Análise – MOUSE: P.I. For Hire – Steam

Em 1930 muitos estúdios de desenhos animados começaram a surgir criando parte da “era de ouro” da animação americana. Muitos desses estúdios criaram tendências e conceitos que são usados até hoje em filmes e séries animadas e são inspiração para várias obras da cultura pop moderna. Um desses estúdios mais famosos era a Walt Disney Animation Studios, que já tinha o Mickey Mouse a todo vapor e em 1937 lançou o primeiro filme animado no cinema: A Branca de Neve e os Sete Anões. Mas outro estúdio que mostrou ser destaque na época foram os Estúdios Fleischer.

Os Estúdios Fleischer foram fundados em 1921 e entre suas animações mais famosas temos: Betty Boop, Koko the Clown, Bimbo, Popeye e Superman. Uma das características desses desenhos era a animação estilo Rubber Hose, famosa pelos braços e pernas flexíveis que nem boneco de posto e o clima mais “bizarro/curioso” que seus desenhos passavam na era preto e branco do estúdio.E é exatamente esse mesmo sentimento de bizarro/curioso (e principalmente muito divertido) que eu falo hoje de MOUSE: P.I. For Hire, o novo jogo desenvolvido pela Fumi Games e pela Playside Studios.



MOUSE é um jogo de ação FPS em primeira pessoa no clássico estilo Boomer Shooter dos anos 90 como DOOM, Quake e Duke Nukem 3D. Seu visual Cartoon dos anos 30 todo em preto e branco é o charme que mais chamou a atenção desde seu primeiro anúncio, com muitas pessoas chamando até de “Cuphead de Tiro”, mas será que o jogo é apenas isso?

SAY HELLO TO MY LITTLE FRIEND

MOUSE: P.I. For Hire tem uma trama de investigação Noir e o nosso protagonista Jack Pepper interpretado pelo Lindo e Maravilhoso Troy Baker, ator e dublador famoso por ser o Joel em The Last of Us, Higgs em Death Stranding e recentemente Indiana Jones em Indiana Jones and the Great Circle. Jack é um detetive que traz aquele clima soturno com aquele Jazz mais soturno ainda de fundo, onde a cada momento o protagonista faz um monólogo interno sobre o mundo à sua volta e usa isso para destacar seu caso.

A gameplay de MOUSE é muito bem colocada como um Boomer Shooter, com comandos bem comuns para jogadores do gênero, onde o foco é atirar primeiro e mirar depois, os movimentos do protagonista são bem feitos sendo fácil de se mover pelo cenário tanto em seções de plataforma quanto nos momentos de ação que o jogo apresenta, ação essa que te dá um arsenal grande de armas como Pistola, Escopeta, Metralhadora, Canhão, Lança-ácido, Dinamite, Motosserra entre outras armas malucas pra você se divertir usando.

Fique com o troco seu animal…

Cada arma tem uma animação única muito bem feita e cada disparo pode apresentar uma animação diferente com cada execução em um inimigo: com a arma de ácido os inimigos derretem e viram esqueletos, com fogo ou explosões eles viram pó, se você derrubar algo pesado em cima deles eles viram panquecas, cada arma também pode ser melhorada com a jovem Tammy Tumbler te apresentando a bancada. Cada arma pode ser melhorada três vezes e à cada melhoria mais um detalhe é acrescentado ao modelo de cada arma como: Uma mira diferente aparecendo, uma engrenagem a mais na arma, tubos e fios girando ao redor… passando a sensação de gambiarra brasileira clássica.

Era essa a peça que você queria?

Além das armas, o jogo tem habilidades que são desbloqueadas para Jack utilizar em sua cauda, transformando ela em um gancho para se pendurar, uma hélice para planar no ar e também ela para arrombar cofres e fechaduras num minigame de labirinto que me lembrou muitos os minigames de Hack em Bioshock.

You, the master of unlocking–

Os níveis do jogo são separados por um mapa onde você vai de carro de fase em fase para iniciar o jogo. O mapa é muito bem feito e charmoso nos visuais, no início é legal ver o mapa todo, a arte da cidade, mas depois da metade do jogo fica um pouco cansativo porque o carro do Jack é bem lento andando pelo mapa, isso poderia ser melhor posto tendo um botão para acelerar mais o carro no mapa.

