Desenvolvido pela Eldritch Sword Games, com gráficos que lembram jogos de PS2, aliado a muito gore, uma estrutura de combate e evolução que lembra Vampire Survivors, mas com uma criação de build muito mais complexa e detalhada, Conquest Dark é um ARPG (Action RPG), com elementos de roguelike e bullet heaven, colocando o jogador para enfrentar hordas de mortos-vivos em busca da glória e da liberdade por meio dos Dark Rituals.
Conquest Dark ainda está em acesso antecipado e mesmo assim demonstra um potencial enorme.
Um mundo brutal
Apesar de possuir uma ambientação bastante interessante, Conquest Dark não coloca sua história como ponto principal e isso é nítido nos primeiros momentos de jogo. O título apresenta um mundo em que a humanidade está próxima da extinção e criaturas sobrenaturais, como mortos-vivos estão por toda parte. Os antigos Deuses que protegiam a terra foram subjugados pelos Primordiais, entidades cósmicas que reivindicam a Terra como seu domínio.
Com seus exércitos de mortos-vivos, varreram quase toda a vida humana, restando poucos sobreviventes. Aqueles que buscam a glória e a liberdade procuram nos Dark Rituals poder inigualável para se tornarem capazes de derrotar a ameaça.
A premissa é dada logo no começo do jogo, como uma introdução a esse mundo e depois pouco se fala sobre. Há algumas descrições em certas fases, sobre aquele local, mas algo bem breve e resumido, não muito mais que isso. O que faz com que a história seja mais uma espécie de complemento para quem tiver interesse em conhecer aquele universo do que algo que realmente conduza a campanha.
De certa forma isso até que funciona para a proposta do jogo. Como Conquest Dark é muito mais focado na jogabilidade e na criação de builds, não senti que a ausência de uma narrativa mais presente prejudicasse a experiência. A ambientação sombria e a quantidade de informações disponíveis são suficientes para criar uma identidade para o mundo do jogo.
Até porque não existe exatamente um protagonista com uma jornada própria. O personagem é criado pelo jogador a cada novo ritual e seu objetivo é enfrentar as hordas que aparecem pelo caminho. A história serve mais para contextualizar o mundo e justificar o que estamos fazendo do que para contar uma aventura pessoal.
Isso também combina com a maneira como o jogo apresenta suas informações. Conquest Dark não possui um tutorial tradicional que fica explicando cada sistema enquanto jogamos. Ele simplesmente coloca o jogador na arena e deixa que descubra as coisas por conta própria.
No começo, isso pode ser um pouco confuso, principalmente porque existem muitos sistemas diferentes para entender. Inclusive, em minha primeira partida eu morri humilhantemente, pois não sabia como encontrar uma arma, já que não recebi instruções de como fazer isso. Jogando pela segunda vez, notei que precisava matar com as próprias mãos um inimigo mais destacado dos outros e então ganhar minha arma.
Felizmente, o menu de pausa possui uma seção que explica as funções e mecânicas do jogo, então as informações estão disponíveis para quem quiser consultá-las, não deixando o jogador no escuro absoluto.
É uma abordagem que exige um pouco mais de iniciativa do jogador, o que pode ser bem satisfatório ao entender como tudo funciona, mas ao mesmo tempo pode assustar e acabar afastando alguns jogadores menos pacientes.
Completo e Complexo
Basicamente a estrutura de forma geral é a mesma dos jogos do gênero. Uma arena com contagem regressiva e hordas infinitas a que deve sobreviver até o relógio zerar, enquanto enfrenta diversos tipos de inimigos, chefes e se fortalece. Fora das batalhas utiliza os recursos ganhos para se fortalecer permanentemente, aumentando estáticas, melhorando armas, equipamentos, habilidades passivas e ativas e mais, em um sistema bem completo e complexo.
Eu não me lembro de ter jogado outro roguelike com uma construção de build tão detalhada. Talvez existam outros RPGs com sistemas tão complexos quanto esse, mas, dentro desse gênero, a quantidade de possibilidades é simplesmente impressionante.
No começo, inclusive, pode assustar um pouco. São muitas informações envolvendo classes, raças, atributos, armas, equipamentos, habilidades, runas e diferentes combinações possíveis. Eu mesmo tive dificuldade para entender algumas coisas nas primeiras partidas, mas, conforme fui testando diferentes combinações, comecei a compreender melhor como os sistemas funcionavam.
