Antes de mais nada, é importante dizer que estes temas são polêmicos e geram muitas discussões. Então, ao comentar, respeite para ser respeitado. Ninguém é obrigado a concordar com o ponto de vista do autor do texto ou dos autores dos comentários, mas é importante manter o respeito mesmo na discordância 😉

O preconceito e o sexismo estão extremamente presentes no mundo dos games. Mesmo com a crescente onda liberal no mundo, onde minorias vem ganhando voz e representatividade, nos video games, essas minorias continuam à margem da maioria das grandes histórias, e algumas vezes em que aparecem, são representados de forma superficial, repletos de clichês e totalmente estereotipados; ou muitas vezes colocados como inimigos ou apenas meros figurantes nas tramas.

Algo muito semelhante acontece com personagens femininos, que geralmente aparecem trajando vestes decotadas, justas, além de terem quase sempre curvas voluptuosas e que muitas vezes chamam mais atenção do que as próprias habilidades ou personalidade da personagem em questão. Sim, é possível que existam personagem sexys e sensuais, o problema é quando isso foge totalmente do contexto do personagem e da trama, apresentando-se apenas como um elemento para atrair mais atenção para a situação.

Preconceito racial

Resident Evil já esteve no centro de uma grande discussão sobre preconceito racial no mundo dos games. Quando foram divulgadas as primeiras imagens e videos de Resident Evil 5, título que se passa no continente Africano, víamos Chris Redfield, um protagonista caucasiano, matando hordas de inimigos negros. Imediatamente houve uma reação bastante negativa por parte da crítica, dizendo que o jogo incitava o racismo e a segregação racial por conta desse tipo de ação. As críticas foram tantas que a Capcom tratou de fazer mudanças na trama.

Inicialmente, Barry Burton seria o parceiro de Chris na missão em Kijuju, porém, para acalmar os ânimos e dar uma resposta a críticos que apontavam o jogo como racista, Barry foi retirado da trama e foi inserida Sheva Alomar, agente local da BSAA e negra. Os inimigos também sofreram algumas alterações, houve uma diversificação racial entre eles, o que acabou até ficando um pouco estranho, já que o cenário do jogo – África -, tem predomínio de negros em sua população.

As mudanças apaziguaram a crítica, embora muitos ainda defendam que o jogo tem altas doses de racismo, já que a ideia original colocaria dois homens caucasianos fazendo uma carnificina e matando centenas de negros.

Resident Evil 5 não é um ponto isolado. Basta atentar para os jogos anteriores e notar que até então, praticamente todos os personagens importantes eram de origem caucasiana ou oriental. O mais perto que se chegou de ter etnias diferentes em papéis de destaque, foi com os latinos Enrico Marini em Resident Evil 1 e Resident Evil Ø e Carlos Oliveira em Resident Evil 3; além dos afro-americanos Mark Wilkins e Jim Chapman, da série RE: Outbreak. Ainda assim, papéis de pouco destaque, principalmente se formos pensar que a grande maioria dos jogos da série RE tem como principal localidade os EUA, um país onde a miscigenação é enorme, quase tão grande quanto o preconceito.

Porém, isso infelizmente não acontece somente com a série Resident Evil. Os jogos de video game e a cultura pop em geral, trazem quase sempre caucasianos ou orientais como protagonistas das histórias. Desafio vocês, caros leitores, a citarem 5 jogos de grande sucesso que tenham negros, latinos, indígenas ou árabes/turcos como protagonistas.

Certamente, vocês irão citar a série GTA como exemplo de franquia que tem negros como protagonistas, mas o interessante é notar que estes são na verdade anti-heróis, já que entram no estereótipo do negro ser sempre malandro, andar a margem da lei e usar de artifícios criminosos para conseguir seus objetivos. Também encontramos personagens indígenas, como em Turok e Assassin’s Creed 3, mas é interessante notar que estes são jogos com temáticas indígenas, e dificilmente encontraremos um protagonista negro/latino que esteja distante da temática criminosa, ou um protagonista indígena que não seja um “índio fodão que destrói os branquelos que invadiram/destruiram seu território/tribo”.

No fundo, o que mais temos nos games e na cultura pop em geral, são personagens que representam um estereótipo étnico/racial, sem muitas margens para a real construção de personalidades plausíveis, tornando-os, quase sempre, ícones heroicos, que não tem muita empatia para com o jogador, já que representam apenas uma projeção idealizada do que gostaríamos de ser, e quase nunca aquilo que realmente podemos ser.

