Desde o lançamento do longínquo Haunting Ground, muitos fãs clamavam por um título que remetesse a esse estilo clássico a la Clock Tower. Uma protagonista indefesa, que precisa fugir e escapar de assassinos maníacos contando apenas com a opção de se esconder e poucos itens que podem atrasar os inimigos.
Lançado em 2018, Chris Daril nos apresentou Remothered: Tormented Fathers, que foi um sopro de vida para o gênero. Contando com uma trama com tantos plot twists que deixaria Kojima com inveja, uma câmera em terceira pessoa e uma ambientação digna dos melhores filmes de terror italianos, o jogo foi muito bem recebido pelos fãs de survival horror. Em 2020, uma sequência intitulada Remothered: Broken Porcelain foi lançada, sendo muito mal recebida tanto pelo público quanto pela crítica. Apesar disso, a história da franquia estava encerrada, as pontas soltas haviam sido fechadas e um novo jogo parecia improvável. Felizmente, após seis anos desde o último lançamento, a Stormind Productions lançou um novo capítulo na saga, que pode não trazer tanto para o futuro da franquia, mas consegue expandir ainda mais esse universo insano.
Uma criança sonha em fase REM

Um ano após o desaparecimento de seis garotas na Sicília, Susan (Cissy Jones) recebe uma estranha fita que mostra sua filha. Ela então parte rumo a mansão da família Ashmann no Monte Etna, mas logo ela se vê em um terrível pesadelo onde vai ter que usar tudo a seu alcance para sobreviver à noite e descobrir o que aconteceu com sua filha, enquanto desvenda os mistérios da enigmática Freira Vermelha (Maggie Robertson).
Remothered: Red Nun’s Legacy é o terceiro título da franquia, mas você não precisa ter jogado os outros jogos antes de se aventurar nesse. Ao contrário de Broken Porcelain que é uma sequência (e uma prequela), Red Nun’s Legacy expande esse universo com uma história que conecta os outros jogos mas que pode ser apreciada por si só.

A história de Red Nun’s Legacy se conecta profundamente aos outros títulos, então realmente é mais interessante se você tiver jogado os outros jogos. Só que o terceiro jogo conta com uma trama mais isolada, então com exceção de alguns elementos você tem um jogo com uma história macabra que pode ser jogada de forma independente. Remothered nunca escondeu sua inspiração no cinema, sendo fortemente influenciado por Silêncio dos Inocentes e filmes do subgênero giallo, mas neste jogo você consegue sentir ainda mais as inspirações no cinema de terror italiano. As cores dos cenários, a direção de arte, a forma que o ambiente é construído remete muito aos filmes de Dario Argento (e tem algumas cenas que parecem ter saído direto de um filme dele).

A trama de Remothered sempre foi, não diria complexa, mas cheia de acontecimentos com plot twists em cima de plot twists. É tanta coisa acontecendo que fica fácil você se perder, mas o novo título faz isso de uma forma menos confusa. A estrutura narrativa é mais simples mas, é claro, conta com inúmeros plot twists de deixar o jogador boquiaberto. Apesar disso, é um título um pouco mais direto que seus antecessores. O jogo lida com temas pesadíssimos como abuso infantil, sexual e incesto de uma forma incrivelmente bem trabalhada em sua construção. É um jogo que não tem medo de ir a certos lugares e que com certeza teria sido alvo de polêmicas em outros tempos (sim, estou falando de você Rule of Rose).
Uma Mãe (MOTHER) grita e se esvazia em dor

O jogo funciona como um jogo clássico de fuga de stalker: o jogador deve explorar e investigar a mansão, coletando documentos, resolvendo puzzles, mas principalmente fugir de misteriosos stalkers que estão te perseguindo para matá-lo. Se você gostou da parte do começo de Resident Evil Requiem com Grace indefesa, esse jogo foi feito pra você.

O jogador pode correr para fugir dos inimigos, se esconder em lugares como armários e debaixo de sofás, além de usar itens de distração e defesa. Como é basicamente um jogo de gato e rato, seu principal objetivo é tentar explorar a mansão em busca de sua filha ao mesmo tempo em que evita os inimigos do jogo. O jogador pode pegar itens para arremessar e distrair os inimigos, armas para escapar caso seja agarrado e até mesmo armas contundentes para atacar os inimigos.

