Resident Evil Requiem foi um dos títulos mais aguardados deste ano (embora saiba que ainda estamos em março…) e que trouxe de volta Leon S. Kennedy, que não aparecia em um jogo principal da franquia (excluindo os Remakes) desde o famigerado Resident Evil 6, lançado em 2012. Junto dele fomos apresentados a Grace Ashcroft, a mais nova protagonista de Resident Evil, que deixou muita gente animada por ser filha de uma outra personagem, Alyssa Ashcroft, apresentada em Resident Evil Outbreak, um jogo de PS2, lançado em 2003.
Requiem prometia agradar muitos fãs, trazendo o survival horror que é ligado a origem da franquia, com a ação que passou a fazer parte da saga. Mas já vimos uma proposta parecida com isso em RE6 (em Resident Evil Village tentaram de novo também), que não agradou a grande maioria dos fãs, independente de seu gênero da franquia preferido. Mas e Requiem? Teria ele consertado o erro cometido em Resident Evil 6?
A Escolhida
Grace é uma analista do FBI que recebe a missão de investigar um novo corpo descoberto com algumas peculiaridades, como alguns em outros casos que o FBI já está investigando, mas o local é justamente onde sua mãe foi assassinada há 8 anos atrás. Mesmo relutante, Grace aceita a missão.
Leon investiga algumas mortes incomuns, todas associadas à sobreviventes de Raccoon City e sua investigação o leva a uma pista de Victor Gideon, uma figura associada a Umbrella.
Gideon acredita que Grace é a chave para sua pesquisa, por isso precisa dela para concluir seu trabalho. E assim temos o entrelaçamento das três figuras principais de Requiem.
De início somos apresentados ao pesadelo vivido por Grace, que é capturada por Gideon e levada ao local de suas pesquisas, a casa Rhodes Hill, um centro de cuidados que serve como disfarce para as experiências do vilão.
A história se desenvolve devagar nesse primeiro ato, nos cercando de mistérios, que nos plantam cada vez mais perguntas e quase nenhuma resposta. De forma alguma isso é ruim, isso ajuda a construir a atmosfera em que Grace está presa, tão perdida quanto nós no que está acontecendo.
Isso é bem intrigante no começo, mas em certo momento do segundo ato e principalmente no terceiro, parece que a Capcom dá algumas escorregadas em como emaranhar as ideias. Apresenta alguns personagens que não somam quase ou nenhum peso de fato pra história e principalmente adiciona a possibilidade de dois finais diferentes, em que deixa bem claro qual é o verdadeiro, não fazendo o menor sentido ter o outro para escolha, já que ele não vai agregar nenhuma consequência de fato.
Talvez para Requiem faltou um vilão com maior peso e principalmente mais desenvolvimento. Embora não vá dar spoilers aqui, Gideon deixa muito a desejar quando mostrado suas verdadeiras ambições e desejos, não só ele, mas mais coisas que envolvam ele, Grace, novas ligações que o jogo faz e principalmente as antigas.
Mas pra mim, o maior furo de roteiro ainda é mandar uma agente do FBI, que nem é uma agente de campo, o que fica bem claro, nos primeiros minutos de Requiem, para investigar um uma cena de crime SOZINHA! Capcom, me ajuda a te ajudar nessa aqui, minha querida…
Veja bem, que mesmo com essas críticas, a história de Requiem ainda é boa. Trouxe uma trama com uma nova personagem e outro já estabelecido e conhecido da franquia e até outras coisas mais, que fãs mais antigos vão ligar com mais facilidade, mas ainda assim deixou um pouco a desejar, em alguns temas que vem se repetindo há alguns jogos.
Ver a dinâmica e o peso que existe na diferença em lidar com as situações entre Leon, um veterano contra B.O.Ws e Grace, que está tendo seu primeiro contato com elas, é excelente. A forma como se vai escalonando as motivações dos personagens e principalmente o quanto a infecção passa a avançar e degradar Leon no decorrer da trama, é muito bem feito e interessante, deixando o jogador aflito a cada tosse que o agente da DSO dá.
