Após cinco anos desde o lançamento de Resident Evil Village, Resident Evil Requiem chega cercado de mistérios e perguntas. O jogo marca o retorno de Leon Scott Kennedy como protagonista pela primeira vez desde Resident Evil 6, além de apresentar uma nova personagem central, Grace Ashcroft. Mas afinal, será que o nono título principal da saga conseguiu corresponder às expectativas?
Para responder a esta pergunta, vamos analisar o jogo por partes, começando pelo enredo. Lembrando que esta análise foi realizada com base na versão de PlayStation 5 disponibilizada pela Capcom.
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RÉQUIEM PARA OS MORTOS, PESADELO PARA OS VIVOS
O enredo do jogo se estrutura em duas jornadas, por assim dizer. A primeira é centrada na nova protagonista, a analista do FBI Grace Ashcroft, filha de Alyssa Ashcroft, sobrevivente do incidente biológico em Raccoon City e personagem jogável em Resident Evil Outbreak.
A segunda campanha acompanha o veterano Leon S. Kennedy, um agente experiente da Divisão de Operações de Segurança no combate ao bioterrorismo, que está de volta para investigar um caso esquisito.
Assim como em Resident Evil 7 e Resident Evil Village, o início é mais lento e focado na construção da atmosfera e do mistério. Aos poucos, o jogador descobre que a trama gira em torno deste caso estranho envolvendo o assassinato de Alyssa e mortes de sobreviventes do incidente biológico em Raccoon City. É a partir desta premissa que a narrativa começa a se desenrolar, conectando gradualmente Grace e Leon a este novo e perturbador acontecimento, deixando claro que ambos terão papéis centrais nesta investigação.
Grace Ashcroft é uma analista de inteligência do FBI extremamente focada, com grande capacidade de observação, dedução e análise. A morte de sua mãe teve um impacto profundo em sua vida, fazendo com que ela se tornasse mais reservada e mergulhasse ainda mais no trabalho. Determinada a descobrir a verdade, Grace segue sozinha até um hotel abandonado, onde dá início à investigação.
Já Leon S. Kennedy, movido por um forte senso de justiça e com habilidades físicas incríveis, enfrentou diversos desafios desde 1998 e acumulou vasta experiência no combate ao bioterrorismo. Agora, como um agente veterano, Leon retorna à ativa, mas com um diferencial: aparentemente ele está infectado.
Em suma, o enredo gira em torno de um caso que conecta Grace, Leon e elementos importantes da saga como um todo. A narrativa é construída de forma gradual, mantendo o mistério e despertando a curiosidade do jogador, com momentos assustadores, intensos e revelações significativas.
Como é tradição na série, o jogo também conta com diversos documentos espalhados pelos cenários e diálogos entre os personagens, que complementam a trama, contextualizam os acontecimentos e ajudam a esclarecer detalhes que enriquecem ainda mais a experiência narrativa.
Apesar disto, existem aspectos da trama que poderiam ter sido mais desenvolvidos. O enredo é esclarecedor e intrigante, mas algumas explicações são apresentadas de forma breve, sem o aprofundamento que certos elementos mereciam. Além disso, alguns personagens acabam não sendo tão bem aproveitados quanto poderiam. Certas participações parecem promissoras no início, mas não evoluem na mesma medida, o que pode gerar frustração no jogador que esperava um papel mais relevante ou melhor construído dentro da narrativa.
Ainda assim, isso não chega a ser uma surpresa, considerando o histórico da Capcom com a franquia. A série Resident Evil raramente apresenta histórias completamente fechadas, com começo, meio e fim bem definidos. Pontas soltas fazem parte da construção narrativa, e muitos acontecimentos e respostas acabam sendo explorados em outros títulos, expandindo o universo de forma gradual ao longo dos anos.
Além disso, há trechos que podem ser interpretados como fanservice, o que em um primeiro momento pode causar aquela sensação de “sério que é isso?”. Dependendo da perspectiva do jogador, as escolhas podem soar desconexas ou feitas apenas para agradar os fãs mais antigos.
No entanto, ao longo da narrativa, o próprio enredo apresenta explicações que contextualizam estes momentos. Quando analisados dentro do conjunto da obra, estes elementos mostram que não foram inseridos de forma aleatória, mas sim integrados à trama de maneira coerente.
