Resident Evil tem DUAS linhas do tempo?

Desde o lançamento do remake de Resident Evil 2, essa dúvida acabou se tornando bem comum entre a comunidade. A reimaginação de Resident Evil 2 traz alguns eventos diferentes do que ocorria no que os fãs considaravam ser a versão canônica da história, e logo em seguida veio Resident Evil 3 que trouxe eventos diferentes e algumas mudanças para conectar melhor com o universo maior da saga. E aí veio Resident Evil 4, que mudou completamente a Operação Javier. E com isso diversos fãs começaram a suspeitar…

“Estamos em uma nova linha do tempo diferente dos jogos originais?” E a resposta é: mais ou menos.



Assista ao vídeo especial ou continue a leitura do conteúdo no REVIL:

 

Para quem está conhecendo a franquia agora, imagino que isso deva ser um pouco mais confuso, mas ao contrário de diversas outras franquias Resident Evil NUNCA recebeu um reboot, então o que acontecia com os jogos é que eles recebiam retcons e adições, mas jamais foram apagados.

Resident Evil: trazendo furos de roteiro desde 1996

Em 1996 foi lançado o primeiro jogo da série Resident Evil. Na trama do título, poderíamos escolher jogar com Chris Redfield ou Jill Valentine, só que a depender de quem selecionássemos, a trama mudaria. Se escolhêssemos Chris, Barry Burton não estaria no jogo, sendo substituído por Rebecca Chambers e ao final do jogo, encontraríamos Jill presa em uma cela. E se escolhêssemos Jill, Rebecca não estaria no jogo e ao final encontraríamos Chris preso em uma cela. No melhor final de cada protagonista, poderíamos salvar apenas três personagens: Chris e Barry no final da Jill, ou Jill e Rebecca no final do Chris.

Ou seja, uma campanha anularia a outra, então, qual delas é canônica? As duas.

Embora não tenha como a gente obter um final onde os quatro personagens sobrevivam juntos, a Capcom considera que tanto Chris quanto Jill exploraram a Mansão Spencer e que os quatro membros do STARS sobreviveram ao incidente da mansão.

O Brad também sobreviveu, mas quem liga?

Então dessa forma, o cânone é uma mistura das duas campanhas, tanto de Jill quanto de Chris. Enquanto em Resident Evil 1 uma campanha acaba anulando a outra, em Resident Evil 2 clássico o jogo faz o contrário. Se você começar o jogo com Claire Redfield, ao terminar a campanha você pode jogar o cenário B com Leon, mostrando o outro lado da história com as duas tramas se interligando. E o mesmo ocorria caso você começasse com Leon, nesse caso o cenário B seria com a Claire e há várias diferenças na trama nesses quatro possíveis cenários. Mas qual o cenário canônico? Os quatro.

Até um tempo atrás, a ordem Claire A e Leon B era considerada “a certa”, mas isso traria alguns problemas. Em Resident Evil 2 há sequências que só podem ocorrer em um cenário ou outro. Por exemplo, o jogador só pode encontrar Robert Kendo no cenário A, mas em Resident Evil 4 Leon usa uma arma feita pelo irmão de Robert Kendo. O mesmo vale para Marvin Branagh, já que o jogador só encontra o policial com vida no cenário A. E aqui vemos algumas das diferenças entre as escolhas do original para o remake.

“Caramba Leon, em toda linha do tempo eu morro”

A reimaginação de Resident Evil 2 considera que Leon encontrou Marvin, pois em Resident Evil 4 ele está com a faca que foi entregue pelo policial.

No cenário Leon B do título clássico, Ada Wong toma uma porrada do Tyrant que a deixa supostamente morta. E em Resident Evil: The Umbrella Chronicles, no cenário Death’s Door, vemos que esse foi o cenário considerado canônico, e na campanha descobrimos como Ada sobreviveu e conseguiu escapar de Raccoon City. Já no remake de Resident Evil 2, a Ada tem o mesmo destino que em Leon A, onde ela supostamente cai para sua morte.

Em Resident Evil 3 Nemesis, Brad Vickers é morto por Nemesis, já no remake ele é infectado por zumbis e ataca Marvin antes de ser morto. Mas em Resident Evil Outbreak, Marvin é atacado por uma horda de zumbis antes de se trancar em uma sala na RPD.

Resident Evil 4 (2023) trouxe diversas mudanças, mas acredito que a que chame mais atenção seja a operação Javier. Em Resident Evil: The Darkside Chronicles, Leon e Jack Krauser são enviados para a América do Sul em busca do líder de cartel Javier Hidalgo, que estava comprando armas biológicas de um ex-funcionário da Umbrella. Tem todo o plot do jogo que daria pra fazer um artigo inteiro só sobre isso, mas o que acontece é que: em um momento Krauser tem seu braço ferido e por conta disso ele acaba sendo dispensado pelo exército, motivando-o a ir atrás de Albert Wesker para ter seu braço reparado e ganhar poder.