Enquanto os principais acontecimentos são esclarecidos em suma maioria pelos eventos da história principal, como de costume na franquia, os documentos espalhados por todo o jogo nos dão uma visão mais aprofundada dos fatos, sendo bem importantes para um entendimento maior da trama, mas que mesmo sem eles é possível compreender o enredo do jogo, caso você não seja daqueles assíduos de caçar todos os files.
Por fim, embora o enredo não seja perfeito, e tenha alguns furos de roteiro, isso não chega a ser algo abominável a ponto de estragar totalmente a experiência, apesar de ainda achar algumas decisões muito questionáveis, não posso mentir, principalmente na reta final do jogo.
A Novata e o Veterano
Como já mencionado, na parte do enredo a dinâmica entre Leon e Grace funcionou muito bem, mas e na jogabilidade? Pois informo, verdadeiramente feliz, que sim, deu muito certo!
Diferente do que aconteceu em Resident Evil 6 e Village, que já tentaram misturar esses dois gêneros que abraçam a franquia a bastante tempo, em Requiem, podemos sentir toda tensão e medo do que está por vir do survival horror e nos deleitarmos com tiros, porradas e bombas da ação de uma forma bem mais consistente e coesa.
Por Grace ser totalmente inexperiente, cada novo inimigo é um desespero, uma ansiedade, um medo novo e diferente. Os ambientes escuros, o perseguidor que temos dessa vez, o inventario limitado e o gerenciamento de itens, tudo isso corrobora para uma experiência muito boa com Grace pelo survival horror.
Grace também faz uso de duas mecânicas apresentadas anteriormente em outros jogos e muito bem utilizadas aqui. A análise e coleta de amostras, e a destruição de corpos que ficam pelo caminho.
Com Leon por sua vez, mais focado na ação por ser um agente veterano em campo, ele traz muito do que já foi mostrado em outros jogos, como o remake de Resident Evil 4, em que é possível usar armas brancas para se defender, atacar e até finalizar inimigos.
Não só isso, mas também ao atordoar os inimigos é possível desferir um golpe físico ou até mesmo finalizá-los. Agora até com finalizações com armas de fogo, que inclusive, achei demais!
Mesmo que não chegue ao nível do RE6, é possível ver que a ação na campanha de Leon dita o ritmo, não só pela quantidade de inimigos, armas e munições que encontramos com mais frequência, mas também pelas cenas protagonizadas pelo agente da DSO. E tenho que confessar, como é bom poder aparar e matar zumbis na machadada! Que embora de maneira diferente, tem sua durabilidade, ele não quebra como as facas, mas precisa ser afiado constantemente para ser usado. Um machado cego, não tem utilidade alguma…
Os inimigos apresentados tiveram um trabalho muito legal por trás, principalmente na primeira parte do jogo, com Grace. Mesmo transformados, os infectados apresentam certos hábitos que possuíam ainda em vida, ou que acabaram adquirindo após sofrerem os experimentos.
Então eles podem acabar murmurando algumas palavras ou frases, repetindo certos movimentos, usando algo que tinham em mãos, ou sabendo como usar outras coisas como armas no cenário e até cantar… Certas coisas podemos até mesmo usar a nosso favor para atraí-los e enganá-los, facilitando nossa passagem ou abate.
Village também serviu de protótipo para outra coisa que foi aprimorada em Requiem, o uso das câmeras em primeira e terceira pessoa. Desde Resident Evil 7, quando um jogo da série principal passou a ser em primeira pessoa, passamos a ter jogadores pedindo pela volta da perspectiva em terceira pessoa, seja por preferência pessoal, ou pela perspectiva em primeira pessoa causar desconfortos físicos ao jogar… O importante é que a Capcom ouviu a comunidade e trouxe de forma excepcional em Requiem essa livre mudança da câmera.
