Sabe quando é o seu aniversário, e você se reúne com familiares e amigos, e aquela sua tia te dá um pacote de meia? Daquelas horríveis, que sobem até a o meio da canela e que você acaba jogando em alguma gaveta? Quem dá um presente desses nunca faz na pior das intenções, e é isso que você avalia antes de jogar o pacote de meia na cara da pessoa e dizer que aquilo não se dá de aniversário para ninguém.

Existem também aqueles presentes que não tem nada a ver com você, como quando alguém”básico” recebe uma roupa chamativa e você se pergunta se aquela pessoa realmente te conhece, sabe os seus gostos e o que ela tinha na cabeça quando resolveu comprar aquele negócio que você, definitivamente, JAMAIS usaria.

Quando eu olho para Umbrella Corps, eu me sinto nas situações acima.

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Os 20 anos de Resident Evil representam um marco na série. Dá para contar nos dedos quantas séries de games se mantiveram relevantes durante tantos anos. Ainda que Resident Evil esteja tropeçando, não dá para dizer que perdeu completamente sua relevância. Dos 10 jogos mais vendidos da Capcom, 4 são REs, sendo que os dois primeiros são Resident Evil 5 e Resident Evil 6. Então, por mais que muita gente ache que o “rosto” da Capcom no mercado seja Street Fighter, as vendas e o público dizem que é Resident Evil.

Além de estar aí há 20 anos, Resident Evil tem uma imensa base de fãs. É praticamente impossível não ir a algum evento geek ou de games e não encontrar uma pessoa que seja usando uma camiseta da série, cosplays, etc. Só o REVIL tem 200 mil acessos mensais e 400 mil curtidas na página no Facebook. Considerando que 95% desses números representam usuários brasileiros apenas, tentem imaginar o tamanho desse público no mundo inteiro. Resident Evil tem uma base de fãs presente, engajada e que, mesmo descontente muitas vezes, não abandona a série. É uma relação quase matrimonial, na saúde e na doença.

Sem dúvidas, a melhor forma de comemorar os 20 anos de Resident Evil é ao lado dos fãs. A Capcom merece todo o respeito pelo trabalho desempenhado, mas esse é o momento de agradecer e estar junto de quem admira a série – da mesma forma que você deseja estar com quem você ama durante o seu aniversário. Considerando tudo isso, havia um monte de especulações para 2016: qual comemoração especial a Capcom estaria planejando para uma data tão importante?

E aí, no melhor estilo “a gente faz aniversário, mas quem ganha o presente é você” (justo!) e como a sua tia sem noção e aquela pessoa que vai no seu aniversário de gaiato e parece não te conhecer, a Capcom embrulhou e colocou um laçarote em cima desse imenso pacotão de meias chamado Umbrella Corps.

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Resident Evil é uma série que nasceu praticamente definindo o gênero survival horror, que imortalizou mecânicas de gameplay, criou personagens inesquecíveis, diálogos memoráveis… que passou por momentos de transição um tanto instáveis, mas que também deixaram marcas. A franquia se tornou um ícone da cultura pop e vai comemorar seu aniversário com algo que reflete absolutamente NADA do que a série representa ou representou durante toda a sua existência.

Umbrella Corps é um jogo de tiro em terceira pessoa, baseado em competições online com vários jogadores. A coisa mais próxima disso em toda a história da série é Resident Evil Operation Raccoon City que: a) foi lançado com a premissa de ser um jogo “diferente”; b) não é, nem de longe, um dos melhores títulos da franquia; c) não é, nem de longe, um dos títulos mais populares da franquia. Seguindo essa lógica a gente poderia estar comemorando os 20 anos de Resident Evil com os personagens disputando corridas de kart, Candy Crush, ou torneios de artes marciais.

O anúncio de Umbrella Corps, por si, já seria motivo para contrassenso. Impossível negar que Umbrella Corps é um jogo de tiro extremamente genérico e sem identidade. Nenhuma das atrações anunciadas como diferenciais são realmente diferenciais. Não sou muito antenada com jogos de tiro, mas eu não me lembro de ver alguma empresa destacando algo como “olhem só o nosso sistema de cobertura, que coisa inédita, você nunca viu isso em um game de tiro antes!”, ou “a grande inspiração são os jogos de arena estilo paintball, muito populares no Japão”. Sério, Capcom? Era melhor enfiar todo mundo no busão e ir brincar de paintball de verdade, com hematomas e tudo.

Alguém pode alegar que Umbrella Corps é uma tentativa de ampliar o público de Resident Evil e tornar a série interessante para outras pessoas que não sejam o público cativo da série. Certamente é, e não há nada de negativo nisso. Eu só não acredito que o aniversário de 20 anos de uma franquia seja o momento para tentar agradar pessoas que não são o público cativo da série. Sabe, não é essa galera que ajudou a tornar Resident Evil tão popular ao longo desses 20 anos. Além do mais, como atrair pessoas que jogam games como Call of Duty e Battlefield oferecendo um jogo de tiro totalmente genérico? O que Umbrella Corps tem que todos os shooters não tenham, além de alguns zumbis espalhados pelo cenário que mal interagem com os jogadores? Pelo menos em Left 4 Dead eles servem para alguma coisa…

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Pessoalmente falando, essa é a primeira vez em que eu não somente estou completamente desinteressada em comprar um título da série, como estou me recusando a gastar qualquer centavo que seja com um Resident Evil. Ah, e não me venha com esse papo de “não tem Resident Evil no nome, porque você tá reclamando?”. Umbrella Corps tem o selo de comemoração dos 20 anos da série em todos os materiais promocionais, e no Japão existe um Biohazard no nome do jogo, tá ok? Aliás, o quão bizarro é ter um jogo comemorativo de 20 anos de uma série que nem tem o nome da série no título no ocidente? Reflitam.

Apesar de esse ser um relato-textão com cunho bastante pessoal, acho que eu posso dizer que a minha opinião reflete o que a grande maioria dos fãs estão sentindo com relação a Umbrella Corps. Em uma pesquisa de opinião aqui do REVIL sobre o título, grande parte dos participantes relatou impressões negativas com relação à Umbrella Corps, além de desinteresse em atrações anunciadas para o game. Esse comportamento pôde ser observado, inclusive, entre pessoas que têm afinidade por jogos de tiro. O que chama a atenção é que quase metade do pessoal que participou da pesquisa alegou que Umbrella Corps “não representa algo comemorativo de 20 anos da série”. Além do que a gente viu na pesquisa, o grande número de dislikes em todos os vídeos de Umbrella Corps e as enxurradas de comentários negativos (alguns até meio raivosos) no próprio canal do YouTube de Resident Evil e em outras redes sociais da empresa demonstram que a galera definitivamente não está curtindo.

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Fazer a pesquisa de opinião foi super válido, mas não precisa de bola de cristal ou ser o gênio da análise de público para perceber que Umbrella Corps não representa Resident Evil. Nem se a sua única visão da série for Jake e Sherry fugindo de J’avos com uma motocicleta voadora. Não dá para negar que a ação também representa Resident Evil hoje, mas se Umbrella Corps já parece desnecessário sendo “mais um título”, imagina como “título comemorativo de 20 anos”?

Apesar do Umbrella-Corps-pacotão-de-meias, ainda dá para salvar essa comemoração de aniversário? Talvez sim. Resident Evil 0 HD Remaster também foi um presente de 20 anos e, de acordo com a própria Capcom, “mais anúncios virão por aí”. Só espero que eles acertem da próxima vez.

O texto acima não represente a opinião do REVIL, e sim da autora do artigo.

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