Confesso que pouco esperava desse “remaster” (sim, com aspas, porque de remasterização mesmo não tem praticamente nada) de Resident Evil 6. Quando foi anunciado que ele, juntamente com RE5 e RE4 seriam portados para os consoles da oitava geração, e que não se trataria de uma remasterização de verdade e sim de um port das versões lançadas para PC, pensei logo de cara: o que justifica esse relançamento? E é uma pergunta que não encontrou resposta até agora.

Lançado a pouco menos de 4 anos, Resident Evil 6 chegou envolto em um imenso hype, com promessa de ser um dos melhores jogos da franquia, reunindo grandes estrelas como Leon, Chris e Ada, além da presença do filho de Albert Wesker e a volta de Sherry Birkin após quase 15 anos. O jogo também prometia agradar aos fãs de survival horror e aos fãs de ação, com quatro cenários com propostas distintas mas que se entrelaçavam. História grandiosa, com mais de 30 horas de gameplay e terror em escala global. Promessas, promessas, promessas… e quase nada foi cumprido de forma satisfatória.

O resultado foi uma enxurrada de críticas negativas por parte da mídia especializada e também dos fãs. Muita gente desacreditada de ver Resident Evil sucumbir de forma tão forte aos delírios de sua própria equipe de produção. Pela primeira vez tivemos um jogo numerado da franquia em que os pontos negativos foram maiores que os positivos, pela primeira vez na franquia as vendas de um jogo numerado não alcançaram as expectativas da empresa, e com isso, o enorme investimento feito pela Capcom fez a empresa se ver as voltas com contas no vermelho, e com uma grande interrogação na cabeça: o que deve ser feito com Resident Evil no futuro?

Leia a análise completa de Resident Evil 6 feita na época de seu lançamento, em 2012

Essas questões, geraram um hiato, seguido de uma onda de remasterizações e ports. Depois do lançamento de Resident Evil 6, se passaram quase 4 anos e tivemos o anúncio de DEZ jogos na franquia, sendo que apenas TRÊS deles eram títulos inéditos – RE: Revelations 2, lançado em 2015 e Umbrella Corps, que sai ainda este ano e RE2: Remake, que ainda não tem data de lançamento. De resto, tivemos ports de RE: Revelations 1 para os consoles de mesa; as versões remasterizadas em HD de RE: Remake e RE0 que chegaram aos consoles da sétima e oitava gerações; a versão “Ultimate HD” de RE4 lançada para PC, e mais recentemente o anúncio do port de RE4, RE5 e RE6 para a oitava geração.

Tá, nesse ponto do texto vocês devem estar se perguntando: o que tudo isso que eu estou falando tem a ver com a análise de Resident Evil 6 para PS4 e Xbox One? Respondo com uma simples palavra: tudo!

O “remaster” se sustenta?

2a

Resident Evil 6 foi o jogo numerado da franquia que teve a pior recepção e o único que não alcançou as expectativas de vendas. Criticado abertamente por muita gente, ele tentou ser tudo e não foi quase nada. Alguns defensores do jogo, argumentam dizendo que ele é um ótimo jogo de ação, que é divertido e que rende muitas horas de diversão. Não posso discordar desses argumentos, eu mesmo me diverti jogando-o no Xbox 360, e de fato ele tem sequências de ação interessantes.

Mas tudo vai por água abaixo por conta de seu enredo, algo que sempre foi o ponto alto da franquia, especialmente nos jogos numerados. A problemática do jogo acontece basicamente porque uma mulher traída, em um surto megalomaniaco, decide se vingar do homem que a traiu, mas ao invés de focar seu ódio apenas nele, ela resolve que é mais interessante acabar com o mundo. É o Resident Evil numerado mais sem alma e essência já lançado, talvez um dos jogos que mais diferem do que RE implantou no seu auge. Tudo é jogado na cara do jogador sem a menor sutileza, tudo é grandioso demais, explosões, QTEs, sequências de ação desenfreadas… como dizem por aí e eu até concordo: RE6 é um bom jogo de ação, o problema é que carrega o nome Resident Evil e isso nos faz esperar sempre algo a mais, e o que ele trouxe foram muitos algos a menos no que realmente importava.

Por conta de tudo isso, essa versão “remaster” do jogo é totalmente injustificada. A imensa maioria dos fãs não queria isso, o jogo não oferece conteúdo extra que sustente um relançamento, e requentar um Resident Evil tão fraco só traz a lembrança do quão equivocada a Capcom pode ser, junto da esperança de que ela seja capaz de mudar os rumos da franquia. Infelizmente a chama dessa esperança está cada vez mais próxima de se apagar.

Os argumentos para o relançamento de RE6 são: “quem não jogou na sétima geração, poderá jogar agora”; “todas as DLCs multiplayers e roupas extras inclusas”; “1080p e 60fps – jogá-lo no PS4 e XONE é uma experiência igual ou superior a jogá-lo em um PC master race”. Sinceramente, vocês acham que isso sustenta o relançamento?

Vamos por partes:

Quem não jogou antes pode jogar agora

Talvez o pior dos argumentos. Dificilmente alguém que possui um PS4 e um XONE não tinha um console da geração passada. Ainda mais se tratando de fãs de RE, que costumam ser dos mais dedicados. O argumento seria válido caso o jogo fosse mais antigo, poderia ser até válido com RE4 por exemplo, se esse não tivesse recebido relançamentos e versões até para aquela torradeira velha que você tem na sua casa. Resident Evil 6 é um jogo relativamente recente, e a impressão é que a Capcom foi na onda de tantas outras empresas que vem fazendo ports e remasters praticamente sem critério.