Para Grace, a perspectiva em primeira pessoa é recomendada por padrão, pois intensifica a imersão do jogador no gênero survival horror, elevando a tensão e o potencial para sustos. No entanto, jogar em terceira pessoa também proporciona momentos assustadores e tensos, conforme a proposta do jogo.
Já para Leon, por ter um foco maior na ação, o jogo sugere a terceira pessoa como padrão para ampliar o campo de visão. Ainda assim, é totalmente possível jogar em primeira pessoa e enfrentar zumbis, apesar de ser uma experiência um pouco mais estranha.
Pessoalmente, experimentei ambas as perspectivas, mas preferi jogar a maior parte do tempo em terceira pessoa, pois a visão mais “limitada” da câmera em primeira pessoa não agrada. Contudo, foi um grande acerto da Capcom oferecer a escolha de ambas as perspectivas, o que se integrou de forma muito mais orgânica em Requiem, que foi desenvolvido com essa dualidade em mente, diferentemente da implementação um tanto artificial em Village.
Outra coisa que Requiem soube fazer muito bem, foi interligar as campanhas de ambos os personagens. Como tudo acontece simultaneamente, há momentos em que ambos os personagens acessam os mesmos locais com pouca diferença de tempo. Embora aqui não haja cenário A e B, Leon está sempre no encalço de Grace, então o que é feito ou não na parte em que jogamos com ela, influencia na hora em que Leon passa pelos mesmos lugares. O mínimo feito em Requiem, já foi mais que o que tivemos no remake de Resident Evil 2…
Porém há uma coisa que não me agradou tanto, os puzzles. Particularmente gosto muito de quando são criativos com os Puzzles, e tirando um único “puzzle” em específico, que demorou até mesmo alguns dias para ser descoberto pela comunidade, mas que não afeta em nada a campanha… os outros não apresentam nenhum desafio de fato, muito pelo contrário, muitos deles te dão as soluções de mão beijada.
O backtracking característico da franquia também está presente em diversos momentos, independente do personagem, mas como passamos por vários cenários diferentes ao longo do jogo, os lugares e a mecânica em si ficou mais “compacta”. Com lugares menores, as idas e vindas também são menos frequentes e mais fáceis de serem feitas. Isso não necessariamente é algo ruim, mas talvez tenha ficado um pouco aquém do esperado e de outros jogos da franquia.
Ainda assim Requiem proporciona uma jogabilidade muito prazerosa, conseguindo unir diversos fatores que pareciam impossíveis de dar certo juntos ou de formas alternadas.
Os Espólios de Raccoon City
Precisamos falar sobre referências! Uma franquia com 30 anos e mais jogos do que podemos contar nos dedos, tinha muita coisa a oferecer e ofereceu! Em suma maioria teve um saldo bem positivo.
Provavelmente Raccoon City é o lugar que abriga a maior parte delas e ajudam a aquecer o nosso coração, mesmo que algumas delas tenham sido um puro fan service, sem mais nada. Se pensarmos bem, não faz muito sentido algumas das que encontramos, principalmente por já termos percorrido alguns dos lugares antes, mais de uma vez, em diferentes jogos… Ainda assim, eu gostei demais de ver! Eu sou fã e quero fan service sim!
Requiem é quase uma carta de amor pros fãs com tanta coisa que eles trouxeram. É o título ideal para comemorar os 30 anos da franquia, com certeza!
Gráficos, Trilha Sonora e Desempenho
Resident Evil Requiem foi jogado em um Xbox Series S e mesmo sendo um console um pouco mais fraco, não apresentou problemas. Os loadings (telas de carregamento/ transição) são rápidos, os controles respondem bem, quase não houve quedas de frames durante todo o jogo. Os gráficos são incríveis, mesmo que não estejam em 4k, mas ativando o HDR e deixando a resolução no máximo suportada pelo console, é possível se deleitar com os gráficos de Requiem.