Homofobia

Recentemente, um dos roteiristas de Resident Evil: Operation Raccoon City veio a público declarar que Dee-Ay, o líder do esquadrão Echo Six da Spec Ops é gay. A reação do público, infelizmente, só mostrou o quão preconceituosa é a comunidade gamer e a fanbase de Resident Evil. Foram comuns comentários como: “não jogo mais com ele”; “e pensar que antes o Dee-Ay era meu preferido”; “ele era um personagem tão bom antes disso”… a pergunta que fica é: o que mudou no fato da sexualidade de um personagem ter sido revelada como homossexual? Dee-Ay continua sendo o líder do Echo Six, continua tendo algumas das habilidades mais úteis do jogo, e pensando na história, continua sendo tão competente como sempre foi. Ninguém é obrigado a ter atração ou gostar de homossexuais, mas há de se respeitar sempre, principalmente as habilidades profissionais do ser. Isso não vale apenas para personagens de video game, filmes ou qualquer produto da cultura pop, mas para o convívio em sociedade.

REORC é um jogo onde escolhemos os personagens por causa de suas habilidades especiais, e assim deveria ser não importando a orientação sexual que os roteiristas resolveram dar a qualquer um dos personagens. A verdade é que, assim como na vida real, a orientação sexual de cada um pouco importa na hora de se executar uma tarefa/missão. Desde que o escolhido tenha habilidades, capacidades e competências necessárias para cumprir com o que é preciso, pouco deveria importar o que o personagem/indivíduo faz entre quatro paredes.

A escolha de Dee-Ay como personagem gay de Resident Evil é uma estratégia bastante inteligente. Ele é um personagem pouco importante, de um dos jogos mais criticados da franquia, se a aceitação do público perante essa revelação fosse boa, a empresa com certeza iria explorar isso em novos jogos ou até revelando que personagens mais antigos são homossexuais. A não aceitação acaba não trazendo grandes prejuízos, já que como citado, Dee-Ay é um personagem de pouca importância e em um título mal aceito.

Dee Ay Wallpaper

Em uma época onde a franquia RE está “estremecida”, utilizar um personagem como Chris para essa revelação seria perigoso, porém não menos inteligente e contextual. Dentro das forças armadas e de grupos de combate a terrorismo, é bastante comum a presença de soldados homossexuais. Isso é um fato, e não seria de se surpreender que personagens como Chris ou Piers fossem revelados como homossexuais, embora isso pudesse causar um impacto bem mais negativo do que colocar o quase insignificante Dee-Ay nessa situação. A verdade é que, com tantos personagens masculinos, sejam eles ligados a alguma organização, órgão militar ou civil, é estranho que apenas Dee-Ay seja homossexual. Será que alguns outros ainda estão “dentro do armário”? Ou será que isso também é uma forma de tentar não arranhar a imagem do jogo, poupando personagens importantes como Chris? Aliás, se Chris fosse revelado como sendo homossexual, os seus feitos, sua coragem, sua competência e o fato de ter salvo o mundo da loucura de Wesker seriam colocados em segundo plano pelos fãs, ou ele seria bem aceito, considerando que sua competência e capacidade independe totalmente de sua sexualidade.

Indo um pouco além, uma questão importante a ser levantada é que existe um mix de homofobia e machismo, ou será que se existisse um casal de lésbicas “se pegando” nos jogos, a polêmica em torno disso seria tão grande quanto a de personagens masculinos gays.

A homofobia também é grande em cima de personagens como Leon e Steve Burnside. E aqui temos mais um ponto que mostra o quão “quadrada” é a cabeça de boa parte dos fãs de games. Taxam Leon de homossexual, por conta de seu visual: cabelo liso e penteado, roupas “fashion” e um pouco de falta de atitude quando se trata de Ada Wong, mas é apenas uma questão de raciocínio: se ele fosse gay, seria plausível que ele SE INTERESSASSE por Ada? Definitivamente não. Até mesmo Steve Burnside, que passa metade de RECV olhando Claire com malícia é taxado de gay por ter voz mais fina e assim como Leon, ter um cabelo liso. Mas esse preconceito, principalmente com Leon, acontece apenas no ocidente, já que no Japão, homens de cabelo liso e traços mais finos são considerados os “musos”. A cultura ocidental e principalmente a latino-americana, tem por hábito pré-julgar qualquer homem que tenha essas características de Leon.

Depois de tudo que foi dito, a questão que fica é a mesma que foi repetida algumas vezes nesse capítulo sobre homofobia: a opção sexual de um personagem ou de uma pessoa real, altera, diminui ou muda suas qualificações para executar seus trabalhos, missões e afazeres?

