O reboot do Resident Evil vai ser ótimo (mas você vai odiar)

Após o fracasso de crítica e público de Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City, a Constantin Film tenta novamente emplacar Resident Evil nos cinemas, dessa vez com o diretor Zach Cregger, que chegou com os dois pés na porta com Noites Brutais e agora é o grande nome do momento após o sucesso de A Hora do Mal. E a Sony está se apoiando totalmente no nome do diretor, porque a recepção dos fãs dos jogos não foi das melhores.

No teaser trailer podemos ver o protagonista, Bryan, interpretado por Austin Abrams, o drogadinho do Weapons ou o bezerrinho do Euphoria, entrando em uma residência, possivelmente do mal, e tentando sobreviver ao horror.



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Na sinopse oficial do filme temos:

“Em uma história completamente nova, Resident Evil acompanha Bryan (Austin Abrams), um transportador médico que involuntariamente se encontra em uma corrida sem pausas e cheia de ação pela sobrevivência, quando uma fatídica, aterrorizante noite se transforma em caos ao seu redor”.

O filme começou a ser rodado ano passado, e o diretor já havia adiantado que seria uma história inédita com um personagem novo. Recentemente tivemos adaptações muito boas baseadas em videogames, como a série do Fallout, que não reconta uma história de algum jogo em específico, mas cria uma trama nova dentro do universo da franquia. O novo Resident Evil segue essa mesma linha, e acredito que seja uma ótima ideia e uma ótima adição pro universo da franquia, mas eu acho que o que pega mesmo nos fãs é que o filme claramente não tem como se passar no universo dos jogos.

Além de estar nevando, como a gente já havia visto em fotos do set, o longa se passa nos dias atuais, como podemos ver com o protagonista usando um smartphone. Zach disse que para ele o filme poderia se passar durante os eventos de Resident Evil 2, mas como vemos isso não teria como ocorrer. Digo, até tem, o que são mais cinco furos de roteiro pra Resident Evil não é mesmo?

O ponto é, o filme não é canônico, ele se difere do lore dos jogos, ele não adapta uma trama em específico e nem tem como se passar durante os eventos dos jogos. Então, o que ele poderia ter de Resident Evil? Todo o resto.

Para quem não sabe, os roteiros do Zach Cregger costumam vazar bem antes de entrarem em produção, muito possivelmente porque ele apresenta o projeto para possíveis compradores e interessados. Então o roteiro do Resident Evil dele vazou há mais de um ano. E eu li o roteiro.

Obviamente não vamos falar sobre os conteúdos vazados, mas o que posso adiantar: Primeiramente, sim, o trailer não parece nada a ver com Resident Evil, mas o roteiro parece muito com os jogos.

“Mas como se o filme não tem nada dos jogos?” – Então, o diretor já disse que é fã dos jogos e eu acredito nele, o ponto é que o diretor parece ser muito mais fã do Resident Evil 4. Como ele mesmo disse, o filme acompanha o protagonista tentando levar uma carga de um Ponto A até um Ponto B, e o filme aparenta operar nessa lógica e sentido de urgência. Ainda sem especificar o conteúdo vazado, mas a estrutura do filme, a progressão, lembra e muito os jogos da franquia. A forma que as coisas acontecem e as coisas que acontecem no roteiro lembram muito os videogames. Tem várias coisinhas que acontecem ou que atrapalham a progressão do Bryan que são totalmente a experiência de quem jogou os jogos.

Teve gente que leu o roteiro e não teve essa impressão, que parece muito mais O Enigma de Outro Mundo do que RE. Pra mim só dizem isso por causa dos monstros do filme e porque tá nevando, mas isso se dá mais por conta das liberdades criativas que o diretor tomou, que eu não acho um problema, mas pra mim foi o único erro dele nessa adaptação.

Há uma criatura aí além de braços e pernas de ex-humanos?

Em um ponto de vista comercial, o último filme adaptou os jogos e foi um fracasso. Não estou nem entrando no ponto de terem tentado enxotar 3 jogos em um único filme e chamado um diretor que só sabe trabalhar tramas com uma única locação. E não se enganem, eu acho o trabalho do Johannes Roberts divertidíssimo, inclusive mesmo tendo achado o Resident Evil dele chato, eu amo a cena do Crush.

Mas o ponto é: acabaram de tentar fazer uma adaptação dos jogos e não deu certo, o estúdio não iria tentar fazer outra versão da mesma história tão cedo. Então faz sentido que criem uma história original para o reboot da franquia. E muita gente disse que o filme só tem o nome de Resident Evil, que pegaram um roteiro pronto e só tacaram o nome nele. Não acredito que seja o caso. A conta do @RE_Wiki fez um post esclarecendo algumas questões do filme e explicou que o roteiro já estava pronto sim, só que o diretor tinha escrito um filme baseado em Resident Evil, mas de forma que pudesse mudar alguns elementos caso não conseguisse os direitos para a adaptação.

Então o filme sempre foi inspirado em RE, não é o caso de pegar o próximo Extermínio e jogar Resident Evil em cima dele, porque mesmo sendo um filme de zumbi o Extermínio não tem nada a ver com a franquia. Já o roteiro de RE tem muito o coração da saga, inclusive se lançassem ele como um IP nova tenho certeza que o pessoal diria: “Meu Deus é igualzinho Resident Evil”. Mas que nem eu disse antes, pra mim o único erro foi a liberdade criativa que o Zach Cregger tomou no reboot.