A fotografia e a direção de arte desse jogo são de encher os olhos! O que deixa apenas uma crítica cabível pra essa parte, faltou um modo foto! Acredito que a Capcom irá implementar isso mais para frente, mas não ter já desde o lançamento, não deixa de ser um defeito…
Não encontrei bugs que prejudicasse a jogabilidade, um ou outro relacionados a morte de inimigos, mas nada que não passasse de algo cômico pro momento.
A trilha e os efeitos sonoros do jogo estão incríveis! Já faz tempo que Resident Evil vem acertando nesses dois quesitos. Jogar com fones de ouvido pode elevar ainda mais a imersão e a experiência, com opções até mesmo de ajustes mais finos no áudio.
Não poderia deixar de mencionar, é claro, a dublagem feita para Requiem! A Capcom vem acertando bastante nesta parte também. É sempre muito bom e satisfatório poder ter um jogo dublado, e todo o elenco de dublagem está de parabéns por seu trabalho em Requiem.
Felipe Grinnan retorna em seu papel como Leon, e possuí trabalhos marcantes como: Marty em Madagascar, Peter Parker em diversas animações do Homem-Aranha e da Marvel, Whis em Dragon Ball Super, Drake Bell em Drake e Josh e ter dado voz a atores como Adrien Brody, James Franco e Lude Law em diversos filmes.
Dando voz a Grace, temos a talentosa Stephany Custodi, que tem em seu currículo trabalhos como: Daphne em The White Lotus, Loona em Helluva Boss (YouTube), Pipp Petals em My Little Poney, Fifi La Fume em Tiny Toons Looniversidade, Misao em Rurouni Kenshin (Samurai X – 2023), Mey-Rin em Kuroshitsuji Kuroshitsuji e vários outros trabalhos.
Ainda para os destaques de vozes que podemos mencionar sem gerar spoilers, estão Leticia Quinto, dando voz a Alyssa Ashcroft, com trabalhos da dublagem como Athena em Os Cavaleiros do Zodíaco (Saint Seiya), tanto no anime quanto nos jogos, Riza Hawkeye em Fullmetal Alchemist Brotherhood, Sandy Bochechas em Bob Esponja, Phoebe Buffay em Friends (2ª voz), Kassandra em Assassin’s Creed Odyssey, e emprestando a voz a atrizes como Anne Hathaway e Kirsten Dunst em diversos filmes.
E também o dublador veterano Armando Tiraboschi que dá voz a Victor Gideon. ele já dublou personagens como: Jethro Gibbs em NCIS: Unidade de Elite, Jiren em Dragon Ball Super, Narak em InuYasha, Grutas em Hannibal – A Origem do Mal, e ainda deu voz a atores como Jason Statham, Samuel L. Jackson, Colin Firth e Liam Neeson em diversos filmes.
Réquiem Para Os Mortos, Pesadelo Para Os Vivos
Requiem trouxe de volta o personagem mais popular da franquia, introduziu uma nova personagem, muito bem feita, e recebida pelos fãs, misturou terceira e primeira pessoa e survival horror e ação! Ele merecia sim o hype que todos nós tivemos, embora não seja uma obra perfeita, ele tem muito a oferecer de forma positiva para novos e antigos fãs da franquia.
Mesmo com alguns deslizes, principalmente na parte do enredo e seu ritmo de desfechos, ainda é um título e tanto. Fazia bastante tempo que não me empolgava de verdade com um jogo de RE, ainda mais com um da linha principal, sem ser um Remake, e felizmente, não tive minhas expectativas quebras, obrigado por isso Capcom! Então sim, Resident Evil Requiem, o nono título da série numerada, merece sim uma chance, caso você ainda esteja em dúvida sobre jogá-lo ou não.
A análise foi feita em parceria com o criador de conteúdos @celloevil e com cópia cedida pela Capcom diretamente ao parceiro do REVIL, com texto publicado inicialmente no site Um Player & Meio.



























