A Capcom é uma empresa com inúmeras propriedades intelectuais e, infelizmente, não tem recursos infinitos para investir em todas elas. Onimusha foi uma dessas franquias que, apesar de terem feito sucesso no passado, não via um jogo novo da saga principal desde 2006. Após 20 anos, finalmente tivemos um novo capítulo na franquia, não apenas reinventando o que tornou a saga tão memorável e querida pelos fãs, mas trazendo aquele que é provavelmente o melhor jogo da Capcom este ano.
Onimusha: Warlords surgiu como um “Resident Evil no Japão feudal” antes de se tornar uma franquia própria. A trilogia original mostrava a luta de samurais contra o exército de uma versão demoníaca de Nobunaga Oda, uma das maiores figuras da história do Japão. Onimusha: Way of the Sword apresenta uma trama nova com novos personagens, mas sem deixar de lado elementos clássicos que os fãs de longa data da franquia esperam. Se você nunca jogou um título da franquia, este é tecnicamente o quinto jogo da saga samurai, mas não deixe isso te abalar. Ao contrário de God of War (2018), que era uma sequência de todos os outros títulos anteriores que poderia ser apreciada por si só, Way of the Sword não carrega consigo nenhuma bagagem em termos de história.
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O caminho da espada
Na trama, acompanhamos o lendário espadachim Musashi Miyamoto, que em sua busca por se tornar cada vez mais forte acabou sendo atacado pelos Genma e recebeu a Manopla Oni do misterioso Homem de Branco. Agora, mesmo dando o poder necessário para enfrentar os Genma, Musashi não quer a manopla, então ele parte em uma busca para se libertar dela e salvar Quioto, ao mesmo tempo em que desvenda os mistérios por trás dos ataques dos Genma.

Onimusha: Way of the Sword não é um jogo de mundo aberto, mas nem por isso ele é um jogo linear. Enquanto os jogos antigos lembravam de certa forma Resident Evil, Way of the Sword conta com diversas áreas que podemos explorar e um grande mapa principal em Quioto. A cidade foi atacada pelos Genma então há muito miasma cobrindo ela, fazendo com que precisemos prosseguir no jogo, realizar missões e fazer side quests para liberar recursos e áreas no mapa. Mas é claro que o foco do jogo é o combate, e isso o jogo entrega muito bem.

Onimusha não é um hack ‘n’ slash e muito menos um souls like, o jogo tem um combate preciso com excelentes mecânicas de defesa e contra-ataque. Além de ataques leves e fortes, o jogador pode se defender, aparar ou se desviar dos ataques inimigos. Uma reclamação do jogo antes de seu lançamento é que o combate parecia muito fácil contra os inimigos comuns, e que poderia se tornar algo repetitivo, mas é aqui que a Capcom faz o seu maior acerto: as lutas contra chefes.
Way of the Sword é um jogo que brilha mesmo nas lutas contra os chefes, e o jogo tem inúmeros chefes e subchefes que mantém o jogo dinâmico e super divertido. Enquanto contra os inimigos comuns o jogador poderia fazer o que bem entendesse, os chefes são outra história. Eles dão ataques letais e rápidos, exigindo que o jogador domine o sistema de combate do título. Mesmo que a aparada seja uma excelente mecânica, o jogo faz com que o jogador precise usar diferentes formas para se defender de cada ataque. Há golpes que podem ser defendidos ou aparados, já outros golpes apenas podem ser desviados, e também há ataques que exigem que o jogador faça uma aparada perfeita para não receber dano. O jogo não conta com uma barra de estamina, mas conta com uma barra de defesa, que ao ser quebrada permite que o inimigo receba um ataque especial. É como se você tivesse que quebrar a defesa do personagem para que ele receba mais dano.

Além disso, se você jogou outros títulos da série, os issen estão presentes no jogo, onde Musashi realiza um poderosíssimo contra-ataque ao apertar o botão de atacar no momento exato em que vai receber um golpe inimigo. As disputas de poder também continuam presentes, que é quando você e um inimigo se atacam ao mesmo tempo, mas ao contrário dos títulos antigos (que até hoje eu não sei como que fazia pra resolver) aqui você apenas precisa ficar apertando o botão de ataque o mais rápido possível.
O combate do jogo não apenas está muito divertido como também é incrivelmente bem animado. Musashi reage aos ataques em animações muito naturais, se movendo com uma fluidez impecável e reagindo de acordo com as posições dos inimigos e também em relação ao ambiente, tornando as batalhas únicas e memoráveis. Não foram poucas as vezes que eu fiquei impressionado, mesmo durante lutas comuns. Infelizmente o jogo conta com apenas a espada como arma principal pois, ao contrário dos outros jogos, as outras armas só podem ser usadas para realizar os ataques especiais. Foi uma decisão que me incomodou a princípio, mas vendo a complexidade do combate com espada eu entendo o motivo delas serem usadas dessa forma.
Bem mais pra frente no jogo você também desbloqueia o modo Onimusha, onde ao carregar uma barra especial, você pode ativá-la e virar um poderoso guerreiro com golpes muito mais poderosos. Só tem que tomar cuidado porque nesta forma você só pode contra-atacar com os issen, mas é um show-off tão legal que a gente passa um pano aqui.