Ô MOTORISTA PODE CORRER, QUE A QUINTA SÉRIE NÃO TEM MEDO DE MORRER

O jogo também tem muitos objetivos secundários que são basicamente favores que você faz para seus amigos, todas as missões secundárias são lineares à história que você está seguindo. Por exemplo: Você está indo para a terceira fase do jogo, nesse momento algum amigo seu te chama pra conversar “Opa fiquei sabendo que você vai pra tal lugar… faz um favor pra mim?” e aí está iniciada a missão secundária e pra quem quer fazer tudo no jogo, cuidado! Que se você passar da fase você não pode voltar lá pra continuar a missão secundária! Cada fase pode ser completada apenas uma vez por jogatina.

Sobre a trilha sonora do jogo, ela é excelente, cada região do mapa tem seu próprio estilo musical. Com o escritório de Jack e áreas urbanas tocando um Jazz soturno com um saxofone em destaque, mas quando entra em combate a banda toda começa a tocar em um ritmo mais frenético acompanhando o tiroteio da ação. Em cenários mais rurais a trilha se destaca com um banjo tocando poucas notas e quando chega no combate essas notas aumentam e seu ritmo acelera. Muitas das músicas são licenciadas mas o jogo tem um modo streamer para não termos medo do Copyright.

Outra coisa secundária que o jogo tem é um card game de baseball, um minigame simples porém divertido, as regras são fáceis de entender, cada carta tem seu número de poder e vence quem tiver mais poder de ataque para passar por todas as bases e marcar pontos em 5 rodadas.

Strike três… FORA

Era uma vez…

A trama do jogo se inicia com Jack recebendo um caso de desaparecimento do famoso Mágico Steve Bandel, investigando vários lugares para procurar pistas e conversando com várias pessoas e dando muitos tiros, Jack percebe que esse caso é mais profundo do que aparenta ser.

Essa trama, no início, é apresentada de forma muito boa, trazendo esse mistérios e também mantendo o clima descontraído e “bobo” de um desenho animado, deixando o jogo divertido, leve e engraçado, mas com você ainda curioso com cada pista que surge e vários outros mistérios que se entrelaçam durante a trama. Ainda mais que cada evidência que você encontra em cada fase do jogo, você coloca ela no seu quadro de investigação e com cada pista, Jack sabe pra onde ir e continuar sua busca por desvendar mistérios.

Está cada vez mais elementar, meu caro Watson

E nessa busca, várias referências podem ser encontradas durante o jogo, com o Jack assobiando a música de Steamboat Willie, Jack comendo espinafre e ficando forte que nem o Popeye, mas também referências e easter eggs de obras atuais.

30 de Setembro de 1998, eu nunca vou esquecer…

Mas mesmo que a estética, atuação e a violência fantasiosa e cômica do jogo tenham esse ar descontraído, a história tem momentos sérios (sérios até demais) pra um jogo nesse estilo. Ter um humor mais ácido ou com elementos que têm demônios, pactos e coisas do tipo como em Cuphead por exemplo foram bem dosados para que o jogo não perdesse esse clima de desenho animado, já em MOUSE: P.I. For Hire eu senti que a história tava se destoando muito do tom que seu visual nos apresenta. A história começa com esse clima de investigação noir simples e até inocente me lembrando As Aventuras de TinTin, mas com mais maluquices, que nem pica-pau, mas com o tempo a história ia ficando mais densa e tocando em assuntos até delicados e polêmicos que temos até hoje em dia na nossa sociedade e isso me desprendia do clima e universo cartoon do jogo e me fizeram questionar se isso era apropriado para esse jogo onde você tá agindo quase que como o Pernalonga com efeitos sonoros e animações cômicas, numa cena de desigualdade de classe e violência policial com abuso de autoridade. Mas não é a primeira vez que isso acontece em nosso mundo, quem aí lembra do fatídico caso do desenho de Pato Donald sendo usado de propaganda na Segunda Guerra?

ISSO É TUDO PE-PE-PESSOAL!

MOUSE: P.I. For Hire é um jogo com ideias ousadas e muito criativas, gameplay satisfatória e história bem densa em suas entrelinhas. Terminei o jogo por volta de 20 horas e, mesmo sentindo que se estendeu em alguns momentos, eu me diverti muito jogando. Cada combate e arma nova era um momento de diversão para explorar o que o jogo me apresentava em cada fase. Fico ansioso e curioso pelo próximo jogo que o estúdio vier a apresentar para nós pois essa mistura de Boomer Shooter com desenho animado já foi um prato cheio pra mim.

O jogo foi analisado com uma chave digital cedida pela desenvolvedora via Keymailer.

Pontos positivos:
Gameplay boa e divertida;
Referências engraçadas;
Estética carismática;
Combate desafiador.
Pontos negativos:
Temas sérios demais para obra;
Partes esticadas demais;
Missões secundárias vinculadas às missões principais..
7.5