Análise – Dragon’s Dogma 2: Dark Arisen – PlayStation 5

Dragon’s Dogma 2 foi certamente um dos lançamentos que eu mais aguardei em 2024 e apesar de amado cada pedacinho daquele mundo construído por Hideaki Itsuno e sua equipe, é inegável que na parte técnica, ele ficou devendo, sobretudo na versão de PC. Com muitos bugs, crashes e uma dificuldade enorme de atingir os 60 FPS em todas as plataformas. Esses problemas decepcionaram muitos fãs, por mais que o jogo em si fosse bom.

Um pouco mais de dois depois do lançamento original, o segundo jogo da série retorna com diversas melhorias, uma nova expansão narrativa e a ausência do seu idealizador, Hideaki Itsuno. Agora chamado de Dragon’s Dogma 2: Dark Arisen, assim como na versão expandida do original. Será que a sequência consegue corrigir os erros do lançamento e vislumbrar um bom futuro sem o seu criador?



Um parêntese necessário

Dragon’s Dogma 2 não é um jogo ruim. Mesmo com seus problemas de desempenho, o jogo original é carregado de originalidade, sendo um RPG de mundo aberto e fantasia muito diferente do que o mercado costuma ofertar, em diversos aspectos. Seja na sua interessante trama carregada de intrigas e política, em sua jogabilidade que carrega bastante do DNA de Devil May Cry – série que consagrou o nome de Itsuno na indústria – ou em suas influências diretas vindo de mangás e animes como Berserk e Claymore. A fórmula fez do segundo jogo tão interessante quanto o primeiro e até melhor em outras frentes.

Contudo, a decepção foi grande: nos PCs, Dragon’s Dogma 2 se mostrava bem instável, carregado de problemas e muito mal otimizado, fazendo máquinas teoricamente capazes de rodar o jogo, não conseguindo desempenhar isso de forma eficaz. Nos consoles, entre eles o PlayStation 5, a coisa foi um pouco menos caótica, mas o jogo não ter suporte a um modo desempenho para atingir os tão esperados 60FPS foi um grande problema para alguns, já que é um jogo frenético que requer respostas rápidas no controle. O resultado disso foi uma chuva de reembolsos pedidos nas lojas digitais, principalmente Steam.

Pessoalmente falando, jogar o jogo a um pouco mais de 30FPS a época pouco me incomodou, dada a qualidade absurda do jogo em seu conteúdo, mas era inegável que dado o histórico recente da Capcom, se esperava mais, já que desenvolvedora está em uma fase iluminada de acertos, pelo menos desde 2017, passando pela nova filosofia do estúdio, mas também muito pela criação elogiado do motor gráfico RE Engine, que acompanha seus jogos desde então. Após o lançamento de Dragon’s Dogma 2, a possibilidade real da RE Engine não estar preparada para jogos de mundo aberto foi levantada e de certa forma, comprovada em Monster Hunter Wilds, que sofreu com problemas semelhantes em seu lançamento. Portanto, uma das missões da Capcom era, enfim, provar que seu elogiado e bem otimizado motor gráfico, era capaz de acobertar todo o seu catálogo de jogos.

Felizmente, a Capcom conseguiu cumprir a sua promessa. Uma das grandes novidades da expansão Dark Arisen, e dos updates prometidos com a expansão, era a melhoria de desempenho e maior estabilidade nos consoles e PCs. Agora, o jogo apresenta menos queda de frames, principalmente em locais de grande densidade de detalhes, como grandes cidades e vilas, além de uma maior fluidez durante as caóticas batalhas, principalmente contra inimigos gigantes, que é um dos grandes diferenciais da série. Os consoles por sua vez, contam com um modo desempenho funcional, aproximando o jogo dos 60 FPS na maior parte do tempo, sem quedas bruscas e mantendo uma qualidade visual bem alta, sem precisar sacrificar demais a qualidade da resolução, algo que Monster Hunter Wilds fez para chegar aos 60FPS.

Para quem joga em consoles e possui uma TV ou monitor com taxas de atualização de 120hz, inclusive consegue jogar o jogo nesse modo, aumentando ainda mais os frames. Como tenho uma tv que possibilita esse modo, não hesitei em testar, e para minha surpresa, o jogo rodou maravilhosamente bem, mesmo com a queda de resolução, continuou muito bonito em uma TV 4K. Ao menos no PlayStation 5 base, console do qual eu joguei, a Capcom conseguiu consertar grande parte desses problemas e entregar um jogo muito melhor do que foi em seu lançamento original. Isso me dá esperanças para o futuro, pois aparentemente, conseguiram consertar o maior problema da RE Engine e o caminho para reconquistar o público na nova expansão de Monster Hunter Wilds também está aberto.

Ao Dark Arisen

Dragon’s Dogma 2: Dark Arisen traz grandes atualizações importantes que afetam a forma de jogar. Agora, podemos contar com seis espaços para habilidades ao invés de quatro, o que pode parecer pouco, mas ajuda muito, visto que a franquia não é exatamente um passeio no parque. Outra melhoria que foi muito bem vinda foram os novos comportamentos em combate dos peões ou paws, como ficaram conhecidos no primeiro jogo sem ainda uma localização oficial.

