Finalmente chegou! Resident Evil 7: Biohazard – ou Biohazard 7: Resident Evil – finalmente está entre nós; para a alegria de uns e a infelicidade de muitos outros. “Oi, infelicidade, como assim”? Então… Não é nenhum segredo que sempre após o anúncio de um novo game da saga Resident Evil forma-se uma enorme expectativa em torno do título, não só pelo peso que o nome carrega (afinal, Resident Evil é uma das franquias mais bem sucedidas do mundo dos games), mas também para saber como o jogo será.

Eu digo “como o game será” de forma abrangente, por que desde Resident Evil 4 – lá atrás em 2005 – os fãs ficam se perguntando: “quando a saga finalmente irá retornar aos moldes que a própria estabeleceu” (ainda mais lá atrás, em 1996 com Resident Evil para PlayStation), o terror? E não é uma pergunta infundada, por que desde o lançamento de Resident Evil 4 (mesmo com seu sucesso estrondoso) a empresa responsável pelo jogo, nossa querida Capcom, constantemente promete um retorno maior dos elementos de horror para a franquia, justamente pela crise de identidade causada pelo lançamento do quarto capítulo da série. Promessa essa que mais de uma vez acabou se provando falsa com os lançamentos de Resident Evil 5 e, mais recentemente, Resident Evil 6 – que, contrariando todas as expectativas, mostraram-se verdadeiros títulos de ação quase que desenfreada.

Ame Resident Evil 4, 5 ou 6 – ou os odeie – eles foram um marco na série tanto por apresentar uma nova jogabilidade quanto por trazer novos fãs à série (e também afastar muitos dos antigos!). Apesar de escolhas extremamente duvidosas com relação à trama (anões piratas com planos impráticos, a “morte” de personagens importantes off-screen e filhos e clones de personagens queridos da série), não há como negar que Resident Evil não foi feito para ser levado realmente à sério (com alguns capítulos mais “cômicos” que outros – sanduíche de Jill, alguém?), mas algo que realmente foi saindo de mão foram os vilões: sempre super poderosos, megalomaníacos e elaborados, acabaram fazendo com que nossos queridos personagens principais fossem evoluindo de uma forma exponencial tão grande para que pudessem acompanhar esses antagonistas, que acabamos com histórias praticamente saídas de páginas de animes e mangás (literalmente – Revelations 2) e com heróis que se tornaram verdadeiros X-Men (Sherry e Jake sendo os mais notáveis – mais Jake que Sherry, ouso dizer), algo que era totalmente destoante da “vibe” de filme de terror B que tínhamos até Resident Evil CODE: Veronica. A mudança de jogabilidade a partir de Resident Evil 4, também foi uma forma de incorporar essa evolução dos próprios protagonistas.

Tá, mas o que tudo isso tem a ver com o título do artigo”? Pois é, acabei me alongando, mas na verdade, isso tudo tem muito a ver e vai me ajudar a firmar alguns pontos importantes ao longo do texto. Como vocês bem sabem (ou se não sabiam, sabem agora, graças à essa longa introdução, rs) Resident Evil foi basicamente definido por duas fases: a fase clássica; com protagonistas semi-capazes, começando (cronologicamente) com Resident Evil Zero e terminando em Resident Evil CODE: Veronica; E a fase atual, com protagonistas capazes e desenvolvidos, começando em Resident Evil 4 e terminando em Resident Evil 6. Essas duas fases – como eu já disse – possuem modos bem diferentes de jogabilidade e também diferem no modo como contam e apresentam suas histórias. O que nos leva à pergunta, “se tem tanto jogo diferente chamado Resident Evil, afinal, O QUE É RESIDENT EVIL?”.

