Análise – Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno

Esta análise foi escrita por João Alves (REVIL), autor desta publicação, em parceria com Joe Silva do EvilHazard (evilhazard.com.br).

Nos últimos três anos, a franquia Silent Hill sofreu um verdadeiro revival. A Konami promoveu um showcase que deu diversos vislumbres do futuro da série, alguns doces e outros amargos. O que antes era promessa, virou realidade deixando experiências marcantes pelo caminho. Entre os acertos, destacam-se o “curta-jogável” Silent Hill: The Short Message e o excelente remake de Silent Hill 2, frequentemente colocado no mesmo patamar de Resident Evil 2 entre as melhores reimaginações de todos os tempos.

No entanto, nem tudo saiu como esperado. Os tropeços também marcaram esse retorno, com o controverso Silent Hill: Ascension, jogo mobile que frustrou até quem estava mais otimista, e agora com a adaptação cinematográfica da história do segundo título da franquia, que chegou aos cinemas brasileiros sob o nome “Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno”.



Antes de seguir adiante, é importante situar o leitor: para este autor, “Terror em Silent Hill” (2006), primeira adaptação cinematográfica da franquia, figura os meus filmes favoritos. Com uma produção que testa os limites do noir, a adaptação do primeiro jogo acerta em praticamente todos os aspectos.

A decisão de substituir a figura paterna pela materna na condução da narrativa, o alto valor de produção, a priorização de efeitos práticos e de execução física em detrimento do CGI, a escolha do elenco e, sobretudo, aquilo que considero essencial, o fio narrativo, resultam em um roteiro que respeita a essência do jogo, mas encontra um caminho próprio para existir no cinema.

E Terror em Silent Hill conseguiu. Conseguiu tanto que, em diversos aspectos, superou o material original e passou a influenciar, e até a ditar, a identidade visual daquele mundo de podridão, névoa e ferros retorcidos. Ou alguém ousaria dizer que a descamação da realidade rumo ao inferno de Silent Hill não se tornou icônica? Ou melhor, o desfecho final, revertendo as figuras religiosas, reforçando a força feminina, tanto para o bem como para o mal, e nos apresentando uma cena que considero arte: os arames farpados de Alessa. CINEMA!

 

Dito isso, é hora de olhar para Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno, a terceira tentativa de levar a franquia aos cinemas, ignorando deliberadamente o problemático Silent Hill: Revelação. Filme assistido, avaliado e colocado à prova.

Voltamos a Silent Hill

Assisti ao filme em Belo Horizonte, na companhia do amigo Joe, do EvilHazard, que, assim como eu, é apaixonado por cinema e também fã da franquia. Inclusive, esta crítica contará com uma parte dedicada exclusivamente às considerações dele.

A sala estava cheia, um indicativo claro da força que Silent Hill ainda exerce sobre o público. Assisti ao filme dublado, quando eu particularmente gosto mais do original com legendas.

A sinopse oficial apresenta o seguinte: “Quando James recebe uma carta misteriosa de seu amor perdido, Mary, ele é atraído para Silent Hill, uma cidade antes familiar, agora consumida pela escuridão. Durante a busca, James enfrenta criaturas monstruosas e desvenda uma verdade aterrorizante que o levará ao limite da sanidade.”

 

E é justamente aqui que surge o primeiro problema. Uma adaptação que se limita a reproduzir o argumento original não é suficiente para sustentar um filme. Adaptar exige mais do que transpor eventos. É necessário adentrar a essência da obra e construir uma narrativa cinematográfica própria, capaz de traduzir sentimentos, conflitos e símbolos para outra linguagem. Um exemplo claro desse equívoco é a adaptação de Percy Jackson para o cinema, que se apoia exclusivamente no argumento apresentado nos livros, mas falha em desenvolver uma identidade narrativa sólida, deixando a história esvaziada de impacto e personalidade.

E considerando que o diretor de Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno é o mesmo do primeiro filme, Christophe Gans, a surpresa foi inevitável — e profundamente negativa. O que se vê em cena é uma condução preguiçosa e um evidente desleixo com a narrativa apresentada. Sou da opinião de que quem busca uma experiência absolutamente fiel aos jogos deve jogá-los. A natureza de uma adaptação é, justamente, adaptar. O problema é que, neste filme, não há adaptação, mas sim uma sucessão de escolhas equivocadas, soluções tecnicamente frágeis e uma alarmante ausência de impacto dramático. Quase nada remete ao peso emocional do jogo, enquanto quase tudo transmite uma artificialidade que beira a vergonha alheia.

E quando falo de más escolhas, não me refiro apenas ao processo de adaptação, mas ao filme enquanto produto cinematográfico. Regresso para o Inferno falha em construir uma Silent Hill crível, assim como em estabelecer qualquer sensação real de perigo. Tudo soa plástico demais, amador demais, artificial demais. Os figurinos, por exemplo, parecem saídos de uma conferência B de cultura gamer, e os atores não conseguem sustentar atuações minimamente consistentes, resvalando em performances que lembram uma novela dos anos 1990. E, honestamente, é difícil culpá-los: trabalhar com um material desse nível deveria, no mínimo, vir acompanhado de adicional por insalubridade.