De qualquer forma, mesmo com alguns problemas, o enredo é um ponto bastante positivo, um verdadeiro réquiem, especialmente quando combinado com uma excelente dublagem brasileira. O trabalho dos dubladores é realmente impressionante, trazendo emoção, naturalidade e personalidade aos personagens.
Mais uma vez, os dubladores entregam uma localização de altíssimo nível, reforçando o cuidado com o público brasileiro e mantendo o padrão de qualidade que os fãs da franquia Resident Evil já vêm reconhecendo nos últimos títulos.
“VOCÊ É ESPECIAL, A ESCOLHIDA…”
A parte visual do jogo é um verdadeiro espetáculo. Utilizando o motor gráfico RE Engine, a Capcom conseguiu elevar ainda mais o visual em comparação à recriação de Resident Evil 4, que até então era o último jogo lançado. Os detalhes são impressionantes: cenários ricos, texturas de alta qualidade, modelos de personagens excelentes, expressões faciais convincentes e um sistema de iluminação que contribui diretamente para a atmosfera. Tudo isso transforma o jogo em uma experiência visual de altíssimo nível e bastante tenebrosa.
Os ambientes, como é tradição na franquia, são densos e cheios de detalhes, incentivando a exploração. Os inimigos também receberam um cuidado especial, com destaque para o sistema de dano e desmembramento, que é visualmente impactante e reforça o tom brutal do combate. Além disso, há uma variedade de cenários, e todos apresentam um nível consistente de qualidade e acabamento.
A possibilidade de alternar livremente entre a câmera em primeira e terceira pessoa também valoriza bastante o aspecto visual. Cada perspectiva oferece uma percepção diferente dos ambientes, tornando a experiência mais imersiva e dinâmica, sem comprometer a qualidade.
Os cenários são genuinamente aterrorizantes e transmitem aquela clássica sensação de medo ao avançar, fazendo o jogador hesitar antes de abrir uma porta ou entrar em um novo ambiente. Com Grace, a experiência é claramente voltada ao terror de sobrevivência, com aquela atmosfera que conhecemos desde os primórdios da saga.
Esta atmosfera também está presente na campanha de Leon, mas de uma forma diferente. Sua jornada traz um equilíbrio maior entre terror e ação, lembrando bastante o estilo de Resident Evil 4 e, em certa medida, também de Resident Evil 6.
Vale reforçar ainda que jogamos Resident Evil Requiem na versão padrão do PlayStation 5, e o desempenho foi excelente. Não encontramos problemas técnicos, com o jogo rodando de forma fluida e demonstrando um ótimo nível de otimização no console.
“ABSORVA A TENSÃO E ENTÃO LIBERE-A”
A jogabilidade combina elementos dos jogos mais recentes da saga, e o resultado é bastante positivo. Cada personagem apresenta uma proposta diferente: a jornada de Grace é claramente voltada ao survival horror, com foco na tensão, na exploração e no gerenciamento de recursos.
Já a campanha de Leon adota um ritmo mais acelerado, lembrando o estilo de Resident Evil 4. Ainda assim, não se trata de um action horror, mas sim de um survival horror com maior ênfase na ação. O jogador tem mais liberdade para enfrentar os inimigos e conta com um personagem mais experiente e preparado, o que torna os confrontos mais frequentes, sem abandonar completamente os elementos clássicos de sobrevivência que definem a identidade da franquia.
Com Grace, o jogador precisa explorar os cenários com atenção para cumprir objetivos, resolver quebra-cabeças, coletar munição, itens de cura e outros recursos essenciais para avançar. Como é a primeira vez que ela enfrenta uma situação tão extrema, sua falta de experiência pesa na jogabilidade: embora saiba manusear armas de fogo, empurrar os inimigos, usar facas e outras coisas, ela não tem a mesma habilidade e agilidade de Leon.
Além disso, os recursos são limitados, o que reforça a tensão. Nem todo confronto é uma boa ideia. Em muitos momentos, o jogador precisa decidir: vale a pena gastar munição aqui? É melhor evitar o inimigo? Existe a possibilidade de uma abordagem furtiva? Estas escolhas ajudam a manter o clima de sobrevivência constante na campanha da personagem.
Como já dito, o jogo permite alternar livremente entre a câmera em primeira e terceira pessoa a qualquer momento, o que é uma adição muito bem-vinda. No caso da campanha de Grace, jogar em primeira pessoa torna tudo mais tenso e imersivo, ampliando a sensação de vulnerabilidade, o que lembra diretamente a Resident Evil 7. Aliás, a trajetória da personagem como um todo evoca bastante tanto o clima mais intimista e opressivo de RE7 quanto a estrutura de exploração e sobrevivência vista na recriação de Resident Evil 2.