Resident Evil é um TPS (third-person shooter) superdivertido de se jogar sozinho ou com os amigos e Resident Evil também é um survival horror em terceira pessoa super-atmosférico e desafiador – depende de pra quem você pergunta, mas nenhuma das duas respostas está errada, por que Resident Evil é sim as duas coisas. Ah sim, mas vocês devem ter notado uma palavrinha ali no meio das descrições que todos os títulos de Resident Evil têm em comum (não estou considerando spin-off – depois eu entro nesse mérito): third-person; terceira pessoa. E aí está a tal fonte PRINCIPAL da infelicidade da maioria dos fãs com o anúncio do tão aguardado Resident Evil 7: ele é em primeira pessoa. Todo. E. Exclusivamente. Em primeira pessoa. Seria a mesma insatisfação que um fã teria ao ver o novo Battlefield sendo anunciado em terceira pessoa, ou se Uncharted 4 fosse todo a partir dos olhos do Drake ou mesmo se Halo virasse um TPS, não é mesmo? Hmmm… Mais ou menos. Na verdade, mais pra menos e vamos tentar entender o por que.

Definindo Resident Evil 7

Já sabemos e definimos que Resident Evil é basicamente “um jogo em terceira pessoa com pessoas enfrentando criaturas mutantes graças aos experimentos de diversos cientistas malucos e que, dependendo do episódio que você escolher para jogar, ele terá uma vibe mais de terror B ou uma vibe mais de anime ação”. Tá. Mas e Resident Evil 7, como o definimos depois de tudo o que foi apresentado, “como ele pode ser um Resident Evil”? Bem, vamos por partes.

Primeiro que Resident Evil 7 entra na categoria de terror B (check!) e segundo que enfrentaremos criaturas mutantes de cientistas malucos mais uma vez (check!). Só que agora tem uma pegadinha – ele quebra um dos principais diferenciais (e padrões) que a saga tinha com relação à outros Survival Horror no mercado atual: a perspectiva. Temos agora, ao invés de um jogo em terceira pessoa, um jogo em primeira pessoa, mas que – veja bem – segue perfeitamente o molde do que Resident Evil é. Você mudar o aspecto “terceira pessoa” para “primeira pessoa” é de menor relevância do que se você mudasse, por exemplo, o aspecto “enfrentar criaturas mutantes de experimentos malucos” para “enfrentar fantasmas com uma câmera fotográfica” (sdds Fatal Frame). Aí sim, não teríamos um Resident Evil. Ou seja, Resident Evil 7 AINDA é Resident Evil em essência, com um porém… Dito isso, apenas para reforçar o ponto, pense: Resident Evil Gun Survivor, Dead Aim e Umbrella/ Darkside Chronicles NÃO são “menos” Resident Evil por serem em primeira pessoa, não acha?

Apesar dos títulos acima serem spin-offs e possuírem uma relevância menor no quadro geral do que é a saga e como ela caminha, eles ainda são sim títulos da franquia e que contém a identidade (e a continuidade) dela como um todo. “Então por que simplesmente não fazer de Resident Evil 7 um spin-off como os outros games em primeira pessoa“? Bom, essa é a pergunta de um milhão de reais (sdds Show do Milhão). Nós mesmos dentro da equipe REVIL nos perguntamos isso, mas tudo se resume ao fato de que a Capcom estava achando que a saga precisava de algo novo (veja bem, novo para a saga – já está cheio de jogo assim no mercado) e decidiu arriscar as fichas no terror em primeira pessoa que tantos outros jogos estavam fazendo e tendo relativo sucesso, mas mais especificamente mergulhar em algo “novo” (sim, já existem jogos assim também, mas de pouca expressão) – o VR (vale refeição realidade virtual). Se isso vai se provar um erro ou um acerto, só o tempo vai provar, mas só o fato da Capcom estar se mostrando disposta a arriscar e tentar coisas novas já deveria animar muita gente (eu sei que me anima)! Principalmente considerando os rumos que tudo estava tomando.

Sim, eu sei que esse “porém” do jogo ser em primeira pessoa é muito importante para muita gente. Eu confesso que é muito importante para mim também, mas eu sou daqueles que se importa mais com a qualidade de um game do que com a perspectiva da câmera. E, na verdade, essa deveria ser a sua maior preocupação também. E sim, Resident Evil vai conseguir sobreviver independente do sucesso desse jogo, mas talvez não sobreviva como um jogo de terror caso esse se prove um fracasso, seja em primeira ou terceira pessoa.

