Quando pensamos em Onimusha, é difícil não imaginar espadas, samurais e criaturas sobrenaturais tipicamente das lendas e folclore japonês. Em Onimusha: Way of the Sword, Miyamoto Musashi se torna protagonista do novo título da franquia, colocando um dos maiores espadachins da história japonesa diante de ameaças sobrenaturais.
E se Musashi enfrentasse criaturas do folclore brasileiro em vez dos demônios Genma? Com essa ideia em mente trago duas figuras bem conhecidas de lendas tupiniquins que poderiam ser um desafio a altura para o hábil samurai. E se Cuca e Corpo-Seco antagonizam uma batalha com a lenda samurai mais famosa do Japão?
Contextualizando Onimusha e Musashi

Em Onimusha: Way of The Sword, a cidade de Kyoto está sofrendo com a invasão dos Genma e o miasma que emana do inferno, por meio de fendas que estão servindo de portais para que essas criaturas monstruosas venham ao mundo dos mortais.
Musashi recebe o poder dos Oni por meio de uma manopla, que é colocada em seu braço contra sua vontade pela figura misteriosa de um homem de branco. Para ganhar a liberdade de volta e se livrar da manopla Oni, ele vai precisar, mesmo que relutante, derrotar os Genma para salvar o povo de Kyoto e alcançar seu objetivo.
Dois breves contos
A seguir, por meio de dois breves contos, imagino como seria se Musashi enfrentasse Cuca e Corpo-Seco no mundo de Onimusha. E se os Genma buscassem aliados em outras culturas e lendas, afinal, por que não pode haver um submundo onde todas elas habitam? E se pudessem viajar entre universos/regiões de forma que acordos proibidos possam ser selados? Até porque, muitas criaturas têm o mesmo objetivo: se libertar e aterrorizar o mundo dos mortais…
Os contos são focados em como seria uma batalha de Miyamoto Musashi contra duas lendas folclóricas brasileiras, mais ou menos nesse contexto, como se os Genma tivessem buscado essa nova aliança para que ambas as partes pudessem sair ganhando com isso. Espero que essa brincadeira seja apreciada (Alô Alô fanfiqueiros de plantão!).
E se Musashi se encontrasse com a Cuca?
Em meio a sua aventura, Musashi acaba se deparando com uma criatura diferente dos Genma que costumava encontrar. Mesmo os maiores e mais diferentes não se pareciam com o que ele acabara de localizar. O samurai precisava purificar uma região em que os moradores pareciam ser exclusivamente de adultos, não havendo nenhuma criança se quer. No templo dessa região, no leste de Kyoto, não foi um Genma comum que Musashi encontrou.
Agraciado pela visão Oni, o samurai pôde ver que o monstro atraia as crianças e então as colocava em seu caldeirão para devorá-las mais tarde, mas não antes de as cozinhar bem…
A criatura possuía a pele verde cheia de escamas, olhos amarelos brilhantes, um focinho proeminente e um sorriso cheio de dentes pontiagudos que pareciam bem afiados, assim como as garras de suas patas. Havia uma longa cauda e apesar de evocar a aparência de um jacaré, a criatura se punha a andar de forma bípede, apoiando-se em suas patas traseiras. Trajava um manto negro e um cajado, feito do que parecia ser madeira retorcida. Em sua base, possuía uma espécie de lâmina pontiaguda angulada, enquanto em seu topo, envolto pelas raízes, um cristal esférico de coloração âmbar que parecia formar um olho.

Quando a criatura viu o samurai a desafiá-la, soltou uma risada estridente e o ameaçou, apresentando-se como Cuca, uma poderosa bruxa de terras distantes, que havia selado um acordo com os Genma. Cuca queria as almas das mais diversas e desafortunadas crianças, para além dos limites que possuía em sua antiga terra, lugar em que as caçava apenas à noite e limitada pelos que mantinham-se acordados nas madrugadas. Agora no Japão, ela podia ser livre para capturar suas presas em qualquer horário.
Musashi soltou uma piada como de costume e pouco ligou para a ameaça que sofreu, pronto para enfrentar mais um dos muitos Genma em seu caminho. Cuca, como uma boa bruxa, usa seu cajado para lançar suas magias, conjurando bolas de energia para controlar a luta a distância. Não só isso, suas habilidades ainda consistem em criar cópias de si mesma para confundir o adversário e quando concentra seus poderes, pode invocar alguns pequenos Genma (que possuem uma aparência mais infantil) para ajudá-la na batalha.
A curta distância, Cuca usa suas garras e seu cajado, com a lâmina na base para mostrar a seus inimigos que subestimá-la em combate corpo a corpo é um erro. Musashi precisa de toda sua habilidade para enfrentar esse novo monstro. A visão Oni o ajuda a ver por entre as ilusões da bruxa, enquanto suas outras o auxiliam a enfrentar as pequenas criaturas Genma e também a Cuca, que é surpreendente habilidosa com seu cajado a curta distância.