Dito isto, Grace precisa explorar cuidadosamente os ambientes por onde passa, indo e voltando entre diferentes áreas. Há momentos de backtracking, uma técnica clássica em que o jogador revisita locais já explorados para acessar novas áreas, resolver quebra-cabeças ou avançar na história após obter itens importantes.
Naturalmente, essa exploração é constantemente ameaçada pelos inimigos, que, como sempre, são armas biológicas bizarras. O destaque fica no retorno dos zumbis, agora ainda mais perigosos e imprevisíveis. Eles não são meros obstáculos, mas uma presença constante que transforma cada corredor em um risco. Definitivamente, a exploração está longe de ser um passeio tranquilo.
Sendo assim, a jornada de Grace consegue equilibrar muito bem desafio e terror, entregando uma experiência mais tensa e estratégica. A sensação constante de vulnerabilidade, somada à necessidade de administrar recursos e pensar antes de agir, faz com que seus trechos sejam especialmente envolventes. Não é difícil imaginar que jogadores acabem se identificando mais, e até mesmo preferindo, a campanha da nova protagonista.
Já a jornada de Leon tem um foco maior na ação, mas sem abandonar o clima de tensão e desespero, assim como em Resident Evil 4. O jogador precisa explorar os cenários para coletar munição, itens de cura e outros recursos essenciais para sobreviver e avançar. Leon pode usar várias armas de fogo e granadas, além da possibilidade de executar golpes físicos após atordoar os inimigos ou arremessar objetos neles, eventualmente usar uma motosserra, o que torna o combate mais dinâmico e estratégico.
Assim como no remake de Resident Evil 4, também é possível eliminar inimigos furtivamente e utilizar a machadinha tanto para aparar ataques quanto golpear inimigos a qualquer momento. No entanto, é importante ter cautela: a machadinha possui durabilidade limitada e se desgasta com o uso, o que exige que o jogador administre este recurso com atenção para não ficar vulnerável em momentos críticos.
Embora Leon seja extremamente experiente, sua movimentação não é ágil a ponto de tornar a fuga algo simples. Pelo contrário, o personagem transmite um certo desgaste físico, seja pela idade ou por algum tipo de infecção, o que o faz parecer mais cansado. Isso contribui diretamente para aumentar a tensão dos confrontos, já que escapar nem sempre é uma opção fácil.
Além disso, há momentos em sua campanha que elevam a intensidade a níveis mais extremos, com sequências mais frenéticas e, em certa medida, até exageradas. Ainda assim, nada disso compromete a experiência. Estes trechos acabam reforçando o que foi divulgado pelos produtores de que, em Requiem, Leon está no seu auge, mas será levado ao limite como nunca antes.
Diante de tudo isso, não há dúvidas de que a jogabilidade entretém e funciona muito bem. É natural que alguns trechos sejam mais marcantes ou agradáveis do que outros, especialmente considerando as diferenças entre as campanhas, mas o resultado geral é extremamente positivo.
No conjunto, o jogo se mostra divertido, tenso e genuinamente assustador em diversos momentos, conseguindo equilibrar bem ação e terror. É uma experiência que prende o jogador do início ao fim e entrega sequências memoráveis, tanto pelo impacto emocional quanto pela intensidade da jogabilidade.
“TEM ALGUMA COISA ALI…”
Não há dúvida de que um bom jogo de terror depende fortemente do uso de efeitos sonoros para construir uma atmosfera capaz de provocar medo e tensão. Isto já era evidente em títulos como Resident Evil 7, Resident Evil Village e nas recriações mais recentes da franquia, e em Resident Evil Requiem não é diferente.
O trabalho de áudio aqui é executado com grande precisão. Cada ruído distante, passo ecoando no corredor ou som inesperado ao fundo ajuda a manter o jogador em estado constante de alerta. A forma como os efeitos sonoros são integrados à ambientação fortalece o suspense e amplia a sensação de perigo, tornando a experiência ainda mais imersiva e arrepiante.
Os efeitos sonoros sinistros merecem destaque especial, pois são extremamente eficazes em provocar desconforto e tensão no jogador. Para uma experiência ainda mais imersiva, o ideal é jogar sozinho, em um ambiente escuro e com fones de ouvido. Nestas condições, fica evidente o quão perturbador e intenso o jogo consegue ser.