Os prós e contras da câmera em primeira pessoa

Vamos tentar olhar de uma forma objetiva o que Resident Evil perde e o que ele ganha com essa alteração de perspectiva. Sim, você não vai poder ver as costas do personagem, mas vamos falar de coisas menos óbvias… Além da superfície…

Jogos em primeira pessoa possuem uma maior facilidade em inserir o jogador em determinado ambiente ou situação, por que você literalmente “encarna” o personagem. Isso é particularmente verdade quando levamos em consideração que Resident Evil 7 planeja vender o VR. Terceira pessoa se torna uma perspectiva difícil (quiçá impossível) de fazer uso da realidade virtual de forma eficiente. Essa seria a resposta mais sincera que a Capcom poderia dar para a sua decisão de mudança de perspectiva (até por que toda a sua nova engine, a RE ENGINE, foi trabalhada para o VR). Quando eles dizem que era pra dar um “up no terror” esqueça! Muito provavelmente isso foi uma decisão que surgiu antes de qualquer outra escolha de design (ainda mais vindo da dona Capcom mercenária). Não sei como aconteceu o processo todo, mas aposto que várias pessoas deram e fizeram demos do que eles acreditavam que seria o caminho ideal para Resident Evil e essa foi a ideia que os produtores em sua maioria falaram que era o a ser seguido.

Rebobinando um pouco a fita, “jogos em primeira pessoa possuem uma maior facilidade em inserir o jogador em determinado ambiente ou situação”. Veja – facilidade é uma palavra chave. Jogos em terceira pessoa também conseguem inserir o jogador em seu ambiente, mas isso se torna um pouco mais difícil por que requer uma identificação maior com o personagem (quanto marmanjão deixa de escolher a mulher no jogo de luta por que ele “não é mulher”?), mas no momento que se cria esse elo, ele pode ser tão ou mais eficiente do que um jogo em primeira pessoa, por que você não só vê aquele personagem como uma extensão de você (quanta gente não fala “morri” ao invés de “morreu” ou “perdi” quando seu personagem morre, rs. Isso já é uma forma – sutil – de se inserir e se identificar) você passa a torcer para que tudo dê certo para ele, você quer que ele chegue até o fim de sua jornada.

Outra vantagem da primeira pessoa é o foco e o realismo. Isso depende muito do jogo é claro, mas jogos em primeira pessoa costumam possuir um jeito diferente de narrar suas histórias, apresentando tudo através de personagens secundários (uma vez que o protagonista é apenas uma extensão do jogador) com diálogos e sem cutscenes, tudo em tempo real e de forma mais dinâmica, mais ao ponto e mais “realista”. Esses personagens secundários por sua vez acabam se tornando a pessoa com quem criamos mais empatia durante o jogo (ao invés do protagonista) e a face que mais associamos à ele, e isso acaba suprindo em parte aquela necessidade de um elo maior que é mais facilmente obtido em um game em terceira pessoa. Um bom exemplo disso são as Little Sisters em Bioshock, Elizabeth em Bioshock Infinite, Alyx em Half-Life, Cortana em Halo, entre outros. Isso não quer dizer que jogos em primeira pessoa não tenham protagonistas com rostos e personalidades famosas, mas eles são mais escassos tal como Duke Nukem, os protagonistas de Left 4 Dead e Faith de Mirror’s Edge, e isso se dá em sua maior parte por que estes em questão (diferente da grande maioria) são fortes componentes na campanha de marketing e vivem falando o tempo inteiro ao longo do game ao ponto de ser impossível ignorá-los (o que acho que não será o caso com Resident Evil 7, feliz ou infelizmente, para manter a quietude do ambiente).

Opa. Quase pulei esse ponto, e é crucial! Primeira pessoa também possui uma imersão sonora fantástica, especialmente se você possuir headphones ou um sistema surround sound. Você ouve tudo em detalhes e com a impressão de que está realmente acontecendo à sua volta, em contraste do “ouvi alguma coisa em algum lugar do cenário” no caso de um jogo em terceira pessoa.