O samurai corta a cauda da bruxa reptiliana e a postura dela muda, por meio de um ritual, ela invoca seus pequenos Genma, mas em vez de deixar que ataquem Musashi, a bruxa os sacrifica, sugando suas almas diretamente para dentro de seu cajado. Isso a deixa mais forte, poderosa, agressiva e violenta.
Cuca se mostra uma adversária formidável, dando ao habilidoso espadachim mais trabalho do que ele imaginava, mas ao perceber que seu cajado era seu ponto fraco, Musashi concentra seus golpes no cristal esférico em sua ponta, que ao ser golpeado e começar a rachar, libera as almas das crianças aprisionadas nele e enfraquece a bruxa.
Com seu cajado quebrado e o cristal de coloração âmbar em pedaços, a bruxa se torna inofensiva na presença do samurai, que finalmente a derrota, purificando a área do templo que estava sob seu controle.
E se Musashi encontra-se com o Corpo-Seco?
Enquanto Musashi busca restaurar o equilíbrio em Kyoto, eliminando o miasma que cobre o leste da cidade e expulsando os Genma da região, o samurai recebe um estranho pedido para investigar o cemitério das redondezas. Moradores relatam que os mortos não estão mais mortos, os corpos saem de suas covas, nada mais fica enterrado – é como se a terra cuspisse os mortos de volta.
Ao investigar a área, Musashi percebe que não há vegetação, apenas galhos, árvores e raízes secas. Ao se aproximar do cemitério, as covas estão abertas e vazias, os cadáveres espalhados pelo solo, todos com o mesmo aspecto, pálidos, secos, quase como se estivessem em processo de mumificação, ressecados. O samurai observa com cuidado uma pequena pilha de corpos mais ao centro da área, e cutuca um deles com o pé, fazendo o cadáver esquelético rolar ao chão.
De trás de Musashi, uma silhueta se levanta, silenciosa e desengonçada, como se não tivesse ossos. Ela se coloca de pé e com uma velocidade impressionante avança na direção do homem curioso com a pilha de corpos. Musashi desvia da investida da criatura, evitando ser agarrado por ela, mas saí cambaleante para o lado. Enquanto ele resmunga alguma coisa, a criatura para e apenas vira as partes de seu corpo, começando com a cabeça que gira em 360 graus, fazendo estalos com o movimento, seguido então do corpo, primeiro o tórax, depois os quadris e então os membros inferiores e depois os superiores.

Musashi observa com uma careta enojada enquanto a criatura se volta para ele. Quando ela se lança novamente em sua direção, ele saca sua espada a posicionando na frente de seu corpo e a criatura vai de encontro, sendo perfurada pela lâmina bem no abdômen. Ao ser empalada a criatura soltou um grunhido, mas não parecia sentir dor. Seu corpo desacelerou ao encontrar a resistência da lâmina, mas não parou, ela continuou em direção de seu alvo, atravessando cada vez mais a lâmina do samurai, com os braços esticados para alcançá-lo.
Musashi gira sua lâmina diagonalmente e corta de dentro para fora o corpo preso a ela. Nenhuma gota de sangue cai da massa humanoide a sua frente. Menos ainda ele parece sentir qualquer dor. Os olhos fundos e negros não vacilam nem por um instante enquanto encaram Musashi, como se vissem dentro de sua alma. Um calafrio percorre seu corpo ao ser encarado por aquela casca aparentemente vazia, que apesar de ser feita de carne e ossos, já não é humano há muito tempo.
Musashi se coloca em posição de ataque, apenas esperando o que ele já sabe que acontecerá. Seu inimigo avança mais uma vez, com uma velocidade alta para uma monstruosidade com aparência tão enrijecida. Mas o hábil samurai é mais rápido. Ele corta, fatia e desmembra o monstro à sua frente à medida que ele não para sua investida. Despedaçado, o cadáver ressequido parece ter encontrado seu fim. Musashi embainha sua espada novamente, esperando a corrupção do local se dissipar… mas algo parece errado, nada acontece. O cadáver a sua frente começa a se reerguer, os membro sendo atraídos de volta a seus antigos lugares, porém há uma luz carmesim, fraca em seu peito, que emana por entre as costelas do lado esquerdo, um brilho que pode ser visto por entre as cavidades feitas da lâmina em seu tórax.