Sexismo e apelo sexual

Personagens femininas com vestes decotadas, justas, com curvas voluptuosas e quase sempre com habilidades inferior aos personagens masculinos, essa é uma tônica do mundo dos games, mas felizmente, em Resident Evil isso não está tão exposto e evidente como em outros jogos, embora esteja presente.

sexista

As mulheres sempre estiveram em condições de igualdade com os homens nos jogos da série Resident Evil, tanto nas habilidades quanto no protagonismo das histórias. Nomes importantes como Jill Valentine, Ada Wong, Claire Redfield, Rebecca Chambers, Alexia Ashford, Sheva Alomar e mais recentemente Sherry Birkin, Helena Harper, Jessica Sherawat, além das personagens de REORC e RE: Outbreak são apresentadas na série em (quase) igualdade de condições com os homens ou então com habilidades exclusivas.

Durante anos, Resident Evil foi uma franquia com baixo apelo sexual de suas personagens femininas. Isso ficava restrito a sensualidade de Ada Wong, ou a comentários de Steve sobre os “atributos” de Claire, mas no mais, não era comum vermos as mulheres de RE com roupas megadecotadas e justas, isso até Resident Evil 5, onde Jill Valentine ganhou contornos extremamente sensuais e um decote pra lá de generoso, além é claro, de Excella Gionne, em seus trajes nada comportados, ainda mais se tratando de uma alta executiva de uma compania farmacêutica. Muitos podem dizer que em RE4 já havia uma conotação mais sexual na trama, por conta de Ada Wong e seu vestido com fenda até a cintura, totalmente desnecessário em uma espiã infiltrando uma área e também por conta de Ashley, já que em diversos momentos é possível ver a calcinha da filha do presidente. Embora isso seja verdade e, foi a partir de Resident Evil 5 com a battlesuit de Jill e a roupa nada conservadora de Excella que a coisa toda começou a ficar mais explícita. A vilã aliás, se vale de seus dotes físicos e tenta seduzir Albert Wesker diversas vezes durante o jogo, mas tratando-se de um homem como Wesker, dificilmente ele cairia em um joguinho como o de Excella, cedendo a algum impulso carnal. Embora Resident Evil 5 não seja o precursor da sensualidade na franquia RE, foi a partir dele que a sexualidade começou a ser explorada de forma mais evidente e principalmente: de forma menos ingênua.

A partir daí, foi aquela história: passa boi, passa boiada. Resident Evil: Revelations trouxe elementos extremamente desnecessários, como Rachael Foley, com roupas que deixam praticamente expostos os seios da personagem, o machismo é tanto que a personagem nem tem rosto; é como se fosse desnecessário que ela tenha uma cara, já que possui enormes seios quase totalmente a mostra; Jessica Sherawat com uma sensualidade que chega a ser forçada, especialmente com seu maiô de uma perna só.

Resident Evil 6 seguiu a mesma linha: Carla Radames abusa do decote e da fenda na perna em seu vestido… e isso tudo na neve. Sherry Birkin também é alvo de sensualização, apesar que o momento em que ela é mostrada trocando de roupas junto de Jake, a cena é usada para criar um clima de paixão quase adolescente entre os dois, e justamente esse é um bom exemplo de como a sensualização de um personagem pode ser usada de maneira construtiva e não apenas para objetificar uma mulher.

Mas sem dúvidas o maior destaque negativo de RE6 fica por conta de Deborah Harper, que além de estar nua após a sua transformação pelo C-Vírus, constantemente acaricia os próprios seios durante a batalha. A pergunta que fica é: realmente havia necessidade disso?

Mas a balança não tende só pra um lado, afinal, depois de RE: The Umbrella Chronicles, vemos Chris Redfield se tornar praticamente um “gogo boy”, tornando-o uma espécie de símbolo sexual de RE para as mulheres e também para alguns homossexuais, apesar de sua enorme quantidade de músculos ter uma explicação “plausível” (Chris passou a treinar e a se exercitar para que em seu próximo encontro com Wesker, ele não levasse uma outra surra, como aconteceu em RECV). O que NÃO TEM explicação são as roupas extras dele em jogos como RE5 e RE: Revelations (vide Chris Warrior e a roupa de marinheiro), que mais parecem ter vindo direto das fantasias sexuais de alguém.