Já a vantagem final da terceira pessoa é uma liberdade maior de movimentação do personagem pois você consegue observar e ter noção do seu personagem e do espaço à sua volta como um todo. O sistema de combate pode ser mais fluido e bem elaborado, assim como N possibilidades de investigação e interação com o ambiente de maneiras diversas, com botões mais intuitivos. Primeira pessoa também pode fazer isso? Pode, só é mais difícil. Na terceira pessoa, como você observa e tem noção do personagem e o seu arredor, você acaba vendo as reações dele à tudo e também acaba convivendo com aquele personagem, ou seja – além do elo já mencionado – o personagem alcança um status de ícone (especialmente no visual) de forma simples: apenas por jogar o jogo. Quem aqui lendo isso não reconheceria qualquer um dos personagens de Resident Evil em qualquer circunstância? Mas quem aqui conhece o protagonista de Outlast de cabeça? Não muitos.

Para finalizar, em ponto de vista técnico e financeiro, primeira pessoa também é uma opção atraente, costumeiramente escolhida por empresas indies por não necessitar de “motion capture” (captura de movimentos) e nem mesmo “face capture” (captura facial) para os protagonistas. Falando por esse lado monetário, é um movimento bom para a Capcom na situação atual da empresa (que tá meio falida, né gente), investindo num game de qualidade mas mais barato, para eventualmente poder explorar novos caminhos em um possível Resident Evil terceira pessoa, por que não?

Resident Evil 7 em primeira pessoa

Gente, calma.

Respira.

Não é o fim do mundo.

Eu sou um dos primeiro à falar que “sim, não é o ideal”, eu concordo inteiramente com vocês, mas não está tudo perdido. Como eu disse antes, a qualidade do jogo é o mais importante aqui. É melhor jogar um jogo em primeira pessoa que você nunca vai esquecer e vai ter um enorme apreço do que um jogo em terceira pessoa que você vai jogar e vai falar “é, até que é divertido” e nunca mais vai tocar nele de novo (oi RE6), não acha?

Espero que eu tenha conseguido convencer alguns de vocês dos pontos positivos do VR e da primeira pessoa, não só para Resident Evil, mas para outros jogos também!

Nada impede que tenhamos os personagens antigos de volta. Nós podemos ter um protagonista novo em Resident Evil 7, sim, mas ainda podemos ter – sei lá, a Claire ou a Rebecca (que tanto pediram no Livecast mais recente, rs) como uma personagem secundária que nos guie e nos ajude durante o jogo como Alyx fez para Gordon Freeman em Half-Life (e se tornou uma das melhores personagens já criadas), ou mesmo a Elizabeth de Bioshock Infinite! Nada impede que tenhamos um bom sistema de combate, ou uma boa história. Nada impede que esse jogo seja fantástico! Mas para ele poder ser tudo o que ele pode ser você precisa aceitar ele primeiro. Se depois de aceitar que ele é primeira pessoa e não esquentar mais tanto para isso, se ainda assim você tiver problemas com o jogo, aí é um mérito todo seu, mas não podemos culpar algo ou alguém pelo o que ele não é, e Resident Evil 7 não é um jogo em terceira pessoa. Você pode achá-lo lento, chato, mais do mesmo, mas ser primeira pessoa não é o que o torna ruim. Então se é só isso que o assusta, irrita, te deixa bravo pra cacete, tente relevar por um tempo e veja se você pode curtir o jogo além disso. Se você gosta do enredo, da história, da atmosfera, dos personagens, do combate… Analise tudo. Não se bloqueie por um detalhe – IMPORTANTE – mas um detalhe.

Apenas se permitam, gente. Até lá, por que vocês não jogam mais da demo e se aventuram com outros jogos de terror em primeira pessoa para dar uma aquecida? Eu recomendo muito Alien Isolation (tá em promoção na PSN!), onde a personagem é um meio termo de indefesa e capaz, que acredito que vai ser bem a vibe que Resident Evil 7 vai buscar. É um jogo muito excelente (apesar de ser primeira pessoa)!

Resident Evil VII: Biohazard será lançado para PlayStation 4, PlayStation VR, Xbox One e PC em 24 de Janeiro de 2017. Para mais novidades é só ficar ligado aqui no REVIL.

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