Daria para a história fazer parte da história da saga e usar as criaturas diferentes dos zumbis tradicionais infectados pelo T-vírus, mas como ele faz a trama se passar na segunda pior cidade do universo dos jogos de terror, em um contexto totalmente diferente do canon dos jogos, o título acaba criando um universo totalmente novo que é o contrário que os fãs pedem há tempos.

Eu particularmente não me importo com essas mudanças e realmente só espero de uma adaptação cinematográfica uma única coisa: que seja divertida. Eu entendo completamente quem gostaria de ver os S.T.A.R.S. explorando uma mansão infestada por zumbis e cheia de armadilhas, meu filme dos sonhos inclusive seria uma adaptação do Resident Evil 1 que abraçasse a galhofa do jogo original. Mas aí entramos em outra questão, que as adaptações para cinema sofreriam justamente por conta que… elas são adaptações.

Cada obra passa pela visão criativa das pessoas responsáveis por ela. Eu sempre reclamo do remake do Resident Evil 2, mas quero usar ele aqui só para uma comparação. Mesmo o RE2R é muito diferente do Resident Evil 2 original e não digo por questões de cortes ou alterações, mas porque o RE2R é a visão dos realizadores do remake, que é diferente da visão de Hideki Kamiya. Por isso toda obra ou adaptação é a visão específica dos realizadores sobre aquela história. O Castlevania do Warren Ellis, é a visão dele dos jogos. O vindouro filme do Street Fighter parece não se levar tão a sério e abraçar a galhofa, e tem muita gente que amou e muita gente que ficou triste porque queria algo mais sério.

“Mas a pessoa então não entendeu a obra que está adaptando”, pode ser, ou a pessoa só interpretou a obra daquela maneira. Os fãs costumam criticar o Paul W.S. Anderson pelo rumo que a franquia tomou em seus filmes de Resident Evil, mas pra mim ninguém entendeu tão bem os jogos quanto ele (mas só no primeiro filme).

Em Resident Evil: O Hóspede Maldito, o Paul Anderson faz um excelente uso de espacialidade do cenário. Ele filma de forma que a gente saiba em que ponto do “mapa” os personagens estão o tempo todo e o motivo de não conseguirem prosseguir. Ele também filma de forma que remeta aos jogos e faz com que os personagens façam muito backtracking para “progredir” enquanto descobrem a trama aos poucos usando elementos dos jogos. Ele apresenta a Umbrella como grande vilã por trás de tudo que ocorreu, os personagens estão muito armados mas os zumbis ainda representam uma ameaça muito grave, o local está cheio de armadilhas mirabolantes enquanto eles estão correndo contra o tempo. O filme tem bastante ação e uma vibe mais sci-fi, mas é algo característico de RE e acho que o Paul Anderson teve uma compreensão muito boa dos jogos quando fez o primeiro filme.

Milla Jovovich (Alice) em Resident Evil: O Hóspede Maldito

Pra mim, salvo algumas questões bem pontuais, o primeiro filme poderia ser canônico e uma história paralela aos jogos (eu mesmo acho que ele daria um Resident Evil 0 melhor que o próprio RE0).

Depois beleza, o Paul Anderson pirou na fanfic e deu no que deu, mas o que eu queria trazer é justamente que mesmo sendo uma história diferente ele conseguiu interpretar e trazer muito bem todos esses pontos dos jogos pela visão dele no primeiro filme. O Johannes Roberts (Bem-vindo a Raccoon City) sofreu muito em tentar adaptar o RE1, o RE2 e até mesmo o Resident Evil 3 em um mesmo filme, mas pra mim o problema dele não foram as mudanças que ele fez com o material base, mas que o filme não consegue traduzir o jogo para o cinema.

Tem os personagens ali, tem as locações, tem referências blablabla etc coisa e tal mas não parece que estou vendo uma adaptação dos jogos. Eu gosto que ele traz uma ótica noventista e ao mesmo tempo inspirada em John Carpenter pro filme mas o filme em si não se sustenta nem como filme e nem como adaptação. Ao contrário do filme de Paul Anderson e, com base no que eu li, o de Zach Cregger.

Pelo teaser eu realmente entendo a reclamação, porque ali visualmente falando não vemos nada que grite Resident Evil. Claro, no teaser vimos que o diretor filma tudo simulando uma câmera em terceira pessoa, podemos ver Bryan procurando itens e encontrando uma shotgun sem munição, mas só isso não transparece o que os fãs esperam ver em uma adaptação do jogo.

Só que por enquanto é só o teaser e tendo lido o roteiro eu acredito que o diretor realmente goste da franquia e entenda esses elementos que formam os jogos, mesmo fazendo uma história que não vai encaixar com os outros jogos e nem siga o cânone da franquia. Mas eu acredito que o filme não somente será ótimo, como também terá a essência do que fazem os jogos da franquia, serem os jogos da franquia.

Não sabemos se o filme vai fazer sucesso, se vão querer continuar com esse universo e adaptar os jogos trazendo para os dias atuais (e na neve) ou se vão rebootar de novo daqui a alguns anos. Eu realmente gostaria de ver uma adaptação mais “fiel” do primeiro jogo, mas estou confiante na versão de Zach Cregger. Os filmes sempre inspiram os jogos e vice-versa, vamos ver se vão aproveitar algo desse.

Mas se eu estiver errado, podem voltar daqui a uns meses e comentar.

*Colaborou com a inserção de imagens e do conteúdo no REVIL: Ricardo Andretto