Cercado de expectativas, Resident Evil: Revelations 2 teve seu primeiro episódio – Colônia Penal – lançado no início dessa semana. Apostando em um formato episódico para instigar a curiosidade e o debate entre os fãs durante o intervalo de lançamento dos novos episódios, o mais novo capítulo da franquia Resident Evil prometia trazer o que o primeiro RE: Revelations trouxe e um pouco mais: terror adaptado a uma jogabilidade mais moderna, sensação de perigo constante, mistérios e uma trama com roteiro digno dos melhores seriados de suspense.

Confesso que, apesar do hype geral da comunidade RE, eu consegui não me deixar pegar por ele e não criei grandes expectativas em cima do jogo, e talvez isso tenha sido a coisa mais acertada que fiz. Mesmo após jogar três vezes a demo (duas builds diferentes), as minhas expectativas sobre REV2 estavam quase zeradas, apesar de ter gostado do que experimentei nas demos.

Com isso, ao finalmente colocar as mãos no Episódio 1 completo, estava de peito aberto e disposto a aproveitar a experiência que o jogo me proporcionaria, e apesar de conhecer cerca de metade dos dois capítulos (por conta das demos que joguei), tive gratas surpresas com o jogo – o clima de tensão constante que toma conta do jogador a cada nova sala; e principalmente por causa da história e do absoluto clímax que o jogo deixa no encerramento do episódio.

Nem lindo, nem feio, apenas OK…

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Um dos pontos mais criticados de RE: Revelations 2 desde seu anúncio e de suas primeiras imagens e gameplays é a parte dos gráficos. A versão final do jogo, apresenta gráficos superiores ao que foi mostrado nas demos e gameplays que foram divulgados na internet nos últimos meses. Apesar disso, não se pode dizer que essa seja a principal virtude do jogo. No PS4, os efeitos de iluminação e de “fog” (névoa) estão muito bonitos, mas há algumas falhas em texturas e a movimentação dos personagens não é tão natural quanto deveria ser. Vale lembrar que REV2 é um jogo multi-plataforma (vai sair até pra PS Vita), então não dava pra esperar que ele viesse com visuais matadores, ainda mais se tratando do uso de uma engine já antiga e que está bem datada.

Entretanto, o fato de os gráficos não serem de outro mundo não chega a comprometer. Há muito mais no jogo do que os visuais, e eles, sejam por sua deficiência ou pela qualidade do restante, ficam em segundo plano.

A parte sonora, entretanto, compensa bastante isso. Como é de praxe na franquia RE, a trilha sonora é muito boa e ajuda a criar climas de tensão e clímax de forma bastante natural. Os efeitos sonoros de uma forma geral, cumprem bem o seu papel mas não chegam a se destacar ou a impressionar.

A dublagem também é outro aspecto que não compromete, destaque para a ausência de Alysson Court, que até então havia interpretado Claire Redfield em todos os jogos que a ruivinha aparece, mas apesar dessa ausência, a voz de Claire não perdeu totalmente sua característica, e mesmo sem Alysson, ainda é possível ouvir a voz de Claire e saber que aquela é mesmo Claire Refdfield. Como já foi visto em diversos vídeos de gameplays e trailer, Moira Burton é a típica adolescente rebelde que fala 10 palavrões a cada 11 palavras. Sua dublagem passa bem esse “espírito” aparente de rebelde sem causa, bem como a voz rouca e pesarosa de Barry nos faz ter a certeza que se trata de um cara com grande bagagem e que passou por diversos momentos complicados. A aparente ingenuidade de Natalia também se reflete em sua dublagem, e faz um contraponto a voz de Barry: é a seda e o concreto, a força e a fragilidade representadas com maestria em suas interpretações vocais.

O ponto negativo da dublagem fica por conta da falta de sincronia entre as falas e o movimento de boca dos personagens durante as cenas in-game. Nas cutscenes cinemáticas esse problema não ocorre, mas como a maior parte das ações e diálogos é em cenas in-game, fica um certo incômodo por essa falta de sincronização.

