um sistema de câmeras um pouco mais dinâmico do que os jogos anteriores. Além disso, os conflitos apresentados em CODE: Veronica e a história decadente da família Ashford são um espetáculo a parte.

A história

Resident Evil Code Veronica X Review - Screenshot 001

Após os incidentes em Raccoon City, Claire partiu para a Europa em busca de seu irmão Chris. Seguindo pistas, ela acabou chegando até a filial de Paris da Umbrella, onde foi capturada e levada para a Ilha Rockfort, local que também era comandado pela empresa. A jovem é encarcerada, mas é libertada por Rodrigo Juan Raval, que considera a liberação do T-vírus na ilha. Claire então começa sua jornada para escapar com vida do lugar e acaba encontrando Steve Burnside, outro prisioneiro.

A fuga dos dois seria muito mais complicada do que parecia, já que além de lidar com os zumbis e outras criaturas espalhadas pelo local, eles ainda entram em confronto com o excêntrico Alfred Ashford, patrono do local e que possui uma personalidade bastante distorcida. Não bastando isso, Claire ainda cruza com Albert Wesker, que todos imaginavam estar morto, mas que foi o responsável pelo ataque que resultou na infecção da ilha. Wesker “voltou dos mortos” com a intenção de roubar uma amostra do vírus T-Veronica, criado por Alexia Ashford, que estava em sono criogênico numa tentativa de seu organismo se adaptar a ferocidade do vírus. Além disso, ainda há a aparição de Chris Redfield, que chegou a Ilha Rockfort para encontrar sua irmã e acaba se vendo em meio ao caos, antes de descobrir que Claire e Steve rumaram para a base da Umbrella na Antárctica, graças as ações de Alfred Ashford. O local, além de ser uma base da Umbrella, também escondia alguns dos mais sombrios segredos da família Ashford.

Com todos esses elementos, a história se desenrola de uma forma que acaba opondo três forças: irmãos Ashford x irmãos Redfield x Albert Wesker. Esse triângulo de forças é o que sustenta o jogo e prende o jogador do começo ao fim, com uma trama bastante incomum, com várias surpresas e momentos marcantes, como por exemplo a batalha entre Wesker e Alexia no hall da mansão (uma das cenas mais épicas de toda a franquia Resident Evil), e a descoberta de que Alexander Ashford foi traído por seus filhos e usado como cobaia das experiências de Alexia, antes de ser trancado em um lugar secreto na base da Umbrella.

Muita gente diz que a trama de RECVX tem traços de dramalhão mexicano, principalmente por conta da família Ashford, sempre envolta em traições, maldade e uma imensa falta de caráter e humanidade. Pois bem, não dá pra deixar de concordar em partes com isso, até porque, embora RECVX não seja o primeiro título da franquia que traz vilões humanizados de verdade (RE2 já trazia isso com a família Birkin, principalmente na relação entre Annette e Sherry), mas é o primeiro que foca mais nas relações familiares e em sua complexidade, como o enorme emaranhado de sentimentos, emoções e traições que ocorrem entre Alexander, Alexia e Alfred. E justamente esse “dramalhão mexicano” é um dos pontos que mais cativam e prendem o jogador a história. Você sempre vai querer saber qual vai ser a próxima loucura de Alfred, e principalmente saber porque a família Ashford chegou nesse ponto tão decadente e quem foram os responsáveis por isso. Ainda é interessante observar Alfred Ashford, foi inspirado em Norman Bates de Psicose, isso talvez explique um pouco do comportamento doentio que ele apresenta na trama.