Esta experiência assombrosa se aplica aos dois personagens jogáveis, mas atinge um ápice de intensidade ao jogar com Grace. No decorrer da sua jornada, o jogador se depara com inimigos que perambulam pelos cenários e uma coisa realmente assustadora são os seus sons, especialmente os zumbis que, conforme já divulgado pelos desenvolvedores, falam coisas que remetem às suas vidas antes de se tornarem zumbis.
É muito bizarro o jogador explorar os cenários e de repente escutar pessoas falando coisas sem sentido com vozes macabras. Este toque sutil, mas impactante, contribui para um clima de tensão e pânico, elevando a experiência a um nível aterrorizante.
Inclusive, em diversos momentos o trabalho sonoro lembra bastante The Outlast Trials, especialmente no que diz respeito aos sons emitidos pelos inimigos. Há uma preocupação clara em utilizar ruídos, respirações, grunhidos e movimentações fora do campo de visão para aumentar a tensão, fazendo com que o jogador muitas vezes ouça o perigo antes mesmo de vê-lo. Esta semelhança reforça ainda mais a sensação de vulnerabilidade e mantém o clima de constante apreensão.
A trilha sonora também merece destaque como um dos pontos fortes do jogo. Na maior parte do tempo, as músicas adotam uma abordagem mais minimalista, funcionando quase como uma extensão do silêncio e contribuindo para a construção da tensão. Quando o perigo se aproxima, os tons mudam de forma sutil, mas eficaz, criando a sensação de que alguma coisa perturbadora está prestes a acontecer, algo que se destaca especialmente na campanha de Grace.
Já na jornada de Leon, há faixas mais intensas durante os combates, com uma pegada que remete à atmosfera do filme Resident Evil: O Hóspede Maldito de 2002. Este estilo sonoro reforça a sensação de caos, perigo e até certo tom macabro nas sequências de ação.
E, claro, a clássica música da sala segura marca presença mais uma vez. A nova trilha mantém o clima acolhedor e reconfortante característico destes momentos de pausa, consolidando-se como mais uma excelente adição à já marcante coleção de temas de salas seguras ao longo da saga.
RÉQUIEM
Finalizado em 12 horas, Resident Evil Requiem é mais uma excelente sequência dentro desta saga lendária. O jogo apresenta qualidades inegáveis, como os gráficos impressionantes, a jogabilidade prazerosa, o excelente trabalho de áudio e uma trilha sonora que se encaixa em cada momento. O progresso é envolvente, desafiador e assustador na medida certa. Ainda assim, o principal ponto que poderia ter sido melhor aproveitado é a trama, que em certos momentos deixa a sensação de que alguns elementos mereciam maior desenvolvimento.
Por outro lado, é possível que parte desta frustração venha justamente das altas expectativas dos fãs, que sempre desejam ver este universo se expandir ainda mais. Isto não significa, de forma alguma, que o jogo falhe narrativamente. Críticas são importantes para que a Capcom continue evoluindo a franquia, mas Resident Evil Requiem está longe de ser um desastre em termos de história.
No geral, a experiência é extremamente positiva e representa um prato cheio para os fãs da saga, especialmente para aqueles que apreciam o estilo de Resident Evil 2, Resident Evil 4 e Resident Evil 7.
Também é importante lembrar que cada jogador terá sua própria experiência, e nenhuma análise ou nota é capaz de definir de forma absoluta se um jogo é bom ou ruim. Embora Resident Evil Requiem tenha pontos que poderiam ter sido mais bem desenvolvidos, o resultado final é muito positivo. Trata-se de um jogo divertido, tenso, assustador e com ideias promissoras para o futuro da franquia.
No fim, fica a expectativa pelo que ainda está por vir. A saga Resident Evil continua demonstrando sua força, mesmo após décadas, e permanece capaz de surpreender e envolver seus fãs. Até o próximo capítulo, resta rejogar esta excelente sequência e celebrar os 30 anos de uma das franquias mais importantes da história dos videogames, marcada por altos e baixos, mas sempre inesquecível para aqueles que a acompanham.
O REVIL agradece à Capcom pelas décadas de parceria, pela confiança depositada em nosso trabalho e pela oportunidade de conferir antecipadamente mais uma sequência na franquia Resident Evil.


