The Resi-Last of Evil: Revelation-Us

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Conceito básico de qualquer jogo de terror e survival horror, a economia de recursos ganhou um aliado importante em RE: Revelations 2 – a furtividade. Andar agachado e surpreender os inimigos matando-os por trás, é uma das novidades do jogo, em um sistema quase idêntico ao de The Last of Us.

Esse aliás, é só um dos elementos de The Last of Us aproveitados pela Capcom no jogo. Principalmente no capítulo de Barry, nota-se muita influência do jogo da Naughty Dog, a começar pela relação entre Barry e Natalia que lembra um pouco a de Joel e Ellie. Além disso, elementos como a mesa para upgrade de armas, o fato de Natalia usar tijolos para atingir os inimigos e até mesmo a necessidade de se criar itens a partir de elementos brutos, mostra que a Capcom bebeu sim – e muito – da fonte de The Last of Us. Algo que particularmente não acho ruim, já que o título lançado para PS3 em 2013 é um dos melhores jogos de sua geração e executa com maestria diversas mecânicas que trouxeram o survival horror de volta ao cenário dos grandes jogos. Talvez, usar elementos que deram certo em outros títulos seja uma forma de a Capcom flertar com o passado da franquia RE, mas sem necessariamente trazer de volta elementos antigos e ultrapassados, e ainda assim ter a segurança de se fazer valer de mecânicas consagradas de um jogo consagrado.

Capítulos quase iguais só que diferentes

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Os capítulos de Claire e de Barry tem muito em comum e também muita coisa diferente. Em comum há o cenário, a jogabilidade, mecânica geral do jogo a cooperação entre dois personagens, e é claro: o grande elo da história que é a busca de Barry por sua filha Moira. Entretanto, há também muitas diferentes, a começar pelos inimigos, pela quantidade de recursos e também porque aparentemente, as grandes revelações do jogo ficarão a cargo dos capítulos de Barry, com o capítulo de Claire “levantando a bola”.

Claire e Moira acordam na prisão sem recurso algum, e tem de encontrar armas, itens de suporte (faca, pé-de-cabra e lanterna) no decorrer do jogo. Já Barry chega a ilha com um pequeno arsenal, e bem equipado. Isso se reflete nos inimigos, que além de serem mais difíceis no capítulo de Barry, são mais numerosos. Além disso, a furtividade na hora de derrotar os inimigos é mais amiga de Barry do que de Claire, já que com a ajuda de Natalia, é possível identificar inimigos atrás de paredes e portas, e surpreendê-los por trás com um golpe finalizador que não gasta munição. Isso torna, em princípio, a vida de Claire e de Moira muito mais difícil. Apesar de os Afflicted serem relativamente fáceis de matar, especialmente com o auxílio da lanterna de Moira, há momentos em que as coisas podem se complicar, e o uso cauteloso de munição e itens de cura pode ser fundamental para o sucesso, especialmente na dificuldade mais elevada.

Referências ao passado

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Só a volta de Claire Redfield e Barry Burton já significa uma homenagem ao passado da série. Dois dos mais clássicos personagens e que a anos não apareciam em um episódio canônico da franquia voltam como protagonistas em Revelations 2. Mas as “homenagens” ao passado não param apenas por aí.

Piadas antigas como a clássica “Jill’s Sandwich” estão de volta só que em versões revisitadas, além disso, Barry Burton mantém seu estilo bonachão, cheio de frases de efeito e entonação vocal quase cômica em certos momentos. O próprio cenário principal do jogo, a ilha, é uma forma de revisitar o passado, e é impossível não lembrar de CODE Veronica, que também tem Claire como protagonista e também se passa em uma ilha. A relação familiar entre Barry e Moira também invoca um pouco do clima de CV que tem boa parte de sua história pautada na família Ashford e nos irmãos Redfield, além é claro da relação de Steve com seu pai.

Além disso, a promessa é que outros elementos do passado da série darão as caras em REV2, a própria Capcom afirmou que a vilã do jogo é alguém que os jogadores conhecem e que os mais “hardcore” certamente a reconheceriam. Cena vista no “Drama Trailer” trazem uma foto de Albert Wesker, e também há elementos que parecem apontar até mesmo para a presença do vírus Uroboros no jogo.