As missões secundárias são simples, geralmente envolvendo explorarmos um local e enfrentar alguns inimigos ou mesmo investigar algum mistério para algum NPC, mas tudo encaixa super bem dentro da apresentação de Onimusha: Way of the Sword sem ficar exaustivo como um jogo de mundo aberto. Infelizmente o combate contra os inimigos padrões do jogo acabam tornando a experiência um pouco cansativa nessa parte. Embora sejam fáceis no começo, a luta contra os inimigos comuns começam a cansar após um tempo, pois eles não morrem mais com tanta facilidade. Às vezes você só quer atravessar o cenário para explorar mas acaba entrando em uma batalha, é praticamente a mesma sensação que eu tinha quando jogava um J-RPG e queria explorar o cenário mas acabava entrando em um conflito aleatório. Por isso o foco do jogo ser nas batalhas contra os chefes foi uma excelente decisão, e é algo que infelizmente a primeira demo não conseguiu apresentar tão bem.
Com exceção de Quioto, o jogo é mais linear, mas conta com diversas áreas que podem ser revisitadas depois. Cada ambientação traz um clima com identidade própria com uma excelente direção de arte. Assim como nos outros jogos temos áreas que podemos esperar como um laboratório macabro e secreto, áreas infernais e fortalezas dominadas pelos Genma. Way of the Sword, apesar de trazer uma visão moderna com um combate bem mais elaborado, ainda é um Onimusha e todo o cerne da franquia ainda está presente em uma excelente apresentação. O jogo também conta com puzzles que precisamos resolver para prosseguir na trama, mas não é nada muito complicado, igual os outros jogos da franquia.
Jogo Kabuki

Onimusha conta com um elenco de personagens incríveis, baseados em figuras históricas do Japão para contar uma trama fantástica (no sentido de fantasiosa). Desde personagens coadjuvantes até mesmo os monstros que enfrentamos, todos os personagens são incrivelmente carismáticos e únicos.
O próprio Musashi é uma figura muito marcante da cultura japonesa, cuja lenda traz ele como um dos maiores espadachins da história. Musashi é um protagonista incrível, sendo guiado pelo caminho da espada em busca de se tornar mais forte, ele acaba se metendo em diversas situações mas nunca fugindo de seu código moral. Ele luta, ele foge, ele faz caras e bocas mas não está preso a um desejo de vingança nem segue algo como honra. O personagem tampouco é um herói de ação no sentido tradicional, apesar é claro do jogo apresentar ele como uma boa pessoa. Ele pode fazer uma boa ação mas ele não faz de pronto, ele pode ajudar crianças que estão passando fome mas ele reluta em dar seu único alimento para elas. Em uma missão do jogo há uma personagem que está sofrendo abuso do marido, e ele ia ignorar isso mas só decide ajudá-la porque suas companheiras o obrigam. São elementos que tornam o personagem muito mais rico e interessante do que ser apenas um samurai genérico.

Há a questão do personagem usar a imagem de um ator falecido, o lendário Toshiro Mifune (que inclusive já interpretou Musashi Miyamoto nos cinemas). Esta não é nem a primeira vez que o jogo faz algo assim: em Onimusha 2: Samurai’s Destiny, o modelo de Jubei é baseado em Yusaku Matsuda, outro ator que já era falecido na sua época. Eu particularmente não gosto muito dessa prática, ainda mais que isso acaba ofuscando o excelente trabalho dos intérpretes destes personagens, mas é uma questão bem mais complexa que isso, de qualquer forma…
A dublagem do jogo também está excelente (e inclusive melhor que a contrapartida em inglês). Onimusha é uma franquia que, mesmo que por conta das limitações, acabava lembrando muito teatro japonês clássico e os jogos acabavam incorporando isso tanto nos personagens (design, atuação) quanto nos inimigos, que pareciam ter saído diretamente de um Tokusatsu. Nesse sentido, Way of the Sword traz uma apresentação mais sóbria de tudo isso, mesmo com os personagens sendo bem exagerados. A atuação em português conseguiu transparecer todas essas nuances da atuação japonesa de forma que ficou incrivelmente natural em nosso idioma e sem ficar cafona. Os vilões são todos completamente malucos e entregam tudo no máximo, com exageros e outras características marcantes mas que são interpretados de uma forma muito sincera pelos atores brasileiros em uma excelente direção de dublagem.
Minha única ressalva sobre a dublagem brasileira é que, em alguns momentos fora das cutscenes, os atores continuam entregando tudo de si mas a atuação parece não condizer 100% com a cena apresentada. Não sei se isso ocorreu por não terem acesso à algumas cenas de jogabilidade, então é puramente especulação, mas nem de longe é algo que impacta o trabalho de localização do título.
O jogo conta com excelentes personagens. Ono no Takamura aqui é outro Onimusha que ajuda Musashi a entender o que são os Genma e os Oni. O personagem também serve como um “treinador”, já que aqui não temos o Reino Sombrio onde enfrentamos ondas e ondas de inimigos. Aqui, Takamura nos leva a dimensão sombria onde podemos fazer tutoriais de cada movimento e também reenfrentar os chefes, que para o jogo eu achei uma proposta muito perspicaz (e menos cansativa).