Para se esconder dos inimigos, o jogador pode se esgueirar debaixo de um sofá, debaixo da cama ou se enfurnar em um armário, tomando cuidado para que os inimigos não te notem. Mesmo durante a exploração, é importante tomar cuidado com o barulho para que os inimigos não te ouçam e vão atrás de você, pois assim como o Mr. X em Resident Evil 2, as noviças estão o tempo inteiro rondando pela mansão procurando por você.
Embora tenha uma apresentação interessante em um primeiro momento, meu principal problema com o jogo foram os stalkers. O primeiro (e até mesmo o segundo) título tinha inimigos muito mais marcantes, com visuais interessantes e originais. Em Red Nun’s Legacy eu tive a impressão mais de ser um recolor do que vários inimigos realmente diferentes entre si. Os stalkers fazem algo muito interessante, que é ficar repetindo seu trauma enquanto te caçam, mostrando um pouco mais do sofrimento dessas figuras, mas infelizmente elas não tem muito mais a oferecer além disso.

Uma falha pra mim no título é que os inimigos não representam uma sensação de perigo real, o jogo te dá bastantes itens de cura e você consegue escapar dos stalkers com uma certa facilidade. É claro que tem que haver um balanço para não ficar algo muito frustrante, que foi uma reclamação do primeiro jogo, mas os inimigos também devem oferecer perigo ao jogador. Além de que, neste jogo você pode usar armas melee (com baixa durabilidade) para se defender dos inimigos, então os stalkers não são tão ameaçadores quanto poderiam ser.
A direção de arte entretanto é fantástica, e explorar a mansão é um verdadeiro deleite. Conforme vamos avançando no jogo, liberamos habilidades que auxiliam na exploração e revelam lugares e detalhes que permitem com que avancemos na trama. É um desenvolvimento muito bem feito com um level design muito bem construído.
A morte Rubra (RED) traz seu terror

A direção de arte e design de som com certeza são o ponto forte do jogo. Não podemos fingir que o jogo não é um título com orçamento modesto, mas em momento algum isso é um problema e fazem muito proveito de tudo que puderam para garantir uma ótima experiência de terror. A ambientação é uma das mais marcantes em um jogo de terror recente, lembrando os clássicos da era de ouro do survival horror no PS2. O design de som é outro ponto altíssimo, com os sons de passos reverberando pela mansão, você escutando os inimigos te procurando e diversos outros detalhes que tornam o jogo completamente imersivo.
A trilha sonora também é um grande destaque, contando com o lendário Akira Yamaoka na composição, que faz temas interessantíssimos e uma canção original perfeita para a trama do jogo.
O que pode pesar um pouco mais para os jogadores é a performance. Eu joguei a versão de PlayStation 5, que conta com um modo performance e qualidade. Eu costumo preferir jogar no modo performance por conta dos 60fps, mas aqui a resolução cai bastante e os efeitos de iluminação também, com muitos detalhes no cenário tendo pop-in de texturas e sombras aparecendo do nada. Por conta disso eu preferi jogar no modo qualidade, e acredito que seja uma experiência bem mais estável e visualmente agradável neste caso em específico.
CONCLUSÃO
Zerado em aproximadamente oito horas, Remothered é uma excelente adição à este universo criado por Chris Darril. Apesar de contar com uma trama cujo forte são mais os temas do que a história em si, Remothered: Red Nun’s Legacy é uma excelente obra para quem anseia por mais jogos de terror em um estilo que acaba não sendo tão predominante no gênero. Inimigos não tão marcantes e a facilidade para despistá-los tornam o jogo não tão memorável quanto o primeiro título da franquia, mas este é sem dúvidas um ótimo capítulo para esta saga, mostrando que há sim espaço e demanda para mais jogos de terror nesse estilo e que os títulos de menor orçamento não ficam atrás de grandes empresas. Clock Tower faz falta, mas Remothered ocupa muito bem esse espaço.
O jogo foi analisado com uma chave digital do PlayStation 5 cedida pela Sandbox Strategies.