Mas calma, caso isso pareça muito pra você, ou queira ir mais com calma, sem pensar demais em combinações complexas, é possível deixar a construção da build completamente automática, escolher apenas algumas opções para serem automatizadas ou fazer tudo por conta própria.
Para quem quer apenas jogar e enfrentar as hordas sem ficar analisando cada detalhe, isso é totalmente possível. Você escolhe apenas alguns ajustes antes de iniciar a partida e não vai precisar se preocupar com mais nada. Já para quem gosta de ficar procurando a melhor combinação possível, o jogo oferece uma quantidade enorme de possibilidades.
Também podemos salvar a build usada ao final de cada fase para utilizá-la posteriormente. Uma opção excelente, Existem ainda alguns conjuntos de builds pré-definidos, voltados para determinadas características do personagem, embora seja necessário desbloquear todos os equipamentos utilizados por elas para aproveitá-las completamente.
A criação da build não depende apenas dos equipamentos e armas. O jogo possui diferentes classes, que funcionam como suas principais especializações, e também diferentes raças e origens, cada uma com suas próprias características, vantagens e desvantagens.
Pra quem já está mais familiarizado com RPGs, vai compreender mais facilmente como elas funcionam. Como por exemplo a raça dos humanos ser a “neutra”, não oferece benefícios extraordinários, mas não recebe grandes penalizações em seus atributos. Assim como o bárbaro ser focado em força e vida, enquanto o caçador é mais hábil com arcos e o ladrão mais ágil.
A combinação entre todos esses elementos é bem interessante, pois permite aproveitar os benefícios de um para complementar as características do outro. Isso também pode fazer com que o personagem consiga aprender determinadas habilidades ou utilizar equipamentos que normalmente não estariam disponíveis para sua classe/ raça.
Por isso, é importante pensar na construção do personagem como um conjunto. Você não precisa investir tudo nos principais atributos do seu personagem, pode cobrir suas fraquezas com uma combinação bem pensada de raça, classe e origem.
As classes são desbloqueadas conforme avançamos no jogo, enquanto algumas raças dependem de determinados níveis das classes para serem liberadas. Isso acaba incentivando o jogador a experimentar diferentes opções em vez de ficar preso a uma única, durante toda a campanha.
A estrutura das partidas também possui uma diferença interessante em relação ao padrão do gênero. Em vez de termos apenas uma vida durante o ritual, começamos com dez.
Sempre que perdemos uma delas, alguma parte do corpo do personagem é arrancada. Conforme as vidas vão acabando, nosso personagem vai ficando cada vez mais mutilado, até que, na última, resta apenas o esqueleto.
Além do visual diferente e brutal, isso também interfere na própria sobrevivência. Depois de perder uma vida, o personagem começa a sangrar e não é possível interromper o sangramento. É necessário recuperar vida utilizando itens deixados pelos inimigos ou possuir habilidades de cura e regeneração, caso estejam disponíveis na build escolhida.
Essa mecânica deixa o jogo mais dinâmico e interessante porque perder uma vida não significa necessariamente o fim da partida, mas deixa consequências que precisam ser administradas e remediadas durante todo o restante do ritual.
O combate em si segue a fórmula do gênero. Os ataques são automáticos, enquanto podemos escolher entre mira automática ou manual. Também temos uma esquiva que precisa ser ativada manualmente e que pode receber cargas adicionais dependendo da classe, origem e habilidades escolhidas, além de ser muito mais que uma habilidade para evitar golpes, ela pode ser usada para atacar e até se regenerar.
As fases também possuem diferentes níveis de Tier, que aumentam a quantidade de hordas e chefes enfrentados e, consequentemente, melhoram as recompensas obtidas ao final. A quantidade de Tiers, pode ser administrada pelo jogador, mas cada fase em si possui sua própria dificuldade fora eles.
Além disso, existem pedras de obelisco que podem ser ativadas para aumentar ainda mais a dificuldade e os recursos objetivos após cada ritual, resultando em modificadores nas partidas que favorecem os inimigos.
É um sistema que funciona bem com a proposta do jogo porque dá ao jogador a possibilidade de escolher o quanto quer se arriscar para obter seus ganhos. A dificuldade padrão em si, começa bem mais tranquila, mas aos poucos vai escalonando, podendo pegar um pouco mais na reta final. Os Tiers e pedras de obelisco são bons para te ajudar a farmar em momentos de necessidade em fases iniciais, para chegar mais preparado para partidas mais desafiadoras.