O concreto que sustenta tudo

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Valendo-se do formato episódico, a Capcom construiu com maestria o enredo, ao menos no episódio 1. No decorrer dele, muitas dúvidas são criadas e poucas são respondidas, entretanto, conforme vamos caminhando para sua conclusão, as coisas começam a ficar mais claras e o clímax final não deve em nada as grandes séries semanais de TV, como Game of Thrones, Breaking Bad e Lost. A história instiga e praticamente dá um tapa na sua cara, com uma conclusão arrebatadora que faz qualquer um ficar ávido pelo próximo capítulo. O objetivo disso é claro: manter o hype elevado, e gerar debate e troca de ideias e teorias entre os fãs (inclusive aqui no REVIL temos um tópico para o debate do EP1 que vem sendo monitorado pela própria Capcom).

O mérito da empresa no enredo é tremendo, e com isso faz com que seja impossível não lembrar dos áureos tempos de Resident Evil com enredos instigantes, cheios de surpresas e reviravoltas, mas tudo seguindo uma linha plausível e sem descambar pro dramalhão mexicano visto em Resident Evil 6.

E aquele final…

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Bastante divertido e intrigante durante todo o primeiro episódio, o final do capítulo de Claire dá a deixa que elas estão em um lugar totalmente distante de tudo e absolutamente desconhecido, e deixa a bola quicando par ao início do capítulo de Barry. Entretanto, ao me deparar com o final do capítulo de Barry, os mistérios só aumentam e mostram que nem tudo é o que parece ser.

O clímax deixado por esse final, com certeza fará muitos fãs contarem os segundos até o lançamento do próximo episódio, que acontece a cada semana. Criando cliffhangers que as melhores séries de TV fazem, o desfecho da primeira sequência do jogo mostra que a Capcom estava certa em fazer a aposta de lançar um jogo em formato episódico semanal. Com isso, a empresa cria uma atmosfera de curiosidade, que deve fazer os fãs se unirem em expeculações, teorias e debates sobre o que aguarda no próximo episódio.

Se esse objetivo vai ser atingido, só saberemos com o tempo, mas a intenção é válida e também beneficia uma base de fãs que andava descontente com os últimos jogos, e que começou a ficar com o pé atrás na hora de gastar centenas de reais com um lançamento da franquia. O formato episódico permite que os mais desconfiados, comprem um episódio por vez, gastando menos dinheiro do que com um jogo completo e tendo a oportunidade de aos poucos, confiar na empresa que a alguns anos deixou de entregar os jogos da franquia RE que todos gostaríamos.

Ficha Técnica

Título: Resident Evil: Revelations 2 – episódio 1: Colônia Penal
Data de Lançamento: 24 de fevereiro de 2015
Plataformas: PlayStation 4, PlayStation 3, Xbox One, Xbox 360 e PC.

CRÉDITOS
Escrito por: André Ceraldi (@andreceraldi)
Data de Publicação: 25/02/2015
O texto acima não reflete a opinião do REVIL, e sim do autor da análise. Este jogo foi analisado no PS4 em cópia cedida pela Capcom-Unity Brasil.

ATENÇÃO: Estão liberadas apenas informações ou especulações referentes ao primeiro episódio (Colônia Penal) nos comentários desse post. Informações retiradas de outras fontes, ou imagens retiradas de capítulos posteriores do jogo serão consideradas SPOILERS.

Análise - Resident Evil Revelations 2 - Episódio 1 - Colônia Penal
Enredo instigante e bem amarradoAção e suspense alternados de forma equilibradaSistema de combate melhor do que de Revelations 1Clima de perigo e tensão constantesTrilha sonora ajuda a potencializar o climaClímax final do episódio
Gráficos defasadosAusência de co-op online na campanhaErros de tradução e legendas mal sincronizadas com as falas
8.5Pontuação geral
Gráficos7.6
Som9
Jogabilidade8
Enredo9.5
Diversão8.5
Votação do leitor 44 Votos
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