Não bastasse a intrigante e cativante história dos Ashford, ainda temos a volta de Albert Wesker, e uma volta triunfal cheia de confrontos com Claire, Chris e Alexia. Wesker voltou dos mortos graças a necessidade de a franquia ter um vilão central, alguém que pudesse ao mesmo tempo ser inimigo tanto dos protagonistas quanto da própria Umbrella, e com esse plot e ainda com os seus “super-poderes”, Wesker passou a partir de RECVX a ser o principal vilão do jogo, obviamente a Umbrella continua sendo o foco central de toda a trama, mas pela primeira vez temos um vilão personificado e que não é morto ao final do jogo, e como sabemos, a história de Wesker renderia muitos novos capítulos…

O desafio

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Sem dúvida nenhuma RECVX é o jogo mais difícil desde RE1. Além de ser um jogo bastante grande – tanto em tempo de jogo quanto com relação ao mapa -, ele conta com alguns inimigos complicados, como os Bandersnatches, os Hunters (que estão mais mortais do que nunca, além de também aparecerem em uma forma venenosa, que causa enormes problemas ao jogador), e aquele que é provavelmente o Tyrant mais difícil de se enfrentar até então.

O imenso mapa ajuda a complicar a história, e as vezes torna um pouco cansativo o jogo. Você perderá as contas de quantas vezes terá que atravessar a ilha Rockfort ou a base da Antárctica inteiras em busca de um item para voltar e abrir uma porta pra pegar outro item e desbloquear uma localidade do outro lado do mapa. As idas e vindas são muitas, são longas e são perigosas, pois quando você menos espera pode dar de cara com um grupo de Badersnatch ou de Hunters, e aqui temos um ponto negativo, já que essas idas e vindas acabam fazendo você passar por alguns períodos entediantes… e não bastasse isso, numa dessas muitas idas e vindas ainda tem o bendito extintor, e quem o esqueceu na ilha antes de ir pra base da Umbrella sabe muito bem do que estou falando.

Como é lógico, conforme o jogo vai se aproximando do fim, os inimigos ficam mais difíceis e aparecem em maior quantidade, e a exemplo de RE1, quase sempre a melhor alternativa é fugir. Em RECVX, gastar munição de armas poderosas pode significar a ruína no fim do jogo, principalmente por conta dos dois confrontos contra o Tyrant e das batalhas contra Alexia. São muitos os relatos de pessoas que tiveram que reiniciar o jogo porque chegaram na segunda batalha contra o Tyrant e não tinham munição, ou que sofreram na batalha contra o Nosferatu, por desperdiçar os tiros de rifle, e até mesmo Alexia, já no fim do jogo, portanto: guarde as armas mais poderosas para estes três chefes.

Por todos esses pontos citados acima, não tenho medo de dizer que se RECVX não é o mais difícil de todos os jogos da franquia, tranquilamente está no TOP3.

Além da campanha principal, o jogo ainda traz o extra Battle Game, onde o jogador vai passando por diversas salas e deve eliminar todos os inimigos do local antes de seguir para a próxima localidade. Rapidez aqui é fundamental, e ao final de cada um dos cenários você enfrenta um diferente chefe, de acordo com o personagem escolhido. É um desafio interessante e extremamente viciante, você pode traçar diferentes estratégias para cada local, para cada personagem disponível.

A jogabilidade

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RECVX reúne pontos positivos e negativos da jogabilidade dos três primeiros jogos da franquia. O jogador tem o recurso quick turn (giro 180) que apareceu em Resident Evil 3, mas o personagem gira de uma forma estranha, parecendo que está sendo rotacionado em cima de um disco; pode-se mirar para cima, para frente ou para baixo como foi implementado em Resident Evil 2, e no mais tem uma jogabilidade bem semelhante ao terceiro jogo da franquia. A nota negativa fica pelo personagem “tanque”, difícil de manobrar, o que torna a fuga bastante complicada em alguns momentos. Apesar disso, os movimentos não são tão duros quanto em RE1, mas é um retrocesso, já que RE2 e RE3 melhoraram muito esse aspecto, que voltou a aparecer negativamente em RECVX. Um outro ponto negativo é a necessidade de se apertar o botão de ação para subir escadas, algo que havia sido abolido em RE3 e voltou em RECVX desnecessariamente.