DLCs multiplayers inclusas

Outro ponto que nem de longe sustenta o relançamento de um jogo tão recente. Os modos online inclusos adicionam uma camada de diversão extra ao jogo, mas também nos fazem lembrar o quão “não Resident Evil” é esse título. Uma franquia que outrora carregava histórias cheias de conspiração e instigantes, vê seu sexto título numerado tendo como atrativo de seu relançamento apenas alguns extras online é triste.

1080p, 60FPS

De fato, o jogo parece mais bonito que no PS3 e Xbox 360, isso era o mínimo a ser feito, mas os problemas, as texturas em baixíssima resolução e a escuridão excessiva do jogo para tentar disfarçar esses defeitos ainda estão lá. Embora mais bonito que na sétima geração, a versão da oitava nem de perto apresenta uma evolução digna de remaster.

O lado bom é que o jogo está ligeiramente mais fluído por conta do 60fps, há uma quebra menor de quadros e alguns “tranquinhos” que eram constantes no PS3/X360, praticamente não existem mais. Além disso, texturas aplicadas em personagens em inimigos estão consideravelmente mais nítidas, e embora isso seja um ponto positivo, acaba causando um abismo ainda maior com relação as texturas em baixa qualidade que se espalham pelos cenários.

Requentado

1a

Com poucas melhorias e algumas adições que não representam um grande diferencial, o relançamento de Resident Evil 6 para os consoles da oitava geração é digno de piada de mal gosto, ainda mais considerando o preço do jogo no Brasil: R$150 para a edição digital, e entre R$150 e R$170 para a edição física.

Lembrando que, nos EUA, o jogo sai por U$20, algo em torno dos R$80 convertido diretamente para a nossa moeda sem adição de impostos. Mas a comparação a ser feita é com o preço full dos jogos AAA. Nos EUA, esses jogos costumam ser lançados por um preço que varia entre U$50 e U$70. Aqui no Brasil, os jogos AAA são lançados por algo em torno de R$250 e R$280, enquanto RE6 saiu aqui por R$150. Enquanto nos EUA RE6 custa entre 30%-40% de um jogo realmente novo, aqui no Brasil seu valor fica entre 55%-60%. Muito para um jogo requentado, não?!

Sabe aquele artigo que a Bruna publicou a algum tempo: “a Capcom não é mercenária, você que é otário“? É exatamente isso. Pagar um valor tão alto por um jogo requentado nas coxas é ser conivente com essa política esdrúxula de remasters e relançamentos com a qual a Resident Evil vem vivendo a alguns anos. Pagar um valor tão alto pelo relançamento de um jogo com menos de quatro anos e que traz praticamente nenhuma melhoria considerável é dar o aval para a empresa seguir tomando decisões torpes e enrolando o seu público com jogos requentados e que de novo não trazem praticamente nada. De novo eu repito aqui: após o lançamento de RE6 em 2012, a Capcom anunciou dez novos jogos da franquia, sendo que somente três são títulos inéditos. E se os fãs continuarem comprando esses relançamentos, eles vão continuar acontecendo de forma sistemática, e o lançamento de novos jogos vai ficar cada vez mais diluído nesse mar de jogos requentados.

Sempre que eu faço uma crítica negativa ou mais pesada a um jogo da franquia ou a alguma decisão da Capcom, vem um monte de gente me acusando de não ser fã de verdade da franquia. Para estes, que certamente estarão presentes no campo de comentários dessa análise, tenho algo a dizer: sou fã de Resident Evil desde 1997, longos 19 anos. Nesse meio tempo passei por praticamente todas as fases da franquia, quase sempre acompanhando de perto. Conheci dezenas, centenas de outros fãs, alguns deles muito mais dedicados a franquia e aos jogos do que eu poderia imaginar ser possível. O que aprendi nesse tempo é que ser fã de verdade, não é comprar todos os jogos e achar tudo que leva o nome “Resident Evil” lindo e maravilhoso, desculpem, mas fazer isso é no mínimo ser cego pra não dizer tapado. Ser fã é ter um carinho especial por algo, consumir os seus produtos, mas estar atento a porcarias e criticar produtos que não atinjam o nível de excelência que antes costumava ser padrão. Ser fã, é conhecer a franquia e ter acima de tudo um olhar crítico para o bem e para o mal.

O fã tem a prerrogativa de conhecer aquela determinada franquia melhor do que os jogadores casuais, isso lhe dá um olhar diferente das demais pessoas justamente por estar familiarizado, por conhecer minúcias que fazem toda a diferença. O fã tem condições de criticar e elogiar de forma muito mais coerente, e esse é o nosso papel. Como fãs, não podemos fechar os olhos e achar tudo lindo e maravilhoso, caso contrário, se essa ideia de “fã de verdade gosta de tudo da franquia”, Resident Evil está fadado a muito em breve cair no ostracismo, e ver toda sua história construída ao longo desses 20 anos ir por água abaixo envolta em um mar de remasterizações sem sentido, sem demanda e sem alma.

O jogo foi analisado no PlayStation 4 em cópia cedida pela Capcom-Unity Brasil. O texto não representa a opinião do REVIL como um todo, e sim do autor da análise.

Resident Evil 6 (PS4 / XONE)
Melhoria nas texturas dos personagens e inimigosMenos engasgos que na sétima geraçãoInclusão das DLCs multiplayer
Texturas em baixa resolução da sétima geração se mantémPreço absurdo para um jogo requentadoPoucas melhorias reais em relação ao originalMais um relançamento que não se justificaVersão de 2013 para PC é melhor do que este """remaster"""Escuridão excessiva em certos pontosTodos os defeitos da versão original, que são muitos
4Requentado
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