Existe também um modo de ondas infinitas. Esse modo é muito bom para para testar builds e conseguir níveis mais rapidamente para as facções, que é como as classes são apresentadas dentro do mundo do jogo. Apesar de ser uma opção interessante para evoluir as facções, achei que as recompensas de modo geral não são tão abundantes quanto nas fases tradicionais.
E para diferenciar ainda mais, existem algumas fases de desafios, em que o objetivo é “libertar” as almas aprisionadas para completar rituais que aumentam o Tier gradativamente da fase e o tempo de conclusão e, claro, consequentemente suas recompensas. Mas contém uma dinâmica um pouco inversa a das fases tradicionais, já que o objetivo é garantir que o relógio não zere, em vez de sobreviver até ele acabar.
Esses desafios proporcionam bônus permanentes ao serem concluídos. Quanto mais longe for, ou se conseguir finalizá-lo 100%, maior serão os bônus adquiridos.
Provavelmente um dos pontos que menos me atraiu, foi a customização de personagem, ou de forma geral os personagens. Já que como mencionado anteriormente, o jogo não tem como foco seu enredo, tão pouco tem seus personagens.
Até porque não existe exatamente um personagem principal. Em vez disso, criamos nosso próprio herói a cada partida, embora a customização visual seja bastante limitada. Podemos alterar a aparência e o sexo do personagem, mas não existe uma ferramenta de criação particularmente elaborada. É basicamente escolher uma aparência que agrade e partir para o combate, já que a personalização visual também está longe de ser o foco.
Parece jogo de PS2
Se tem uma coisa que Conquest Dark definitivamente não vai ganhar é um prêmio de beleza. O jogo provavelmente possui um dos visuais mais feios que encontrei nos últimos tempos. A direção artística tem uma clara inspiração em dark fantasy mais brutal, com nudez e bastante gore. O que é bom, por se distanciar de muitos jogos do gênero que costumam ser mais voltados para pixel art ou cartoon mais fofinho. Não que isso seja um problema, pois gosto de jogos com essa estética também, contudo, escolher um visual diferente, é uma forma de chamar a atenção, seja ele dos mais bonitos ou não, já que os gráficos lembram muito um título de PS2.
A ambientação também segue uma linha bastante conhecida para quem gosta do gênero dark fantasy. Temos mortos-vivos, criaturas sobrenaturais, magia, guerreiros, classes de RPG e uma boa dose de violência. A estética acaba passando um pouco por Conan, o Bárbaro e Diablo, além das mecânicas naturais dos jogos survivors.
Já a trilha sonora e os efeitos sonoros são mais discretos. As músicas combinam com os combates e com a ambientação, enquanto os efeitos cumprem bem o seu papel, mas nenhum deles chegou a se destacar particularmente para mim.
Conquest Dark claramente coloca muito mais esforço na jogabilidade do que nos gráficos, e isso fica evidente desde os primeiros minutos.
Talvez a maior desvantagem desse jogo seja não possuir localização em português. Como ele possui uma alta complexidade em suas mecânicas e entender o que cada atributo, equipamento, runa, itens e afins fazem, estar em um idioma que quem joga domina facilita muito o entendimento e assim a compreensão do que está fazendo.
Rituais Sombrios
O jogo pode assustar um pouco no começo. São muitos sistemas, informações e possibilidades para entender, principalmente para quem não está acostumado a ficar analisando atributos, classes, equipamentos e combinações de habilidades. Depois que começamos a compreender como tudo funciona, é justamente essa complexidade que se torna seu maior atrativo.
A possibilidade de combinar classes, raças, origens, atributos, equipamentos e habilidades permite criar personagens bastante diferentes entre si, e o fato de podermos automatizar parte ou até mesmo toda essa construção também torna o jogo mais acessível para quem prefere uma experiência mais casual. No geral, me surpreendeu mais pela profundidade de seu sistema de criação de personagens do que por qualquer outro aspecto.
Em acesso antecipado, muita coisa ainda pode melhorar e mudar em Conquest Dark, mas é um jogo que com certeza vale a pena ficar de olho.
O jogo foi analisado com uma chave digital do Steam cedida pela desenvolvedora via Keymailer.



