Uma novidade é a movimentação da câmera. Ela continua fixa em um determinado ponto do cenário, mas agora ela tem pequenos giros acompanhando o movimento do personagem, e isso ajuda muito principalmente porque diminui as quebras de tela e as passagens de cenário que muitas vezes colocava o jogador em perigo. Ainda assim, apesar de positivo, esse recurso não foi tão bem explorado, já que ainda coloca o jogador em situações desnecessárias.

Uma outro ponto bastante positivo em RECVX é a faca, que pela primeira vez na franquia é realmente útil. Embora em RE3 já seja possível usá-la de forma eficiente, em RECVX você não precisará de horas de treino e de muitas tentativas e erros até conseguir livrar-se de um zumbi com ela. Muitas vezes, você poderá usá-la e economizar munição quando estiver em uma sala contra um ou dois zumbis.

Os gráficos

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Belíssimos, essa é uma definição bem justa dos gráficos de RECVX. A primeira aparição de Resident Evil em uma plataforma 128 bits fez bonito literalmente, e é considerado um dos jogos mais belos lançados para o console da Sega. Mesmo no PS2 e no GameCube, o game manteve sua imensa qualidade gráfica, e até superando um pouco a versão original de Dreamcast.

Algumas pequenas falhas são vistas, mas não chegam a prejudicar a experiência. A quebra de polígonos é quase inexistente, e os únicos pontos que merecem uma ressalva negativa são os efeitos de fumaça, especialmente as nuvens de gás que são expelidas pelo Nosferatu, que destoam do resto do conjunto.

No mais, para a época RECVX (ou RE CODE: Veronica Complete Edition no Dreamcast) apresenta visual primoroso, e fez com que o console da Sega logo de cara alcançasse quase o máximo de sua capacidade de processamento gráfico. As cenas em CG também exploram toda a potência dos consoles 128 bits assim como os gráficos in game.

O som

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Se a trilha e os efeitos dos três primeiros jogos da série foram primorosos, RECVX não poderia ser diferente e fez o que parecia impossível: superou os seus antecessores.

As músicas que compõe a trilha ajudam a dar o clima do jogo, quase sempre dramático e com pitadas de decadência em referência a família Ashford. Também há as trilhas dos clímax, especialmente no enfrentamento de chefes como Tyrant, Steve Monster e o grand finale contra Alexia. Não há uma vírgula a ser adicionada aos temas escolhidos, se a equipe acertou a mão em todos os outros jogos numerados, em RECVX não foi diferente e eles se superaram.

Os efeitos sonoros são tão precisos quando deveriam ser, muito do que está no jogo foi herdado dos capítulos anteriores, com algumas pequenas adições e melhorias, isso graças a maior capacidade de processamento dos consoles 128 bits. Os diferentes pisos em que Claire e Chris caminham, os diferentes sons de armas, o grito aterrorizante do Hunter, as nuances de voz de Alfred, Alexia e Steve… é tudo executado com imensa precisão e qualidade.

A perfeição da trilha sonora e dos efeitos são até então uma marca registrada de Resident Evil, afinal, não seria possível compor um bom clima de terror e suspense sem que esses quesitos sejam de alta qualidade.

Conclusão

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A estréia de RECVX nos consoles de 128 bits foi um sucesso total, sucesso esse que só seria visto novamente essa geração de consoles, 5 anos depois com o lançamento de Resident Evil 4.

O lançamento de RECV foi estratégico para a Sega, pois ajudou a alavancar as vendas do Dreamcast, já que inicialmente o título seria exclusivo do console. O tempo passou e foi lançada a versão “X” do jogo que também chegou ao PS2 e ao GameCube, que trouxe alguns momentos a mais ao jogo, completando a sua história e deixando ainda mais pontas abertas para os capítulos seguintes.