ATENÇÃO: SPOILERS

Outro aspecto que me incomodou profundamente foi a decisão de trazer novamente o culto de Silent Hill para esta adaptação. É claro que, para quem conhece os jogos, a história da cidade está ligada a crenças e rituais religiosos de intenções questionáveis. No entanto, aqui essa escolha soa deslocada e desnecessária, especialmente porque o clima sobrenatural já é estabelecido nos primeiros minutos de projeção e, mais ainda, já havia sido plenamente desenvolvido no primeiro filme. Em vez de aprofundar o horror, o recurso apenas dilui sua força dramática, trazendo uma cena confusa que mostra Mary como “oferenda” para o culto em que todos lambem e passam as mãos nela (?!).

Com desleixo narrativo e sem impacto visual, a sequência dirigida por Christophe Gans distorce a natureza de seu protagonista e aprofunda os problemas de uma adaptação mal conduzida

Para piorar essa decisão, o tratamento dado a James compromete um dos elementos mais ricos do jogo original. Aquilo que, no material base, é trabalhado como uma dubiedade moral e psicológica, permitindo ao jogador interpretar o machismo, a repressão sexual e a culpa do personagem, aqui é convertido em vitimização e romance raso. Se, no jogo, as manifestações monstruosas surgem como projeções diretas dos desejos reprimidos e da culpa de James, no filme essa premissa é mal explorada e, em certos momentos, completamente distorcida.

Um exemplo claro disso ocorre quando, no longa, em vez de acolher Mary após a revelação do culto e do mal que lhe foi imposto, James tenta justificar o próprio abandono, como se a responsabilidade por sua fuga fosse dela. Essa inversão é particularmente problemática, pois no jogo a dinâmica é oposta: é James quem deseja partir, mesmo quando Mary necessita de cuidados, e jamais se sugere que a condição dela seja um fardo justificável para sua ausência. Ao alterar esse eixo moral, o filme esvazia a complexidade do personagem e trai um dos pilares emocionais da obra original.

Outra mudança que me incomodou profundamente foi a decisão de esclarecer, ainda no final do segundo ato, que tudo o que acontece em cena é fruto da imaginação doentia de James. Ao fazer isso, o filme esvazia completamente a importância e o impacto de tudo o que se passa em Silent Hill. Se tudo acontece apenas na mente do protagonista, por que o espectador deveria se importar com qualquer outro personagem ou com aquele universo? A revelação não acrescenta camadas à narrativa, apenas retira sentido, suspense e envolvimento emocional. Simplesmente não funciona.

ATENÇÃO: FIM DE SPOILERS

Por fim, à medida que a projeção se aproximava do encerramento, qualquer resquício de esmero na condução do roteiro e da produção também se esvaía. Em determinado momento, surge uma solução narrativa tão desleixada que um sonoro “ah, não” ecoou em coro pela sala de cinema. Na revelação do visual final de Mary, um espectador simplesmente se levantou e foi embora. O que se segue é um desfecho sem pé nem cabeça, tão confuso e mal resolvido quanto a própria adaptação que o antecede, afastando ainda mais o longa da essência dos jogos. Algo que Terror em Silent Hill (2006) soube fazer com precisão em seu final, encerrando a narrativa com coerência, impacto e respeito ao material original.

Considerações – Joe (EvilHazard)

Após o primeiro filme “Terror em Silent Hill” ter feito destacado sucesso nos cinemas e principalmente entre os fãs da franquia de horror da Konami, o diretor Christophe Gans encarou o desafio de adaptar o segundo jogo da série, Silent Hill 2, para as telonas. O desafio era grande, afinal, este é considerado um dos maiores jogos de terror de todos os tempos. Podemos dizer que o diretor tentou, mas infelizmente deixou a desejar nesta sua nova adaptação cinematográfica.

Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno é um filme que pode até agradar o espectador comum, mas erra feio ao tentar adaptar os eventos de Silent Hill 2, o que certamente desagradará uma boa parcela dos fãs do título original do PlayStation 2.

O espectador comum, aquele que não conhece o jogo original e que também não é tão exigente na hora que escolhe um filme para assistir, pode achar interessante todo o enredo que é contado no longa e a forma com que ele é contado. O filme possui boas sequências de suspense e alguns jumpscares que causam efeito, e sua trama pode ser considerada “redondinha” e relativamente fácil de entender, ou seja, é uma trama nada ambiciosa, justamente aquilo que o espectador comum quer apreciar ao buscar se distrair com um filme de terror.

Considerações finais

Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno é terrível, em todos os sentidos. Diante do pontapé promissor da primeira adaptação e do tropeço evidente do segundo filme, era razoável esperar que, nesta terceira tentativa, a franquia encontrasse algum rumo. Não foi o caso. Talvez espectadores sem familiaridade com os jogos até consigam extrair algum prazer da experiência, o que ainda assim parece improvável, já que o filme falha até mesmo enquanto obra independente.

A produção poderia ter aprendido com adaptações de jogos que funcionaram no passado, como Resident Evil: O Hóspede Maldito, Mortal Kombat e o próprio Terror em Silent Hill, ou com exemplos mais recentes e bem-sucedidos, como The Last of Us, Fallout e a trilogia Sonic. Em vez disso, escolhe o pior caminho possível, afastando-se de tudo aquilo que torna Silent Hill uma experiência intensa, perturbadora e verdadeiramente interessante. Uma pena.