Musashi se coloca em posição de luta mais uma vez, desembainhando sua espada com rapidez, pronto para atacar o monstro. Ele pode ouvir a voz de Shizuka, o orientando a atacar o ponto luminoso escondido em seu peito, é de lá que emana sua energia maligna. A criatura era incansável, ainda assim Musashi a cortou e cortou e cortou, até revelar quase completamente seu núcleo, uma espécie de coração carmesim. O samurai atravessou sua lâmina no coração, que apesar do brilho, não parecia pulsar. A luz se apagou e o núcleo tornou-se negro… Em seguida a criatura começou a desfazer-se, como cinzas. Musashi guardou sua espada pronto para ir embora, mas assim que virou de costas, sentiu um calafrio percorrer seu corpo.
As cinzas começaram a flutuar, como se o vento as mantivesse acima do solo. Um pequeno redemoinho se formou e então e como numa explosão as cinzas se espalharam para longe, com um som que Musashi tinha certeza ser uma uma risada maligna.
O samurai colocou-se em prontidão, com a espada na mão e os sentidos atentos a qualquer movimento. Os corpos espalhados pelo cemitério começaram a se levantar, tão sem vida e desengonçados como a criatura antes. Enquanto eles cercavam Musashi, ele pode ouvir novamente a mesma risada maligna e por um segundo a sombra negra apareceu em sua frente, atravessando seu corpo, enquanto ele desferia um golpe com sua espada, que não pareceu ter efeito algum sobre a nova forma do monstro.
Ao sentir seu corpo ser atravessado pela forma etérea, sua pele queimava e os pulmões ardiam. Os cadáveres fechavam o cerco contra ele. Atacá-los era fácil, mas como se mata algo que já está morto? Embora não pudessem reconectar as partes arrancadas pela lâmina do samurai, mesmo ao chão, sem braços, pernas ou a própria cabeça, eles não paravam de se mexer.
Não eram inimigos páreos para Musashi, mas tiravam sua atenção da ameaça real, que aproveitava para golpear com garras pontiagudas que possuíam um brilho carmesim, semelhante ao do núcleo em seu peito anteriormente e transpassar Musashi, drenando sua força aos poucos.
Sem escolha, o samurai usa seu poder para transformar-se, ganhando uma nova aparência, despertando o poder da manopla e sua forma com o poder total de um Onimusha. Seu corpo ganha um tom escuro, assim como uma espécie de armadura natural. Chifres alongados crescem em sua cabeça, seu cabelo ganhou um tom vermelho sangue e seus olhos, agora amarelos, tinham um olhar feroz.
Musashi concentrou o poder em sua espada, ela emanava uma luz azulada, que começou no fio da lâmina, mas logo se espalhou por toda ela. Concentrado e apenas aguardando o momento certo, Musashi esperou o espectro aparecer. Ele veio em sua direção, desaparecendo, para reaparecer atrás dele, golpeando com suas garras.

Sem dificuldade o guerreiro Onimusha apara seus golpes e os desvia, ganhando a abertura que precisava para cortar a massa etérea. Ela se dividiu ao ser atingida pela lâmina de Musashi, como quem corta papel. Mesmo sua forma se esvaindo, ainda era possível ouvir a mesma risada maligna de antes, porém dessa vez, ficando mais fraca conforme a sua forma também ia se apagava.
Musashi volta a sua forma humana, guardando a espada definitivamente desta vez, enquanto a área pode finalmente ser purificada e dar aos mortos do local o descanso eterno que tanto almejavam…
Conhecendo a Cuca
A Cuca é uma das figuras mais conhecidas do folclore brasileiro e ficou especialmente famosa como uma criatura usada para assustar crianças. A versão mais popular a apresenta como uma espécie de bruxa monstruosa, frequentemente representada com características de jacaré.
No Brasil, a Cuca passou a ser associada principalmente à ideia de uma criatura que sequestra crianças que não dormem ou que desobedecem aos adultos. Essa imagem ganhou enorme popularidade com as obras de Monteiro Lobato, especialmente com o livro O Saci, publicado em 1921, e posteriormente com suas adaptações para a televisão como O Sítio Do Pica-Pau Amarelo, inspirado em demais obras do escritor.
A lenda do Corpo-Seco
Presente em diferentes regiões do Brasil, o Corpo-Seco é descrito como o cadáver de uma pessoa tão cruel e pecadora que, depois da morte, teria sido rejeitado até mesmo pela própria terra – além de Deus e o Diabo. Incapaz de encontrar descanso, rejeitado, pelo céu, inferno e pela terra, seu corpo permaneceria vagando pelo mundo.
Como o próprio nome sugere, sua aparência é a de um cadáver completamente ressecado, com a pele grudada aos ossos. Algumas versões da lenda contam que ele permanece escondido em matas e estradas, atacando ou assustando aqueles que cruzam seu caminho.
Mais do que uma criatura monstruosa, o Corpo-Seco representa uma espécie de punição sobrenatural. Na morte, ele não encontra descanso porque, segundo a lenda, sua própria existência em vida foi marcada por tamanha crueldade que nem a natureza estaria disposta a recebê-lo.
Do folclore brasileiro para Onimusha
É claro que o encontro entre essas criaturas e Miyamoto Musashi é uma criação imaginária. As versões apresentadas no conto foram adaptadas para combinar com o universo sobrenatural de Onimusha, mantendo, sempre que possível, elementos presentes nas lendas originais.
No nosso “e se?” Cuca e Corpo-Seco atravessam o mundo e chegam ao Japão para fazer um acordo com os Genma para espalhar o terror por Kyoto? Que tal esse Onimusha Folclórico bem ao estilo de um dos Capcom Creators?
E há uma coisa que o folclore brasileiro sabe fazer bem: criar monstros capazes de transformar uma noite tranquila em um péssimo momento para estar sozinho e principalmente no escuro.
Creditos aos artistas pelas imagens:
Ikarow (Corpo-Seco): @ikarow – Instagram
Davi Sales (Cuca): devianart – davisales
Missingno-54 (Cuca): devianart – JohnDrawFatties