Os paws, nossos companheiros de jornada, são cruciais para o sucesso durante as batalhas, te ajudando de várias formas. Notei que eles estão mais espertos e menos dependentes, se adaptando melhor ao combate e respondendo melhor aos nossos comandos. No jogo base, às vezes eu passava bastante sufoco para ser curado, mesmo com a vida do meu personagem quase no fim, algo que agora não ocorre mais. Fiquei muito feliz com essa atualização, melhorando algo que não era necessariamente ruim, mas que precisava sim de ajustes. Além disso, a Capcom melhorou o salvamento automático do jogo e ampliou os espaços de salvamento. Se você gosta de jogar em modos mais desafiantes, agora também temos um novo nível de dificuldade disponível.

A cereja do bolo, claro, é a expansão em si. Dark Arisen vem com uma nova história em um novo mapa, Norgan, expandindo mais ainda a narrativa e trazendo novos personagens para ela. Aqui nos vamos conhecer a jovem Eir, que vai se unir a nosso Arisen em uma caçada para encontrar o dragão caído. Eu estava muito ansioso para ver os rumos narrativos que Dragon’s Dogma 2 teria após a saída de Hideaki Itsuno da Capcom.

Falando por mim, eu tenho várias questões sobre a continuidade da série sem o seu maior idealizador, ao mesmo tempo que também sei que a Capcom conseguiu reinventar-se durante os anos, mesmo sem os grandes responsáveis pela criação de suas séries de sucesso. Resident Evil se encontrou sem Shinji Mikami, Street Fighter achou o seu caminho sem Yoshinori Ono e Devil May Cry sem Hideki Kamiya, mas com o próprio Itsuno. Embora eu ache que esse conteúdo tenha começado a ser desenvolvido ainda sob a tutela de seu criador, a equipe responsável deu conta maravilhosamente bem do recado. A jornada a ser acompanhada na expansão é tão interessante quanto a do jogo base, contribuindo bem para a mitologia desse mundo e entregando praticamente um Dragon’s Dogma novo, mas sob o formato de DLC.

A região de Norgan é uma terra congelada, adicionando um novo bioma ao jogo e também consertando outro problema presente no jogo original: a variedade de inimigos. No lançamento do jogo base, houveram muitas reclamações sobre a repetição de inimigos que o jogo tinha, com baixa variedade que em poucas horas de jogo já podia ser sentida. Norgan adiciona novos inimigos ao jogo, baseado no clima local, melhorando bastante a variedade a ser encontrada durante toda a sua jornada, mostrando também que a Capcom esteve sim ouvindo o feedback de sua comunidade, o que é de grande importância em uma indústria que a cada dia que passa, se recusa a olhar para os interesses do seu maior pilar, o público.

Além de muitas horas de uma excelente jornada, Norgan ainda tem muito mais a oferecer. Junto da nova expansão, vieram 12 masmorras novas para serem exploradas, podendo já serem acessadas no nível 20, mesmo antes de terminar o jogo base. Essas masmorras adicionam bastante conteúdo extra a jogatina, mas também premia os fãs com itens raros, que certamente vão te beneficiar ao longo não só da campanha principal, mas também do DLC. A Capcom para mim sempre foi uma referência de como fazer conteúdo extra para seus jogos e na maioria das vezes, tende a acertar. A sensação que eu tive durante o meu tempo com essa expansão é justamente estarmos diante de mais um acerto do estúdio. Lembrando que todo o jogo está localizado em nosso idioma e o trabalho continua muito bem feito, apesar de não termos dublagem, como de lançamentos recentes.

Infelizmente, nem tudo prometido pela Capcom ainda foi consertado. Alguns bugs visuais estão presentes dentro do jogo, que pode acabar incomodando algumas pessoas. Embora tenha acontecido pouco comigo, ainda sim estão presentes, mas muito provavelmente vão ser consertados via atualizações. Contudo, o maior problema que eu tive, foi em um bug com meu save game antigo, que me impedia de acessar o meu jogo mais adiantado, o que foi um tanto quanto frustrante, já que tive que voltar em um salvamento bem anterior. No entanto, eu preciso ser justo, pois pode muito bem ter sido um bug do jogo, mas como também do próprio PlayStation 5 em seu gerenciamento de dados. São dois caminhos que podem ter ocorrido, por isso depois de refletir um pouco, decidi dar o benefício da dúvida, mas não deixa de ser um alerta.

Dragon’s Dogma 2: Dark Arisen é um alívio. A Capcom conseguiu enfim melhorar ao menos 90% do que impediu o jogo base de ter o sucesso que merecia em seu lançamento nessa nova expansão. Jogar se tornou algo ainda mais prazeroso com todo o novo conteúdo e melhorias técnicas, mostrando que eles ouviram com carinho a sua comunidade e buscaram entregar um produto bem feito e capaz de alcançar ainda mais pessoas. Também é a prova de que a RE Engine dá conta de jogos em mundo aberto, preocupação que não somente esteve acerca de Dragon’s Dogma 2, mas de Monster Hunter Wilds.

O trabalho de otimização foi muito bem feito. Mesmo sem a presença de Hideaki Itsuno, Dark Arisen trouxe uma campanha de bastante qualidade e conteúdo de valor, provando que a franquia está em boas mãos e que as portas de um terceiro jogo foram definitivamente abertas, pavimentando um caminho interessante para o futuro da série nos próximos anos.

O jogo foi analisado com uma chave digital do PlayStation 5 cedida pela Capcom Brasil via assessoria de imprensa Theogames.

Pontos positivos:
Melhorias técnicas;
Novidades e conteúdo realmente bom;
Nova campanha mantém a qualidade da série.
Ponto negativo:
Alguns bugs ainda persistem.
9