A dançarina Izumo no Okuni é uma membro de trupe que está em busca de sua amiga desaparecida e por isso também quer derrotar os Genma. A personagem também é baseada em uma figura histórica mas aqui cheia de floreios trazendo uma nova origem para o teatro kabuki. Ela também é responsável por melhorar as bolsas especiais de Musashi, que podem ser usadas como cura ou também para acelerar as barras especiais.

A Lady Murasaki é outra personagem de certa forma fantasmagórica, também inspirada em uma figura real. Aqui a personagem traz missões onde casos misteriosos estão correndo por Quioto, então Musashi precisa desvendá-los para ajudar em sua busca por uma boa história. Ela também faz com que Musashi tenha que resgatar seus Komainu, e ao fazê-lo ela o brinda com novos visuais para a sua espada. O jogo também conta com visuais alternativos para sua capa e também sua roupa, que podem ser liberados ao realizar certas atividades no jogo, mas elas não dão status especiais, é algo puramente cosmético.

A Oni da manopla é Shizuka Gozen, e se você for familiarizado com cultura japonesa já deve ter ouvido esse nome várias vezes. A personagem está constantemente auxiliando Musashi em sua jornada, de uma forma parecida com Mimir em God of War. Ela tem seus próprios motivos para estar naquela situação incorpórea e aos poucos vamos descobrindo qual o seu papel naquilo tudo, trazendo um conflito de personagem extremamente interessante. Mesmo estando presa na manopla, a personagem não está ali apenas para dar apoio e é tratada como uma personagem de fato, com seus próprios anseios e objetivos. Todos os personagens são tão interligados na trama, aqui eles são de fato tratados como personagens, que é algo que eu sinto falta em uma outra franquia da Capcom…

O Oni pode chorar

Os chefes também são incrivelmente interessantes e carismáticos. Sasaki Ganryu é uma figura lendária e considerada o maior rival de Musashi. O jogo apresenta os dois como rivais em uma luta incessante para ver quem é o melhor espadachim e adiciona uma camada de fantasia que vai tornando seus embates cada vez mais intensos e cinematográficos. Mesmo sendo um motivo simples, o Ganryu é super convincente em sua proposta e atuação, trazendo uma representação icônica desta versão do personagem e um grande rival para Miyamoto.
Dokyo é uma figura interessantíssima e diabólica. Os outros jogos sempre mostravam o quão malignos os Oni eram através de documentos e outras informações, mas Way of the Sword foi o jogo que mais demonstrou isso. Mas mesmo outros bosses são incrivelmente interessantes e divertidos. Logo no começo do jogo enfrentamos Deidara e apesar dele ser apresentado como um grande ogro, quando derrotamos ele diz que “só queria comer almas gostosas”. Todos os bosses tem um excelente tratamento e são muito memoráveis, contando com batalhas criativas e incríveis, não me lembro de outro jogo da Capcom com bossfights tão memoráveis.
Mesmo se tratando de um universo bem fantasioso com monstros mirabolantes, manoplas que absorvem almas e experimentos malucos, Onimusha é apresentado de uma forma tanto sóbria quanto sincera. O jogo é incrivelmente bem detalhado e pode-se notar um carinho maior da Capcom nele. Mesmo comparando com outros jogos de samurai que são mais “realistas” por assim dizer, Onimusha é um jogo muito mais japonês do que eles e percebe-se como a cultura, história e sensibilidades dos japoneses foram representados neste jogo. Sejam as músicas marcantes que até lembram temas famosos como de Ghost in the Shell, com um coral poderosíssimo, o uso de figuras históricas para contar uma história de fantasia ou mesmo a apresentação dos personagens, Onimusha é um título que exala uma paixão profunda por seus criadores.
Conclusão

Onimusha: Way of the Sword é simplesmente um dos melhores jogos já feitos pela Capcom, contando com uma representação fantasiosa porém extremamente sincera da cultura japonesa, um dos melhores sistemas de combate de espada e personagens muito bem construídos. Apesar do jogo se tornar um pouco cansativo em alguns momentos, como nos combates durante as explorações, as batalhas contra os chefes são algumas das mais divertidas da memória recente. Fechado em aproximadamente 30h, completando todas as missões secundárias, Onimusha não apenas marca um retorno triunfal para a franquia, mas a consolida como um dos títulos mais importantes da Capcom para o futuro.
O jogo foi analisado com uma chave digital do PlayStation 5 cedida pela Capcom Brasil.