Mesmo hoje, 13 anos após o seu lançamento, RECVX ainda é um grande jogo, tanto é que acabou sendo remasterizado em HD e portado para PS3 e Xbox 360, deixando-o ainda mais bonito e possibilitou que as gerações mais jovens de gamers conhecessem esse fantástico jogo e sua história muito bem conduzida. É uma pena que não se veja nos dias de hoje, o mesmo cuidado com a história e com a construção dos personagens que foi aplicado em RECVX, talvez um dos jogos da franquia que melhor explorem os conflitos, apresentando não apenas 2, mas sim 3 diferentes lados que se antagonizam em um equilíbrio raramente visto.

Embora muitos considerem o jogo cansativo por causa das idas e vindas, especialmente na ilha Rockfort, RECVX pode proporcionar horas e horas de diversão e tensão, especialmente se o jogador tiver a “moral” de encarar a aventura sem o auxílio de detonados. O Battle Game ajuda a dar ainda mais vida útil a esse jogo, e talvez seja um dos modos extras mais competentes que se viu em Resident Evil.

O jogo possui sim suas falhas, mas nada que o torne irritante ou que desestimule o jogador a prosseguir em sua aventura, e se você ainda não jogou, vale a pena experimentar o jogo, principalmente nas versões de PS3 e X360, e ter um gostinho da velha fórmula que tornou Resident Evil uma das maiores franquias do mundo dos games.

Curiosidades

  • A cena inicial do jogo, com Claire fugindo por um corredor e com um helicóptero atirando nela, serviu de inspiração para uma cena do filme Resident Evil 2: Apocalypse, onde Alice executa praticamente os mesmos movimentos para fugir de um ataque da Umbrella.
  • RECV foi o primeiro jogo da franquia a ter cenários tridimensionais. Eles substituíram os pré-renderizados dos três primeiros jogos da franquia.
  • O local onde ocorre a batalha entre Wesker x Alexia x Chris é uma réplica do hall principal da mansão de Spencer.
  • Foi lançada uma versão comemorativa de RECVX, o “5th Anniversary Pack” que trazia um DVD com o primeiro Wesker’s Report, que explica como Wesker sobreviveu ao incidente da mansão de Spencer e conta todos os planos do vilão.
  • O primeiro Wesker’s Report apresenta uma série de erros com relação a cronologia, como por exemplo Sherry ter sido capturada pelo vilão, além de considerar Leon A e Claire B como os cenários cronológicos de RE2, quando na verdade a ordem correta é Claire A e Leon B.

Ficha Técnica

Título: Resident Evil CODE: Veronica (Biohazard CODE: Veronica)
Ano de Lançamento: 2000
Plataformas: Dreamcast, PlayStation 2, Nintendo GameCube, PlayStation 3, Xbox 360.
Versões Diferentes: Resident Evil CODE: Veronica X / Resident Evil CODE: Veronica Complete Edition (2001); Resident Evil CODE: Veronica X HD (2011).

CRÉDITOS
Escrito por: André Ceraldi (Ceraldi)
Colaboração: Bruna Mattos (Yuna)
Revisão: Ricardo Andretto (ThE cRaZy)
Data de Publicação: 02/07/2013

O texto não reflete a opinião do site REVIL, e sim do autor da análise. Esse jogo foi analisado no Xbox 360.

REVIL Retrô - Resident Evil CODE: Veronica X
Continuação “direta” de RE2Enredo cheio de reviravoltas e surpresasO retorno triunfal de Albert WeskerA trágica história da família AshfordTensão constanteTecnicamente quase impecável, com belos gráficos, som de primeira e jogabilidade bem adaptada para o ritmo do jogo
Algumas idas e vindas desnecessárias, principalmente na ilhaPassar com Chris exatamente pelos mesmos locais e fazer quase as mesmas coisas que Claire fez
9.6Pontuação geral
Gráfico9.5
Som10
Jogabilidade9.5
Enredo9.5
Diversão9.5
Votação do leitor 161 Votos
7.3
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