Há ainda um outro ponto que não exatamente está ligado ao sexismo, mas é algo que atinge os homens. Se por um lado temos inúmeros jogos com visões sexualizadas das mulheres, diminuindo suas capacidades em detrimento de seus atributos físicos, do outro temos personagens masculinos como Chris e Leon, que são bonitões e além disso executam uma série de tarefas heróicas e tem atitudes altruístas em quase todos os momentos. Isso acaba afetando alguns homens que observam personagens com características tão positivas e essa idealização do “herói” tornam impossível que qualquer homem consiga alcançar ou se equiparar.

Aqui você pode apontar o outro lado da balança. Eu não acho que o objetivo seja sensualizar o Chris, mas todas as coisas fodas que ele e Leon fazem mostram um lado do machismo que ricocheteia no homem: como um cara se sente ao ver um personagem que supera todas as expectativas, é bonito, forte, inteligente, faz coisas impossíveis, salva a donzela e ainda por cima tem aquele sex appeal? Ao mesmo tempo que a visão sexualizada das personagens femininas diminui as mulheres, a idealização dos heróis frustra os homens que acompanham os jogos ou outras coisas da cultura pop. É meio que a versão capa de revista cheia de photoshop sem celulite e gordurinhas que deprime as mulheres na TPM, só que para os homens.

Apesar desses pontos, Resident Evil ainda é um jogo que não se mostra tão sexista, já que como citado, coloca as mulheres em certa igualdade de condições com os homens no que se refere às habilidades. A exploração de sensualidade e de elementos sexuais na série começou faz pouco tempo e comparado com outros jogos, está apenas engatinhando, e se apresentava até de forma um pouco ingênua, embora tenha se tornado um pouco explícita de alguns anos para cá. Vale lembrar, que por exemplo, nos títulos mais antigos, especialmente na trilogia clássica, não havia exploração da sensualidade/sexualidade de forma tão gritante e quando ela era usada, era sempre aliando a sensualidade a habilidades que iam muito além de apenas “um rostinho bonito”.

Talvez os grandes vilões nesse ponto sejam os jogos de luta. Praticamente todos os jogos desse gênero tem em seu elenco personagens femininas que lutam semi-nuas e exploram ao máximo a sua sensualidade, tornando-a bastante explícita e quase sempre desnecessária. Muitos jogos de RPG e MMORPG, assim como os de luta, também se fazem valer desse artifício com bastante exagero, afinal, qual fã de RPG ou de jogos de luta que nunca se deparou com algo semelhante a imagem abaixo:

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Jogos podem muito bem fazer uso de sensualidade de personagens, tanto masculinos quanto femininos. Na nosso atual cenário contemporâneo, a sensualidade e sexualidade estão enraizados no nosso meio de convívio e em quase todo tipo de cultura que consumimos tem algum apelo desse tipo, seja ele implícito ou explícito. Muitas vezes não há uma real necessidade dessa sensualização e ela é usada apenas como uma forma de chamar mais atenção e alavancar divulgação e vendas de algum produto. É justamente esse o ponto a ser questionado, bem como a constante objetificação das mulheres.

Justamente esse tipo de objetificação da mulher, nos faz ter uma ideia errada do sexo feminino em diversos pontos, inclusive impondo esteriótipos de beleza que são impossíveis de serem seguidos, bem como criando uma imagem irrealista do que as mulheres realmente são, levando em conta que em grande parte das vezes, só atributos físicos e sensuais são levados em conta, deixando de lado personalidade, inteligência e habilidades.

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O artigo reflete a opinião do autor do texto, e não do site REVIL.

Nota do Autor

O texto mais difícil que já escrevi pro REVIL, e talvez o mais importante deles. Sei que é um tema cheio de tabus e de polêmicas, não só no mundo dos games mas também no convívio social.

Acredito que muita gente pode não concordar com os pontos abordados e principalmente com a minha opinião de uma forma geral, mas a idéia aqui não foi desmitificar e nem impor o meu ponto de vista sobre preconceito, sexismo e sexualidade nos games, e nem apontar o dedo na direção de uma franquia ou gênero de games julgando-os errados pura e simplesmente.

A intenção foi inserir um debate sobre esses temas tão polêmicos em um cenário que ultrapassa as telas e os consoles e cai direto no nosso dia-a-dia, quebrando um pouco os paradigmas de forma a tentar abrir um pouco a cabeça da galera pra esse tipo de problema que está tão presente na vida de praticamente todo mundo.

Créditos

Escrito por: André Ceraldi (Ceraldi)
Colaboração: Bruna Mattos (Yuna) e Lucas Duarte (Ricky)
Data de publicação: 13/05/2014

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