“Quando você disse que a gente ia pra América do Sul eu pensei que era Copacabana”

Já no remake, a operação Javier foi uma operação do Governo Norte Americano para infiltrar um grupo de forças especiais na América do Sul para acabar com um cartel de drogas, mas todos os membros da equipe foram mortos, exceto Krauser, pois o Governo não quis resgatar os soldados, fazendo com que Krauser entrasse em um caminho de pura maldade e vingança.

Então com isso, fica fácil considerar que existam duas linhas do tempo. Inclusive, em uma entrevista ao Famitsu, o diretor da nova versão de Resident Evil 4 foi perguntado se os fãs precisavam ter jogado Darkside Chronicles para entenderem sobre a Operação Javier, e ele respondeu que “não, pois o jogo segue a linha do tempo de Resident Evil 2 remake”.

“Então tá confirmado, tem duas linhas do tempo!”

O diretor usa a expressão linha do tempo para explicar que o RE4 remake é sequência do RE2 remake, e não que os jogos existam especificamente em uma linha do tempo própria.

Na época do lançamento do Resident Evil 3 Remake, a Monique do Resident Evil Database conseguiu entrevistar Peter Fabiano e ela perguntou se os remakes substituiriam os jogos originais na linha do tempo oficial e canônica. E a resposta do produtor foi que “Eles todos existem ao mesmo tempo”.

Foi assim que a franquia sempre operou, os novos remakes seguem uma continuação entre si, mas não significa que eles são um “What if” ou que substituíram os originais. Todos esses jogos acabam coexistindo e se somando, mesmo com algumas (ou no caso várias) inconsistências entre si.

E apesar dessas mudanças, todos os pontos principais dos originais estão nos remakes. Nas duas versões de Resident Evil 2, Sherry Birkin é infectada e Claire acha a cura para a garota. Nas duas versões, Ada supostamente morre e volta novamente em Resident Evil 4.

Mesmo em Resident Evil 3, apesar da mudança da forma como morre, Brad acaba morrendo, mesmo que a forma que Marvin tenha sido atacado mude, no fim das contas ele acaba infectado e morre. O mesmo para Jill que é infectada e ao final escapa da cidade via helicóptero com o destino de Nicholai Ginovaef (Nikolai Zinoviev) incerto.

E embora os eventos sejam diferentes, eles não anulam as outras histórias da saga, no máximo o que pode acontecer é que essas histórias não ocorreram exatamente igual foram mostrados nos jogos, mas o importante é que elas aconteceram.

Então mesmo quem tiver jogado apenas os remakes vai conseguir aproveitar esse universo. Mas é claro que isso não significa que eles substituam os jogos originais, mesmo o remake de Resident Evil não substitui o original. Embora ele tenha várias adições como a Lisa Trevor, tanto o original quanto o remake são considerados canônicos na franquia. Em Resident Evil Revelations 2, tem duas ceninhas que fazem referência ao primeiro jogo da saga. Em uma cena, Claire faz uma piada dizendo que quase virou um Sanduíche de Claire.

Queria esse sanduíche…

Mas a fala DESSA FORMA, só aconteceu no original, pois no remake a fala Jill Sandwich foi removida para ficar menos estranha.

Barry, isso não melhora seu comentário…

E ao final do jogo, enquanto Barry caminha para enfrentar o último boss, ele mostra sua magnum e diz “I HAVE THIS” que é uma referência a sua fala no primeiro jogo, mas assim como o Jill Sandwich, essa frase não está no remake. Por isso um jogo não anula o outro, e todos acabam se somando para formar essa maluquice que é o lore de Resident Evil.

Sentimos muito, mas Resident Evil 6 ainda é canônico

Durante o Showcase de Resident Evil Requiem, o diretor Koshi Nakanishi disse que o Leon do jogo é um Leon pós-Resident Evil 6, e alguns fãs ficaram surpresos que o jogo é canônico. Infelizmente para alguns (ou muitos), RE6 é sim canônico, os remakes não apagaram os jogos originais nem criaram uma linha do tempo alternativa onde o RE6 não existe. Então não é que Resident Evil Requiem se passe na “linha do tempo” dos remakes ou na “linha do tempo” dos clássicos, é só que todos esses jogos são canônicos, e a verdade está ali no meio dessa bagunça toda. Só que não dá pra negar que furo de roteiro faz parte da franquia desde o primeiro jogo né.